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Esplanaurantes

Para os que inexplicavelmente aguardavam por novo artigo no blog declaro desde já que este texto pretende ser mais um conselho do que uma crítica. Isto porque os dois espaços de que vou falar são assumidamente (ou deviam ser) locais para beber um copo e não para tomar refeições.

E ver vistas.
  
Por esta altura do campeonato (qual campeonato?), uma significativa parte dos que  me lêem já deve ter experimentado, ou pelo menos ouvido falar, do restaurante/bar/esplanada/lounge TOPO, no Chiado. Todos ouvimos e lemos as maravilhas que sobre ele se tem dito na comunicação social especializada («A nova esplanada mais cool  de Lisboa», para o site New in Town; «O novo terraço da moda em Lisboa», segundo o blog Casal Mistério; ou «O novo terraço-esplanada da moda mais cool de Lisboa» para quem queira simplesmente fazer plágio).

No TOPO Chiado podemos usufruir de uma bonita vista para o "centro histórico" de Lisboa, de um espaço amplo e bem decorado e de uma vasta carta de bebidas com escolhas para todos os gostos. O que não podemos (ou devemos) fazer é tentar jantar lá. Aí já estamos a misturar as coisas. 

Por onde começar? Porque não pelo velho conceito de adicionar €5 a todos os preços da comida porque simplesmente se tem o privilégio de comer a olhar para um monumento histórico (neste caso o Castelo de S. Jorge que, a propósito, é de entrada gratuita para os munícipes)? Aumentar os preços de cada prato na lista em virtude da localização do espaço só se justifica, na minha opinião, se existir uma harmonia e coerência entre a qualidade da vista e a qualidade do prato.

Atentem neste bife tártaro, por exemplo.

Provavelmente estarão a pensar: «Que bom aspecto! Quero experimentar!». Não, não querem. Apesar de bem apresentado, estava insuficientemente temperado, a carne não tinha sabor e a dose era reduzidíssima. «Ah, mas para petiscar até passava!», dirão. Pois, o problema é que este "petisco" faz-se passar por prato e custa o mesmo (cerca de €20) que um bife tártaro no Pabe (um dos melhores bifes tártaros de Lisboa). Quando a comida é realmente boa não me importo de pagar mais pela vista e localização do espaço, já que a conjugação entre a experiência gustativa e visual também tem o seu valor.

Tipo aqui.

O resultado desta e de outras peripécias é no final recebermos uma conta adequada a um restaurante de fine dining, mas sem termos tido direito à parte do fine. O espaço está claramente direccionado para os turistas que (felizmente) assolam  a nossa cidade e para uma bebida a seguir ao trabalho ou ao jantar, pelo que não é dada especial atenção ao serviço de restaurante (demorado) nem ao sabor dos pratos (variaram entre o razoável e o insípido).

Não obstante, este não é um fenómeno isolado. Existem outros espaços que aproveitam o facto de terem uma boa localização e excelentes vistas para nos proporem um serviço de restaurante muito perto do deplorável.

Uma vez mais: nota máxima para as vistas.

O Noobai, um espaço adjacente ao multicultural Miradouro de Santa Catarina (a.k.a. Miradouro do Adamastor), já existe há uns bons anos e tem provavelmente uma das melhores localizações para a prática do banho de sol urbano. As bebidas têm preços aceitáveis, os empregados são diligentes q.b. e o registo é descontraído. 

O problema, mais uma vez, é quando tentam ser o que não são (e não conseguem ser) e começam a cozinhar. Voltamos ao problema do pricing vs qualidade dos pratos, da insuficiência de empregados que torna o serviço demorado e da manifesta falta de preparação do staff existente para lidar com uma casa cheia. Em suma: comida cara, seca e fria, servida por um rapaz assoberbado de pedidos e mal orientado por um gerente alheio à realidade e que não vê qualquer problema na gestão do espaço.

Às vezes acho que as pessoas tentam fazer demais. Noto isso na proliferação de Avillezes, de Oliviers e Kikos, mas também na expansão de esplanadas para restaurantes, restaurantes para bares e bares para discotecas. Em alguns casos é justificado e bem pensado, mas na maior parte das vezes perde-se o que de bom se tem para se ser apenas mais um no respectivo mercado.
 

 Não sei porquê é que está aqui uma imagem dos MUSE (porque se venderam em 2009).

O conselho é este: saibam ao que vão. Investiguem e percebam a filosofia do espaço. Se virem um espaço que ao mesmo tempo organiza sunsets, recruta os empregados no Boom ou na Bad Bones e vende ceviches, carne DOP e cocktails preparados por "mixologistas", é razão para desconfiar. Não se pode ter tudo simultaneamente, sob pena de não se ter nada verdadeiramente. Se quiserem ajuda, a ordem é esta: 1) sunset e cocktail, 2) bife ou ceviche e, se a noite correr bem, 3) Boom.

Sagrada Família


O antigo Arte & Manha na Duque de Loulé era um espaço de ecletismo. Podíamos ir lá  tomar um chá na companhia de um livro, jantar com amigos, ouvir poesia, ou aparecer a seguir ao jantar para uma noite de conversa que, invariavelmente, se tornava numa noitada. O espaço era constituído por dois pisos (o térreo funcionava como restaurante-bar e a cave como sala de concertos) e não havia grandes regras. Por várias vezes assisti a empregados tornarem-se DJ, DJ que serviam (e bebiam) no bar e a clientes (certamente com formação nas artes dramáticas) que aproveitavam para ir ao microfone pedir para "agarrarmos o silêncio". Era um espaço descontraído que tinha a virtude de encerrar muito para lá da hora determinada pela licença camarária (embora não ponha as mãos no fogo quanto ao facto de existir realmente uma licença). De forma natural, nem um ano volvido, o espaço acabou por encerrar/falir e com ele acabaram parte das minhas expectativas em ver indivíduos a ler num bar às três da manhã enquanto fumam uma cachimbada.


Imaginam pois qual não foi a minha felicidade quando, no ano passado, descobri que o Arte & Manha tinha renascido, desta feita sob o nome "Sagrada Família". Localizado na Rua dos Remédios, em Alfama, o Sagrada Família conserva o espírito boémio e multifacetado do Arte & Manha, continuando a tradição das noites de poesia e funcionando como restaurante, bar e espaço de concertos/performances (embora mais intimista). É constituído por duas salas (uma para fumadores), sendo que na primeira está geralmente alojada a mesa do DJ, mesmo ao pé das mesas daqueles que, comendo e/ou bebendo, continuam a conferir a este espaço a sua antiga alma. Neste aspecto tudo continua igual. Os três sócios-DJ Célia Fialho (Selecta Alice), Miguel Rodrigues (White Selecta) e Vanessa Amorim (DJ Tula) têm o mérito de ter preservado não só um espaço, mas essencialmente um conceito de diversidade, convívio e experiência que de certeza agrada a todos os que lá forem de coração e mente aberta. Com um horário bastante alargado (fecha às três da manhã nas Sextas e Sábados), o Sagrada Família é uma boa aposta para os que estão fartos dos bares de sempre no Cais ou no Bairro, para os que procuram ambientes diferentes, um público diversificado, um pré-Lux cómodo e agradável, ou simplesmente a companhia do único e inigualável João Botelho.