"Desgraça", de J. M. Coetzee


Desgraça não me parece ser uma obra de redenção ou humanização progressiva de um narcisista. Não é um livro que proponha esperança nem desespero. Parece preocupar-se mais em descrever uma árvore antiga: o seu tronco e ramos mais ou menos viçosos, os ventos que a assolam, as chuvas, os raios de sol e as vicissitudes que entorpecem ou fomentam o seu crescimento. Descreve também a fauna que a habita, voluntária ou resignadamente.

A obra demonstra friamente que há pessoas que, mesmo perante o colapso do seu ramo nessa árvore e a exposição cruel às forças do mundo, permanecem incapazes de compreender onde estão e de continuar a habitar esse lugar. Preferem reorganizar-se num lugar mais escuro na árvore a abdicar do idealismo que as levou a escolher viver num galho quebradiço.

Contrariamente ao que possa parecer, a inteligência de David Lurie não se revela grande ajuda para as decisões que toma na história. Lurie é culto, articulado e verbalmente sofisticado, mas isso serve sobretudo para justificar os seus desejos, estetizar os seus impulsos, proteger a imagem que tem de si próprio e converter a sua fragilidade em estilo. A sua relação com a cultura, com Byron, com a opereta que se entretém a imaginar e com a linguagem do desejo, não o abre ao mundo, antes fecha-o cada vez mais sobre si próprio e torna-o progressivamente mais incapaz de se relacionar com os outros e com o ambiente que o rodeia. Nele, a cultura opera como cenário e mecanismo de auto-absolvição de tudo quanto possa ser moralmente censurável na sua existência. Lurie até pode perceber a sua condição, mas não quer sair do seu mundo romântico.

Esta disposição de Lurie torna-se trágica porque Coetzee recusa a ideia confortável de que o sofrimento ensina ou purifica. Mesmo depois da expulsão da universidade, da ida para a quinta, do ataque e da exposição da vulnerabilidade da sua filha, Lurie continua, no essencial, preso às suas emoções, à húbris, às preconceções e à necessidade de se pensar como personagem principal. Coetzee mostra que há pessoas cuja estrutura interior é tão rígida que nem a violência do real é capaz de as mudar.

Poderá existir a tentação de ver no trabalho no abrigo animal uma forma de humanização tardia da personagem de Lurie, mas essa parece uma leitura demasiado benigna. Os cães funcionam, para Lurie, como um medium de deslocação narcísica. Não o desafiam, não exigem reciprocidade moral complexa, não o obrigam a rever-se e não têm história. É mais fácil para ele ligar-se ao sofrimento mudo e dependente do que enfrentar os humanos e o meio implacável à sua volta. O serviço aos cães pode assim ser lido como uma nova organização da sua narrativa pessoal: se já não pode ser protagonista, passa a ocupar o papel do homem diminuído, silencioso e nobre no seu apagamento, uma personagem fora da história. Ali não há redenção, apenas resignação cénica.

Por oposição, Lucy Lurie apresenta-se como a personagem mais lúcida do romance. Isto não é necessariamente bom, nem significa que esteja moralmente certa, mas, pelo menos, Lucy percebe a brutalidade do território em que vive, compreende a fragilidade da sua posição, aceita a dependência e o preço de permanecer onde está. Ao contrário do pai, Lucy existe e está inscrita naquele mundo de forma concreta e real. No decurso da narrativa, apercebemo-nos que há nela uma vontade radical de independência e permanência que a impede de regressar à Cidade do Cabo ou à Holanda, oportunidades amiúde oferecidas pelo seu pai. Lucy está disposta a sacrificar quase tudo pela vida cruenta e imperdoável que aquele território africano reserva para os que nele têm a temeridade ou inevitabilidade de viver.

