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Como sobreviver ao Fashion Night Out

Hoje realiza-se mais uma edição do Vogue Fashion Night Out ("VFNO"), uma iniciativa da conhecida publicação que tem como objectivo atrair o pouco gastador público feminino para as ruas e lojas da Baixa de Lisboa. Para além do incentivo à aquisição de roupeiros maiores, a VFNO também promove concertos e a animação de personalidades como Cláudia Vieira (famosa), José Fidaldo (famoso), Jéssica Athayde (recém-famosa) ou Ruben Rua (quase famoso). 

Ruben Rua: modelo, actor, personalidade. Ⓒ Revista Caras

Como os que me lêem bem sabem, procuro sempre transmitir algumas palavras de conforto e conselho em momentos mais atribulados da vida dos homens em geral. Estou pois solidário com as centenas de "amigos", namorados ou maridos que serão inevitavelmente arrastados em horário pós-laboral (ou pós-curricular) para um evento que os vai testar não só na sua aptidão física, mas essencialmente na sua resistência mental. 

anteriormente identifiquei os grandes perigos que os homens enfrentam no universo das lojas de senhora. No VFNO essas ameaças encontram-se amplificadas: não existem bancos para sentar (nem na rua!), o calor e humidade são sul-asiáticos, a mistura de cheiros,  perfumes e fragrâncias é reminiscente de uma Smartshop, a música consegue ser ainda pior do que o costume (DJ Isabel Figueira) e as pessoas simplesmente não acabam.

Sabem aquelas pessoas que passam o fim-de-semana em centros comerciais? Adivinhem lá para onde é que elas vão hoje. Ⓒ espalhafactos.com

Contudo, ao contrário do que acontece com as lojas de senhora, o VFNO oferece aos homens algumas possibilidades que lhes permitem escapar momentaneamente ao mundo impiedoso, frenético e colorido da moda feminina. Neste sentido, deixo-vos com alguns conselhos que vos vão ajudar a sobreviver a esta noite:

1. Ganhar capital moral

Ok. A vossa cara metade convenceu-vos (obrigou-vos) a ir ao VFNO e já não há forma de voltar atrás. A primeira coisa a fazer é perguntar-lhe o que é que ela pretende retirar da experiência. Um casaco novo? Peças básicas a preços convidativos? Ver e ser visto? Um autógrafo da Cristina Ferreira? 

Ao inquirirem a vossa namorada quanto às expectativas para a noite, não só demonstram interesse e ganham uns pontos, como também se podem preparar física e psicologicamente para o que vos espera. Para uma pontuação bónus, mantenham esta atitude durante a maior parte da noite: façam perguntas (muitas perguntas), demonstrem interesse e corram o risco de sugerir uma ou outra peça. Mesmo que não seja a escolha correcta a intenção e o interesse ficam devidamente registados.

«Não é o mais forte nem o mais inteligente da espécie que sobrevive, mas sim o que melhor se adapta à mudança.» Charles Darwin

2. Álcool

Uma das vantagens do VFNO relativamente à generalidade das experiências em qualquer superfície comercial destinada às senhoras é que aqui há acesso rápido (e geralmente gratuito) a álcool. Com efeito, é muito mais fácil persuadir uma senhora de 60 anos de que fica fantástica com um casaco militar e umas leggings de cabedal preto se antes lhe tivermos servido duas caipirinhas e meia (ou gins, agora é gins). Esta estratégia comercial é igualmente acertada para os homens que altruistica e apaixonadamente acompanham as suas mais-que-tudo para o campo de batalha. Ninguém vos vai censurar se, enquanto debatem tonalidades, cortes e padrões, mandarem abaixo dois ou sete copos de vinho branco. Na verdade, a experiência demonstra que o nível de conhecimento de alta costura dos homens aumenta à medida que a ingestão de bebidas alcóolicas segue o mesmo curso. Afinal quem é que receia falar em peles, gargantilhas e chelsea boots com um copo de vinho na mão? A sério, no fundo vocês sabem mais disso do que de futebol...

«Embora ao olhar de um homem qualquer os vossos vestidos sejam iguais, as vossas personalidades únicas transformam-nos em statement pieces

3. Geografia

Conhecer bem o terreno é vital no VFNO. O espaço escasseia e um homem pode perder-se com relativa facilidade. A ideia geral é ser agressivo e tomar a iniciativa. Como dizia  Sun Tzu no capítulo 10 de "A Arte da Guerra":  «No que diz respeito a passagens estreitas, ocupa-as em primeiro lugar, fortifica-as e aguarda o avanço do inimigo.» Tudo se resume a uma batalha por espaço, pelo que se virem espaço livre (uma superfície plana), avancem com confiança e estabeleçam a vossa posição. O álcool consumido no passo 2 elevará a vossa resiliência, permitindo-vos preciosos momentos de descanso.

