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Pho-Pu

Todos os anos, qual político em véspera de eleições, prometo que vou gastar menos tempo e dinheiro nesta epopeia que é a compra de presentes de Natal. Porém, o que acaba realmente por acontecer mimetiza na perfeição a situação financeira do nosso país.

Eram três da tarde e eu estava em pleno Chiado ainda sem ter almoçado. Como não me apetecia hambúrgueres gourmet nem nenhuma proposta do Chef Avillez, recorri a um dos bairros que melhor me tem tratado em termos gastronómicos: a Mouraria.

E como sempre não desiludiu.



















Há já algum tempo que queria ir ao Pho-Pu, um restaurante vietnamita na Rua do Benformoso. O restaurante estava completamente vazio e a gerente já estava a ver a novela da tarde, "Laços de Sangue", com a pujante Dânia Neto numa interpretação singular de uma peixeira (de profissão). Foi por isso com alguma cautela que entrei e perguntei se ainda podia ser servido. A gerente disse-me que sim e que me ia servir o pho da casa, uma sopa de massa de arroz com carne de vaca desfiada (e com uma ou outra tripa). Perante a frontalidade da senhora, sentei-me e aguardei pela refeição.

Pho Vietnamita.

O caldo era absolutamente delicioso. Picante como se pretende (e ainda mais com a adição de molho sriracha, um molho de pimenta proveniente da Tailândia), apresentou-se numa dose monumental que me venceu inapelavelmente. Com efeito, não consegui terminar o prato, mas dei o meu melhor para não desiludir a senhora que fitava atentamente o ecrã enquanto Dânia Neto se envolvia numa disputa amorosa no seu local de trabalho (a peixaria).

Mas era mesmo disto que estava a precisar. Uma sopa nutritiva e saborosa servida num espaço familiar, limpo e barato. Menos sorte tiveram duas turistas que foram enxotadas do restaurante porque já eram quatro da tarde (ou porque queríamos ver a novela em sossego). De igual modo, a romaria de amigos e vizinhos durante este período foi tal que a nossa fiel gerente foi obrigada a colocar-me uma conta de €7,5 na mesa e a fechar o estabelecimento. Ficou-me a vontade de regressar com mais calma e de saber se as altercações de Dânia Neto com a sua colega (outra peixeira) ficaram resolvidas. 

 

O Cantinho do Aziz

A "esplanada" do Aziz.

"O Cantinho do Aziz" é um restaurante que conjuga as suas raízes moçambicanas com uma das zonas mais antigas de Lisboa, numa combinação quase tão boa como os pratos que servem. Dos mais clássicos aos mais arrojados, o que distingo neste restaurante é o sabor fresco, intenso e equilibrado dos seus molhos, bem como o picante da casa que é simplesmente um dos melhores (e mais fortes) que tive a oportunidade de provar. O serviço é sempre atento e o espaço muito agradável quando acompanhado de um dia de calor, já que  a possibilidade de comer na rua é um dos grandes atractivos em qualquer restaurante. Com amigos, família, a dois, ou até sozinho, o Cantinho do Aziz acolhe e atrai todos.


Dos pratos mais complexos aos mais simples, a cor, consistência e sabor não enganam.

Esta cozinha complexa tornada simples, onde imperam os molhos e as especiarias encontra paralelo na ementa que é um verdadeiro quebra-cabeças para quem lá vai a primeira vez. Seja pelo grafismo, seja pela variedade que apresenta, o melhor é aconselharmo-nos com os empregados extremamente acessíveis e que gostam de surpreender. Bem sei que o tempo não tem sido o mais favorável, mas se quiserem uma boa desculpa para conhecer a Mouraria ou comer num sítio diferente podem começar por aqui.

O Zé da Mouraria 2

O André é um empregado do Zé da Mouraria 2. Já estávamos todos fartos da típica camisa branca.

Não se assustem com o nome. Bem sei que restaurantes com números no nome merecem sempre uma saudável dose de desconfiança (costumo passar por uma pastelaria chamada Sandro 2000 e como é óbvio nunca lá entrei). O Zé da Mouraria 2 tem este nome porque o Zé da Mouraria original, um restaurante localizado no conhecido bairro lisboeta, só serve almoços. Percursor daquele espírito eclético da tasca onde se come bem e se bebe melhor, congregando ao mesmo tempo clientes das mais variadas proveniências, o Zé da Mouraria viu a procura aumentar e não teve outra alternativa senão abrir um espaço só para jantares.