O carácter inflexível deste território parece ser corporizado por Petrus, vizinho de Lucy, trabalhador agrícola, e, mais tarde, proprietário. A vida de Petrus brota da terra, dos seus frutos e castigos. Trabalha, investe e protege os seus numa lógica crua de autonomia, responsabilidade e inequívoca ambição. Num mundo rural, ermo e sem autoridade efetiva, a sobrevivência depende de redes de proteção, da proximidade familiar, da tradição e da demonstração de força. Se Petrus sabe isso intuitivamente, Lurie, com toda a sua cultura e “conhecimento”, falha em reconhecer uma verdade simples: o ser humano sobrevive através de instituições, tradições e vínculos moldados pelo ambiente em que vive. E quanto menos garantida estiver a sobrevivência nesse meio, mais impiedosas tenderão a ser as estruturas sociais criadas para a alcançar.

Coetzee não está interessado em atribuir um sentido moral ou transcendente a esta ordem do mundo. O romance monta um enquadramento factual de violência, dependência, território e vulnerabilidade, e permite-nos observar quem o compreende, quem resiste, quem se ilude e quem cede. Não há uma tese moral fechada, nem pode haver. O que há é um teste da espessura real de cada personagem quando caem as mediações sociais, políticas e intelectuais.

Em consequência, Desgraça é menos um romance sobre culpa ou redenção do que sobre redução e limitação. A redução de uma pessoa à sua verdadeira medida quando cultura, desejo e autoimagem deixam de bastar para existir em paz num mundo hostil. Lurie fá-lo no único espaço em que a sua mente fantasiosa ainda pode existir: o abrigo animal. Aí, no interlúdio de funções como eutanasiar e cremar cães, encontra alívio para uma existência desgraçada que, só para ele, foi inevitável.

Reflexões de um Munícipe Privilegiado



Tendo passado mais umas eleições autárquicas que apresentaram aos lisboetas um armário cheio de roupas, mas nada para vestir, lembrei-me de partilhar convosco algumas inquietações e pensamentos que chegam à minha cabeça com uma frequência bem superior à do Metropolitano.

Sou um munícipe de Lisboa, freguês de Alvalade e tenho a sorte de auferir um nível de rendimentos que me torna uma minoria estatística considerando o panorama depauperado deste País e das pessoas que nele vivem. Vir, pois, queixar-me de trivialidades, percalços, chatices e maçadas é um exercício com algum grau de perigosidade, atenta a muito maior relevância e atenção que merecem os reais problemas desta cidade. Ainda assim, e porque a Internet é povoada de coisas inúteis, não ficará a sua montra de bestialidades mais descomposta se lhe decidir pendurar mais uns queixumes, como aqui venho fazer.

Sou um indivíduo que gosta muito de andar a pé. Percursos de 15, 30 ou até 60 minutos encantam-me porque tenho a oportunidade de conhecer novos sítios, restaurantes, monumentos e colectividades povoados por vidas que, apesar de distintas, se cruzam com a minha no breve intervalo que demora olhar para um expositor de carnes, um menu do dia ou uma esplanada com maduros já a beber a sua Mini matinal.

Se fosse completamente honesto, também poderia dizer que o que me leva a preferir andar a pé ou de metro é a aversão que tenho ao trânsito, às buzinadelas, à ânsia de encontrar lugar, à EMEL e a tudo o que envolve a utilização de automóveis nesta cidade. Continuando a ser honesto, esta aversão também se explica por uma inaptidão voluntariamente pouco treinada para revolver estes corredores de enlatados a que gentilmente chamamos ruas e, ainda mais benevolamente, avenidas.

Para quem partilha deste gosto pelo bipedismo e goza desta desmerecida condição social, Lisboa não é propriamente uma cidade muito agradável. Já não o é há uns anos (ou talvez nunca tenha sido), mas tenho ideia que está francamente pior. Um simples passeio pelo Jardim do Campo Grande, zona insuspeitamente central, verde e espaçosa, confirma estas impressões.