«Conhece-te a ti próprio, conhece o teu inimigo. Um milhar de batalhas, um milhar de vitórias.» Sun Tzu

4. A flora

Preparem-se para um freak show. Qual floresta do Bornéu, nesta noite saem à rua as mais variadas criaturas ainda desconhecidas pelas ciências humanas. Aproveitem para enriquecer o vosso espólio fotográfico e sentir o exotismo proveniente das escolhas estilísticas dos Night Outers (expressão inventada agora mesmo). Também aqui, como na Natureza, as espécies estão divididas por regiões (lojas), predominando os fluorescentes e padrões animais na Bershka ou Stradivarius, os cabedais e chokers na Zara, o abstruso no Princípe Real (eixo Nuno Gama-Embaixada) e as espécies gregárias nos Armazéns do Chiado.

Multidão à espera de uma fotografia com Rita Pereira.

Conclusão

Se dominarem e estiverem preparados para estes quatro elementos irão certamente ter uma noite mais fácil e até, quiçá, divertida. No final, quando estiverem de rastos e ainda não souberem a diferença entre azul petróleo e azul marinho, puxem do vosso Joker e peçam para ir para casa. Se tiverem seguido fielmente os passos acima descritos a vossa companheira reconhecerá o vosso esforço e poderá mesmo agraciar-vos com um saída antecipada do evento. Porém, não é certo que isto ocorra, dado que um acontecimento inesperado (entrega de brindes ou maquilhagem gratuita) poderá renovar a vontade da vossa cara metade em ficar mais "uns minutinhos" (horas). 


«A paciência é amarga, mas o seu fruto é doce.»

Jean-Jacques Rousseau

Guia para criar uma marca de biquínis verdadeiramente original

De há uns anos para cá temos assistido em Portugal a um feliz crescimento do empreendorismo na área dos biquínis e fatos de banho (de senhora). Marcas como a Cantê, Latitid, Papua, entre outras, têm-se distinguido pela sua originalidade e audácia, inspiradas em boa parte por locais e culturas mais ou menos remotas do planeta Terra. 

Como resultado, os portugueses têm tido o privilégio de observar dezenas de adolescentes e jovens adultas (e por vezes também adultas) a desfilar nas praias portuguesas com conjuntos étnico-folclóricos próprios de quem acabou de sair do ginásio mesmo a tempo de assistir a um workshop de Xamanismo leccionado por aquele curandeiro amigo da Julia Roberts no filme "Comer, Orar, Amar".

Este tipo.

Não obstante a vasta oferta já existente neste campo, tenho a sensação que esta "estética" não foi ainda explorada na sua plenitude nem levada às suas últimas consequências. Nesse sentido, e porque nutro pelo empreendorismo (e pelo saldo positivo da balança comercial portuguesa) um especial afecto, deixo alguns conselhos para que uma futura marca de beachwear portuguesa consiga dominar o mercado nos anos vindouros.

1. O nome

Todos sabemos que o nome de uma marca é o seu cartão de visita, a palavra ou conjunto de palavras que encapsula a sua identidade. No mercado do biquíni português conseguimos identificar algumas tentativas (pífias, na minha opinião) de capturar o imaginário exótico daquelas ilhas alegadamente tropicais e selvagens que os nossos amigos foram visitar o ano passado, mas que na verdade estão cheias de ingleses bêbedos e macacos. A minha proposta neste campo é jogar pelo seguro e escolher nomes de algo que represente sem dúvida alguma o exotismo, o distanciamento da cultura ocidental e, claro, alguma selvajaria. Korowai, Kombai, Wana, Sarawak, Kayan ou Mokomai são nomes de tribos canibais ou caçadoras de cabeças que não só transmitem o feeling pretendido, como também se enquadrariam muito bem num lettering dourado ou prateado de uma  pop-up store no Príncipe Real.


Os Korowai estarão certamente receptivos para discutir todo o tipo de estratégias de brand development.