O Zé da Mouraria 2 é conhecido pela qualidade e pela quantidade. Esta meia-dose de lulas, por exemplo, chega para um grupo de 5/6 jovens adultos se entreterem no início da refeição.


No Zé da Mouraria 2 a ideia é partilhar. Partilhar uma refeição singular com um grupo de amigos, partilhar momentos de boa disposição com o staff (são demasiado competentes e simpáticos para serem só empregados de mesa) e partilhar a sala com grupos de pessoas que ao virem aqui demonstram claramente ter as prioridades bem definidas. 

Uma dose de bacalhau à Zé da Mouraria.

Porém, o que mais impressiona no Zé da Mouraria 2 não são as doses massivas de comida, a sua qualidade indiscutível ou sequer os preços mais do que razoáveis. Não, aqui sentimo-nos amigos das pessoas que aqui trabalham, sentimos que somos bem-vindos e que podemos ficar o tempo que quisermos. Num jantar de amigos perguntámos ao André a que horas fechavam e a resposta que tivemos foi um "sei lá, às vezes estamos aqui até às 4". Esta simpatia e primazia ao cliente também se verificam na larga margem que nos é dada para expressarmos as alegrias e tristezas da nossa vida. Instados pelo André que uma outra mesa nos tinha pedido para fazer menos barulho a pergunta que ele nos colocou foi: "Como é? Quem é que lá vai mandá-los para o...? Vocês ou eu?"   

 

 Um arroz de coentros tão bom que até pode ser servido à sobremesa.

E o que dizer do vinho? Produzido pelo Virgílio, o proprietário e um homem que gostaríamos de ter a proteger as nossas futuras filhas, o Xico Pé Descalço é um tinto de Palmela com capacidade para nos levar do início ao fim de uma refeição trabalhosa mas prazenteira. Neste aspecto também tenho de dar o braço a torcer a um espaço que produz o seu próprio vinho e torna praticamente inútil a existência de uma carta de vinhos.


A caricatura de Virgílio figura no rótulo do Xico Pé Descalço.

Para terminar a refeição de forma gloriosa temos o leite creme literalmente queimado ao momento e à frente do cliente (como comprovado pela primeira imagem a este post). Também o digestivo essencial para reflectir no momento que acabámos de partilhar não nos é negado. O Zé da Mouraria 2 é um restaurante ideal para grupos de amigos ou familiares que gostem de comer muito bem num ambiente acolhedor e extremamente convidativo. Assim, é natural que ao sairmos do Zé da Mouraria fiquemos com a sensação de que a melhor parte da noite já passou.

A espetada é um autêntico "tomba-gigantes" e requer força de vontade.

Zé dos Cornos, um reduto da democracia

Todos fomos ensinados a admirar e estimar a democracia. Na escola, faculdade ou trabalho, todos reafirmamos a importância do pluralismo (seja qual for a sua vertente), da liberdade de expressão ou da igualdade. As conversas sobre sistemas políticos terminam geralmente recorrendo ao aforismo de Churchill e todos nos consideramos devotos defensores destes princípios. Confesso que valorizo muito mais a adopção e prática natural desses princípios do que os grandes discursos, debates e proclamações tão próprias da classe política. Assim, procuro associar a defesa (ou mais importante, a vivência) de determinados valores e ideias a pessoas, locais e formas de "estar". 

O único "comício" em que me vão apanhar.

Se tivesse de definir o Zé dos Cornos (ou Zé do Carvoeiro, ou Zé da Maria) num adjectivo, teria de recorrer à palavra "democrático". Não por causa da sua orgânica ou gestão, mas sim porque este espaço singular encarna como poucos alguns dos valores que acima referi. No Zé dos Cornos partilhamos a refeição com europeus, africanos, asiáticos e americanos (os "oceânicos" que me desculpem, mas acho que ainda não os vi lá). No Zé dos Cornos brindamos com ricos, pobres e remediados. No Zé dos Cornos falamos com advogados, professores, desempregados, pedreiros, economistas, "homens do lixo" e estudantes. No Zé dos Cornos sentamo-nos ao lado uns dos outros e acabamos a maioria das vezes a fazer amigos, estabelecer contactos ou simplesmente a ouvir histórias mirabolantes. Por exemplo, uma vez tive a oportunidade (e privilégio) de me sentar lado a lado com um indivíduo que se intitulava, por esta ordem, sportinguista, comunista, carteirista, pedreiro e "garagista". Como imaginam, a única coisa que tínhamos em comum era a afeição pelo Sporting e mesmo assim em quantidades totalmente diferentes, dado que o senhor, apesar de estar numa cadeira de rodas, acompanhava regularmente as deslocações do clube a países que incluíam a Geórgia, a Ucrânia e a Letónia (embora quanto a esta última tenha as minhas dúvidas).