Em primeiro lugar, e para quem está a entrar via Entrecampos, importa ter extrema atenção aos semáforos. É que, ao contrário de muitas cidades europeias, o sinal vermelho na freguesia de Alvalade (bem como a maior parte do Código da Estrada) tem carácter meramente indicativo, não eximindo crianças, idosos, runners, joggers e footers (estes três são a mesma coisa: aquela malta que se veste de licra fluorescente e óculos polarizados) de guardar extrema cautela a atravessar a rua, sendo frequentes os casos de atropelamento e quase-atropelamento.

Vencida esta primeira etapa, poderíamos pensar em desfrutar de um passeio tranquilo num espaço verde prazeroso. Contudo, os nossos olhos e nariz esfumaçam esta miragem, levando-nos a crer que marchamos por um campo de batalha onde, na relva seca, pelada e maltratada, jazem garrafas partidas, copos de plástico, preservativos e todo o tipo de objectos que, em vão, tentamos que não contactem com as manápulas curiosas dos nossos filhos (ou cães, para os de consciência mais malthusiana).

Olhando para este cenário de destruição e rescaldo, é-nos também possível identificar a presença de soldados caídos ou em recuperação. Refiro-me a alcoólicos mal dormidos a curar ressacas em bancos, estafetas de “aplicativo” acampados em tendas Quechua, sem-abrigos a fazer a sua legítima higiene entre um círculo de árvores, a lavar o seu calçad, a esfregar a sua roupa e, em suma, sobreviver da forma mais digna possível. Tudo isto é observável a partir das oito ou nove da manhã de qualquer dia de semana, exceto quando cai a noite, porque ao Jardim falta também iluminação.

Progredindo pelas trincheiras, chegamos a um quiosque e um parque infantil onde se verifica uma curiosa reversão da psique humana: as crianças do parque comportam-se como adultos num quiosque e os adultos do quiosque como se fossem crianças de colo. É especialmente deprimente, a um sábado de manhã, atravessar um cemitério de copos de plástico, beatas, papéis e vidros partidos que deviam ter sido varridos pelo quiosque (ou pela Junta, ou pela Câmara, ou por outra entidade qualquer ainda não designada porque provavelmente será necessário aprovar uma lei especial para o efeito na Assembleia da República) para levar os miúdos a andar de baloiço.

Existe também um lago que por vezes tem patos, e noutras mais raras, até mesmo água. Também lá tomam banho no Verão os que, por falta de alternativa ou higiene, têm outra concepção de espaço público. Nessa categoria incluiria também a malta das praxes, não por especial desconsideração à sua vocação ou sentido estético (não tenho espaço para falar disso aqui), mas simplesmente porque fazem um uso mais intensivo dos relvados do que os adeptos do Sporting nas roulottes em dia de jogo, ou mesmo as próprias equipas no estádio.

Para combater este Apocalipse existe um completíssimo sistema de rega que nutre de igual modo flora e asfalto; valorosos funcionários que se espalham insuficientemente pelo Jardim e umas quantas carrinhas que recolhem os ramos caídos e souvenirs deixados por estudantes, animais e indigentes. Parece-me um trabalho inglório e um corpo de missão escasso para bater de frente com as intempéries provocadas pelo Homem e, a tempos, as da Natureza.

Podia, ao relatar tudo isto, convencer-me de que esta realidade é inaceitável, indigna de uma capital europeia, demonstrativa de como a cidade trata os seus espaços públicos e de quão mal vivem alguns dos seus habitantes (uns por presumida reprovação às aulas de Cidadania, outros por puro abandono). Mas depois lembro-me que este Jardim está literalmente à frente da Câmara Municipal de Lisboa, que está localizado numa das melhores freguesias, senão a melhor, para viver na Capital e que pouquíssimos são os que conseguem sequer viver neste perímetro dourado. “Na verdade”, penso eu, “isto não deve ser assim tão mau, devo estar a exagerar e isto até tem o seu quê de pitoresco. De facto, se vivesse dentro de um carro, circulasse entre parques cobertos, escritórios e centros comerciais, mal daria pela existência desta gente inconveniente, desta lixeira e desta incivilidade. Eu é que estou mal, devia comprar um carro.”