2. O conceito

É importante apostar num conceito simples e coeso: a proposta é aliar as já utilizadas peças desportivas de cores garridas (daquelas que podemos comprar na recepção de um Holmes Place) a motivos decorativos e padrões tribais (patas de coelho, espanta-espíritos, colares de dentes, vocês percebem). A diferença e originalidade residirão no exotismo associado a cada peça. Não há que enganar: quanto mais penduricalhos, atilhos e padrões tiver a peça, melhor. Abaixo ficam algumas propostas de conjuntos que sem dúvida provocariam sensação no Gigi, Comporta ou Praia Grande:

Nome da peça: Mindless
Descrição: Top desportivo (cima) com cinto de cabeças encolhidas (baixo)
Soundtrack inspiracional: Disclosure - What's In Your Head





















Nome da peça: Toxic
Descrição: Top trabalhado pela tribo Primark (cima) e escamas venenosas de peixe-mandarim (baixo)
Soundtrack inspiracional: Martin Garrix - Poison
















Nome da peça: Primal
Descrição: Fato de banho de pele de raposa com missangas fúnebres
Soundtrack inspiracional: Ylvis - The Fox
© Mario Gerth/HotSpot Media

3. O preço

Não nos adianta ter uma colecção original, inovadora e elaborada com recurso aos materiais mais nobres se depois o preço não reflectir de forma certeira as horas de trabalho, criatividade e visão dedicadas à criação de peças como as acima sugeridas. Como em qualquer mercado, também aqui existem regras de ouro a ter em conta aquando da definição do preço.

Em primeiro lugar, o princípio básico é o de que quanto menos pano tiver o biquíni ou o fato de banho, mais cara será a peça. Se esta lógica vos faz confusão, eu explico: o que a cliente aqui está a pagar não é a peça em si, mas sim a quantidade de olhares curiosos, chocados, invejosos, alarves e reprovadores que vai receber nos areais portugueses. Como é normal, os níveis de atenção da populaça aumentam à medida que a quantida de tecido é reduzida, pelo que estas peças vão ficando progressivamente mais caras.

Embora a regra acima descrita seja de aplicação generalizada, também ela conhece excepções. Uma delas é que é possível ter uma peça pouco reveladora a um preço similar ao das peças mais atrevidas. Para tal, basta apenas que essa peça tenha algum tipo de alça, atilho, fru-fru ou corda que pareça ter sido trabalhada pelos senhores que vendem aquelas estatuetas de madeira no Bairro Alto. A regra é simples: quanto mais amordaçada parecer a pessoa que está a usar a peça, mais caro será o modelo.

Atenção: Convém não exagerar, sob pena de se começar a invadir outros sectores de actividade.

Mais regras poderiam aqui ser alvitradas, mas o que importa reter é que nunca, mas nunca, deve uma peça custar menos de €100. Tabelar assim os produtos seria confessar ao cliente que não se tem assim tanta confiança na nossa criatividade nem nos nossos conhecimentos de Travel Channel e National Geographic.

4. Outros conselhos

Definidos os aspectos enformadores da marca, existem outros passos decisivos como encontrar o local do photoshoot. A ideia é tentar que este projecte e acentue as qualidades e originalidade da  colecção, pelo que sítios como Bali, Ilhas Phi-Phi, Istanbul ou Ilhas Fiji devem ser excluídos, dado que já foram explorados pela concorrência. Alguns locais a considerar são as Ilhas Galápagos, testemunho da importância da evolução numa sociedade que aparenta estar em involução (boa mensagem para pôr no website); Kiribati, só para comprovar que existe mesmo e para estourar o resto do orçamento; ou Ibiza, porque mais vale sermos honestos e admitir que as únicas pessoas que vão ter dinheiro para comprar estas peças são socialites ou WAGS (pesquisem o termo na Internet).

Por fim, é também importante acertar a estratégia de comunicação e imagem, recorrendo para tal a um fotógrafo conhecido da praça. Não se assustem, basta apenas, quando estiverem num dos 356 casamentos para os quais foram convidados este ano, meter conversa com o fotógrafo e propôr a ideia. Com muita probabilidade ele vai aceitar porque já está farto de fazer casamentos (só existem 2/3 fotógrafos de casamentos em Portugal) e com sorte ainda arranja umas modelos (miúdas que ainda não lhe pagaram os books).

E é isto. Bem sei que vão achar que são necessários anos de experiência no ramo, ou pelo menos alguma experiência na criação e gestão de marcas e empresas, mas olhem que não.  Como vi no outro dia numa fotografia do Instagram da Latitid: "a bikini is always a good idea".

Lojas de senhora, uma provação inevitável

Um dos grandes desafios que surge na vida de qualquer homem com namorada, mulher, ou até mesmo na companhia de uma amiga, é o inevitável momento em que se vê numa loja de senhora. Nunca um indivíduo se sente verdadeiramente isolado no universo como quando entra nestes estabelecimentos. Todo o conhecimento adquirido em casa, na escola, universidade, local de trabalho e vida em geral se revelam inúteis quando somos confrontados com esta realidade inóspita e desconhecida para o qual nada nem ninguém nos preparou. Deste modo, o primeiro instinto de um indivíduo nesta situação é o de nem sequer entrar nestes espaços e ficar somente à espera junto à porta de entrada. 