Os queijos da Gardunha, ao fundo, perfilam-se como candidatos em eleições com  muitas, muitas "voltas".

Esta coexistência na diversidade que é a marca do Zé dos Cornos permite-nos sentir num clima/espaço de confraternização pacífica entre pessoas com vidas totalmente diferentes, ideologias opostas e clubes rivais. Ali todos são respeitados e todos opinam, falam, gritam, choram e riem. Tudo dentro da "ordem" conferida pelo Sr. João (filho do falecido proprietário - o Sr.  José Ferreira) e por uma equipa de pessoas que dedicam as suas vidas à conservação daquele ambiente e espírito fundamental para a experiência gastronómica e humana que ali se pode viver.

Na grelha, tal como na democracia, quer-se rotatividade e por isso os "mandatos" sucedem-se uns aos outros.

A especialidade do Zé dos Cornos é o entrecosto grelhado (ou na gíria local, o "piano") que é acompanhado com arroz de feijão, picante caseiro e, desejavelmente, uma garrafa do tinto da casa que tem por virtude conferir a necessária "transparência" democrática. Também a feijoada e o cozido são afamados nesta casa e a fila que diariamente se forma à porta (qual mesa de voto da nossa participada democracia) é a prova de que por certas coisas vale a pena esperar.

"Meninos, se depois quiserem nós pomos mais um bocadinho", diz uma das cozinheiras. 

No que diz respeito ao serviço, podemos contar com eficiência, simpatia e metodologias modernas de comunicação e facturação (gritos da sala para cozinha e conta escrita na "toalha" de mesa). No fim da refeição podem optar pelos clássicos leite creme, pudim ou mousse "caseira", ou, para os que não podem (ou não devem) comer sobremesas, pela aguardente do Sr. João. Por fim, e como os impostos são um mal necessário prescrito pelo afamado mas invisível "Contrato Social", também no Zé dos Cornos há uma conta para pagar. Porém, ao invés do que sucede nas nossas democracias ditas liberais, o valor da conta é bem mais reduzido, muito mais justificado e verdadeiramente voluntário.

Brincadeiras e ironia à parte, o Zé dos Cornos é um espaço que recomendo vivamente a todos os que quiserem experimentar o melhor das tascas lisboetas e da cozinha portuguesa, num ambiente livre, bem-disposto e muito, muito amigável.  

Os Amigos do Minho


Aqui a palavra de ordem é "carinho". Chegar a um restaurante e ser imediatamente abraçado pelo anfitrião é uma experiência invulgar. Começar a comer menos de 10 minutos depois de se ter feito o pedido (tudo o que havia na lista, praticamente) é supreendente. Mas o que tempera a eficiência e qualidade deste espaço é sem dúvida o carinho demonstrado por todos os que daquela experiência fazem parte: o Sr. Castro, num carrossel imparável de travessas e copos de três, a D. Luísa, que por entre ameaças, abraços e berros, regista tudo e controla tudo, os restantes empregados que nos presenteiam com pequenas estrofes de versos mais ou menos obscuros, incentivos na hora de beber o bagaço, ou simplesmente levantar aquele prato que já não nos lembrávamos ter à nossa frente.


A Casa do Minho é mais do que um restaurante ou uma refeição. É a alegria de todos os que nela participam com uma dedicação só possível a quem se agrada com o agrado dos outros. No final de tudo ficam os amigos que fizemos, momentos hilariantes (e às vezes embaraçosos) e a certeza de que é um local a revisitar. Com tudo isto nem falei da comida, mas basta dizer que é Minhota, doses generosas e um preço como já não existe. O resto podem imaginar.