Linguagem

Sempre achei que tinha jeito para línguas. Consigo reter com facilidade termos, frases e expressões ouvidas fugazmente em músicas, filmes, artigos e livros. Costumo até dizer que o espanhol que arranho se deve única e exclusivamente à pobreza da nossa indústria de dobragem que me sujeitou a 10 anos de Canal Panda no linguajar de Cervantes.

Também o inglês foi de fácil aprendizagem, ora não fosse a minha preferência por tudo o que não fosse música portuguesa, jogos de computador com muitíssimos diálogos e filmes sacados no Kazaa e Limewire sem o respetivo ficheiro .srt (a alternativa, legendas em Português do Brasil, tornava qualquer drama num filme de comédia. Veja-se O Padrinho Pt. II que no Brasil é conhecido por “O Poderoso Chefão 2”).

Mesmo línguas que não domino, como o francês ou o italiano, são compreensíveis se obtido o contexto ou fazendo o esforço de as ler com atenção, sendo minimamente relacionáveis com o português. Imagino que o mesmo se possa passar com outras línguas mais exóticas, caso investisse esforço e tempo na sua aprendizagem, algo que os avanços tecnológicos e a IA francamente me desencorajam de fazer.

Não obstante estes três parágrafos de auto-elogio mal disfarçado, há uma língua que tenho a certeza que não vou dominar. Não se trata de um dialecto das tribos ainda por descobrir na Amazónia Peruana, mas tão somente do português técnico falado por electricistas, carpinteiros, mecânicos, agricultores e todos os que desempenham atividades manuais. Acho que isto se deve, desde logo, ao facto de ser uma linguagem intimamente ligada à experiência e à representação visual e funcional de saberes e objectos com que nunca interagi ou que não sei utilizar.

Querem um exemplo? Sabem aquelas tiras de plástico que se unem nos extremos e são usadas nos filmes de gangsters para amarrar pulsos e tornozelos? Chamam-se abraçadeiras. Abraçadeiras. Nunca lá chegaria se não tivesse visto uma embalagem numa drogaria hoje de manhã. Conhecendo o nome, a coisa torna-se óbvia porque, de facto, a sua função é similar à de um abraço, mas esta aparente simplicidade pura e simplesmente escapa-me.

O problema desta língua para mim é que os seus conceitos, referências e peças não são auto-explicativos (nem explicativos, de todo.). Não há nada nestes que, intuitivamente, me leve a concluir qual a sua função ou propósito. Como, aos meus olhos, se trata de um universo altamente desagregado e sem elos visíveis entre si, não consigo associar as partes para construir um todo, e aí perco qualquer possibilidade de sentido. Novo exemplo: olhando ou ouvindo a expressão “camarão” jamais concluiria que esta peça serve para prender um parafuso à parede (Estão a ver? Nem sei explicar apropriadamente para que serve um “camarão”. Um carpinteiro diria provavelmente “fixar” ou algo do género).

As dificuldades agravam-se quando preciso de falar com um mecânico ou um electricista para comprar uma peça ou pedir uma reparação. Não existe um ponto comum de referência entre nós, porque não percebo patavina de motores ou sistemas eléctricos, nem, sequer, os seus princípios de funcionamento. Para mim, é similar ao que acontecia na Roma Antiga quando se chamavam os Augures para desvendar o futuro nos voos e entranhas dos pássaros. Explicar o problema é, desde logo, um problema e pior se torna quando começam a fazer perguntas ou sugestões porque partem sempre (mas sempre) do princípio de que sei do que estão a falar e que estou munido da mesma experiência e jargão técnico para encetar uma conversa ao seu nível.