Já todos estivemos aqui.

Não obstante, todos chegamos a um ponto da nossa vida em que sabemos que para bem da nossa relação é necessário fazer cedências e mostrar boa vontade, num espírito de fair-play que esperamos ser recompensado mais tarde. Assim, com mente aberta abraçamos o desafio e entramos no estabelecimento em questão, esperando retirar algo positivo da experiência. Deparamo-nos então com o seguinte cenário:

1. Inexistência de superfícies planas para repousar

 A sério, estas lojas têm três andares com 5000 m2 cada e não têm um único sítio em que nos possamos sentar.

Na imensidão destes labirintos de prateleiras, manequins, expositores, roupas e acessórios, um homem não consegue encontrar um local que o abrigue para, calma e tranquilamente, começar a preparar as respostas às questões estilísticas com que a sua cara metade o vai confrontar.


2. O calor

Como todos já reparámos nos nossos familiares, colegas de faculdade ou escritório, é praticamente impossível (especialmente no Verão) partilhar a mesma sala com uma senhora em condições de temperatura que permitam um mínimo de refrigeração. Com efeito, o ar condicionado é uma realidade tecnológica alienígena para uma senhora, dado que invariavelmente lhe provoca espirros, constipações e muito, muito frio. Consequentemente, quando entramos numa loja direccionada ao público feminino de imediato nos sentimos na Amazónia, seja pelo calor e humidade que ali se fazem sentir ou pelas cores vivas e padrões exóticos que podemos observar.

Um grupo de homens preparado para entrar na Mango.

3. O cheiro

Um dos traços distintivos do homem português é a sua capacidade de deixar uma marca olfactiva pelos sítios onde passa (também eu abraço este preceito e procuro largar meio frasco de perfume em cima de mim antes de sair à rua todos os dias). Assim, e porque se faz anunciar e relembrar pela sua fragrância, o homem português assiste àquilo a que apenas se pode chamar uma total invasão da sua intimidade e personalidade quando entra numa loja de senhora.


Esqueçam o Davidoff, o Acqua di Gio ou Polo Ralph Lauren. Ao pé deste menino nenhum deles tem hipótese.

Ao constatar que o seu cheiro é completamente suplantado por esta estranha magia proveniente daquilo que parecem ser pauzinhos chineses, um homem assume uma posição mais defensiva, revelando um natural desconforto quanto ao meio que o rodeia. 

4. A música 

Eu gosto de música electrónica. Aliás, gosto bastante de música electrónica. Mas tal como não como um bitoque todos os dias e a todas as refeições, também não tenho especial prazer em ouvir a playlist "House Lounge Mix" ou "Best Ibiza Sunsets 2013" todas as vezes em que entro neste tipo de lojas. Se já 20 ou 30 minutos disto me fazem confusão às 11h30 da manhã de um Sábado, fico quase doente ao lembrar-me que estas lojas estão abertas cerca de 9/10 horas por dia! 

Nem a malta dos afters se aguentava 10 horas numa H & M.


5. As pessoas

Tantas. E todas tão parecidas! Por vezes nem consigo distinguir as clientes das empregadas de loja. Qual criança num hipermercado dou por mim várias vezes perdido e sem conseguir encontrar a minha namorada porque entre mim e ela está um oceano de clones que me faz sentir que estou à procura do Wally.

Isto não significa que não consigo distinguir a minha namorada das outras pessoas! Pronto, já me meti num buraco...


Conclusão

Todos fazemos sacríficios por aqueles de quem gostamos. Muitas vezes até aprendemos a gostar de algo que à partida nos era estranho ou inacessível. No meu caso, por exemplo, posso orgulhosamente dizer que já cheguei mesmo a comprar uma camisa (de homem) na Zara. Pouco a pouco vamos aprendendo a contornar e suportar os obstáculos que se colocam à nossa frente, aceitando como natural o facto de as senhoras não terem calor, serem surdas e não precisarem de se sentar e descansar como nós.  Com efeito, o maior elogio que posso fazer à determinação e resistência femininas é reconhecer que reviver este ambiente de uma forma regular (às vezes mesmo quotidiana) é algo que nem eu nem nenhum homem conseguiria certamente aguentar. Por isso mandem-nos para a guerra, para a construção civil ou para a pesca em alto mar, mas da próxima vez que nos levarem às compras arranjem por favor algum sítio em que nos possamos sentar.