De há uns anos para cá temos assistido em Portugal a um feliz crescimento do empreendorismo na área dos biquínis e fatos de banho (de senhora). Marcas como a Cantê, Latitid, Papua, entre outras, têm-se distinguido pela sua originalidade e audácia, inspiradas em boa parte por locais e culturas mais ou menos remotas do planeta Terra.
Como resultado, os portugueses têm tido o privilégio de observar dezenas de adolescentes e jovens adultas (e por vezes também adultas) a desfilar nas praias portuguesas com conjuntos étnico-folclóricos próprios de quem acabou de sair do ginásio mesmo a tempo de assistir a um workshop de Xamanismo leccionado por aquele curandeiro amigo da Julia Roberts no filme "Comer, Orar, Amar".
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| Este tipo. |
Não obstante a vasta oferta já existente neste campo, tenho a sensação que esta "estética" não foi ainda explorada na sua plenitude nem levada às suas últimas consequências. Nesse sentido, e porque nutro pelo empreendorismo (e pelo saldo positivo da balança comercial portuguesa) um especial afecto, deixo alguns conselhos para que uma futura marca de beachwear portuguesa consiga dominar o mercado nos anos vindouros.
1. O nome
Todos sabemos que o nome de uma marca é o seu cartão de visita, a palavra ou conjunto de palavras que encapsula a sua identidade. No mercado do biquíni português conseguimos identificar algumas tentativas (pífias, na minha opinião) de capturar o imaginário exótico daquelas ilhas alegadamente tropicais e selvagens que os nossos amigos foram visitar o ano passado, mas que na verdade estão cheias de ingleses bêbedos e macacos. A minha proposta neste campo é jogar pelo seguro e escolher nomes de algo que represente sem dúvida alguma o exotismo, o distanciamento da cultura ocidental e, claro, alguma selvajaria. Korowai, Kombai, Wana, Sarawak, Kayan ou Mokomai são nomes de tribos canibais ou caçadoras de cabeças que não só transmitem o feeling pretendido, como também se enquadrariam muito bem num lettering dourado ou prateado de uma pop-up store no Príncipe Real.
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| Os Korowai estarão certamente receptivos para discutir todo o tipo de estratégias de brand development. |
2. O conceito
É importante apostar num conceito simples e coeso: a proposta é aliar as já utilizadas peças desportivas de cores garridas (daquelas que podemos comprar na recepção de um Holmes Place) a motivos decorativos e padrões tribais (patas de coelho, espanta-espíritos, colares de dentes, vocês percebem). A diferença e originalidade residirão no exotismo associado a cada peça. Não há que enganar: quanto mais penduricalhos, atilhos e padrões tiver a peça, melhor. Abaixo ficam algumas propostas de conjuntos que sem dúvida provocariam sensação no Gigi, Comporta ou Praia Grande:
Nome da peça: Mindless
Descrição: Top desportivo (cima) com cinto de cabeças encolhidas (baixo)
Soundtrack inspiracional: Disclosure - What's In Your Head

Nome da peça: Toxic
Descrição: Top trabalhado pela tribo Primark (cima) e escamas venenosas de peixe-mandarim (baixo)
Soundtrack inspiracional: Martin Garrix - Poison

Nome da peça: Primal
Descrição: Fato de banho de pele de raposa com missangas fúnebres
Soundtrack inspiracional: Ylvis - The Fox![]() |
| © Mario Gerth/HotSpot Media |
3. O preço
Não nos adianta ter uma colecção original, inovadora e elaborada com recurso aos materiais mais nobres se depois o preço não reflectir de forma certeira as horas de trabalho, criatividade e visão dedicadas à criação de peças como as acima sugeridas. Como em qualquer mercado, também aqui existem regras de ouro a ter em conta aquando da definição do preço.
Em primeiro lugar, o princípio básico é o de que quanto menos pano tiver o biquíni ou o fato de banho, mais cara será a peça. Se esta lógica vos faz confusão, eu explico: o que a cliente aqui está a pagar não é a peça em si, mas sim a quantidade de olhares curiosos, chocados, invejosos, alarves e reprovadores que vai receber nos areais portugueses. Como é normal, os níveis de atenção da populaça aumentam à medida que a quantida de tecido é reduzida, pelo que estas peças vão ficando progressivamente mais caras.
Embora a regra acima descrita seja de aplicação generalizada, também ela conhece excepções. Uma delas é que é possível ter uma peça pouco reveladora a um preço similar ao das peças mais atrevidas. Para tal, basta apenas que essa peça tenha algum tipo de alça, atilho, fru-fru ou corda que pareça ter sido trabalhada pelos senhores que vendem aquelas estatuetas de madeira no Bairro Alto. A regra é simples: quanto mais amordaçada parecer a pessoa que está a usar a peça, mais caro será o modelo.
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| Atenção: Convém não exagerar, sob pena de se começar a invadir outros sectores de actividade. |
Mais regras poderiam aqui ser alvitradas, mas o que importa reter é que nunca, mas nunca, deve uma peça custar menos de €100. Tabelar assim os produtos seria confessar ao cliente que não se tem assim tanta confiança na nossa criatividade nem nos nossos conhecimentos de Travel Channel e National Geographic.
4. Outros conselhos
Definidos os aspectos enformadores da marca, existem outros passos decisivos como encontrar o local do photoshoot. A ideia é tentar que este projecte e acentue as qualidades e originalidade da colecção, pelo que sítios como Bali, Ilhas Phi-Phi, Istanbul ou Ilhas Fiji devem ser excluídos, dado que já foram explorados pela concorrência. Alguns locais a considerar são as Ilhas Galápagos, testemunho da importância da evolução numa sociedade que aparenta estar em involução (boa mensagem para pôr no website); Kiribati, só para comprovar que existe mesmo e para estourar o resto do orçamento; ou Ibiza, porque mais vale sermos honestos e admitir que as únicas pessoas que vão ter dinheiro para comprar estas peças são socialites ou WAGS (pesquisem o termo na Internet).
Por fim, é também importante acertar a estratégia de comunicação e imagem, recorrendo para tal a um fotógrafo conhecido da praça. Não se assustem, basta apenas, quando estiverem num dos 356 casamentos para os quais foram convidados este ano, meter conversa com o fotógrafo e propôr a ideia. Com muita probabilidade ele vai aceitar porque já está farto de fazer casamentos (só existem 2/3 fotógrafos de casamentos em Portugal) e com sorte ainda arranja umas modelos (miúdas que ainda não lhe pagaram os books).
E é isto. Bem sei que vão achar que são necessários anos de experiência no ramo, ou pelo menos alguma experiência na criação e gestão de marcas e empresas, mas olhem que não. Como vi no outro dia numa fotografia do Instagram da Latitid: "a bikini is always a good idea".






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