A minha experiência é, na maioria das vezes, um acto de fé similar à deposição de velas e contemplação de um Santo. Tenho de estar muito concentrado para destrinçar se naquilo que o técnico está a dizer existe alguma expressão ou conjunto de vocábulos que me dê alguma pista quanto àquilo que é esperado de mim, embora me aconteça sempre como a São Tomé e acredite sem realmente ver:

- Depois olhe, é só fazer uma juntada com aquela cabeça que roda, o transformador dá de si e percebe logo se pode ligar o sistema. Se não conseguir, também é fácil. Está a ver aqui este dedo mais saliente? É só pressionar ligeiramente com um cabo de uma chave que tenha aí à mão, ajustar o ângulo e a coisa vai ao sítio.

- Ok, ok, faz sentido. Obrigado.

Por não saber falar nem compreender esta língua, tenho de arranjar estratégias para comunicar eficazmente. Uma das situações mais complicadas é quando um técnico não consegue fazer uma reparação porque precisa de determinada peça ou componente e pede-me que a vá comprar. Faço então questão de deixar uma nota escrita no telemóvel com a descrição exacta do objecto (p. ex.: um "furadouro ambidestro de saliência invertida”) e repito-a perante o funcionário da loja na esperança de que aquela sequência de palavras codificadas seja suficiente para obter o que preciso. 

Porém, muitas vezes o lojista aprofunda os conceitos e apresenta-me escolhas que me baralham completamente. Outras vezes, a mera aquisição da peça não é suficiente, sendo necessário escutar com atenção as instruções de utilização e aplicação do produto em concreto, o que me obriga a pedir ao meu interlocutor que se repita para garantir que consigo transmitir o criptograma resultante de modo fidedigno.

Outra das figuras tristes que faço é a de assistir ao processo de reparação propriamente dito, tentando dar mostras de que estou mesmo a compreender o que se está a passar. Adopto geralmente uma postura clássica de mãos nas ancas, foco um olhar atento e balbucio monossílabos como “Pois”, “Hum”, “Ok”, para assim validar a progressão dos trabalhos. Terminada a “intervenção” permanece uma esperança ardente de que o problema tenha ficado resolvido, similar à da absolvição de um pecado.

Apesar de todos estes esforços, sinto que a minha evolução é praticamente nula e que a margem de erro é, ainda, muito grande. O que habitualmente me acontece são interações deste género:

- Sr. João, está aqui então o circuito micro-elétrico que me pediu para fazer a instalação.

(Analisando o artefacto) - Oh! Não lhe deram na loja o cabo de variação que acompanha?

- Não, não me perguntaram nada. Mostrei aquela fotografia que me enviou...

- Pois, mas sem esse cabo não se faz nada. Algumas instalações já o têm de origem, mas a sua não. Achei que tinha reparado…

- Não, por acaso não. E agora?

- Agora vou ter de voltar cá. A menos que…não sabe se por acaso a fonte de alimentação é bi-diversa, pois não.

- Hum…pois, é melhor voltar cá, Sr. João.

Tendo reflectido nesta minha incapacidade, tenho mesmo pena de não compreender as ciências da manipulação da matéria, bem como alguma mágoa pelo facto de as mesmas serem amplamente praticadas e compreendidas por grande parte das pessoas, muitas delas até com habilitações literárias bastante baixas. Esta será talvez a razão pela qual não me fascino tanto com as coisas em si (carros, motas, gadgets, etc.), mas mais com as emoções e sensações que elas me proporcionam, já que pelo menos estas consigo perceber e descrever em detalhe.

Talvez nunca venha a aprender a comunicar nesta língua, mas mantenho uma vigília serena, pois pode ser que à 40.ª visita de um electricista cá a casa ou, subitamente, numa visita ao Leroy Merlin, já consiga fazer mais do que apontar o dedo e dizer que sim com a cabeça. 

O Bitoque

Existe um encanto oculto nas coisas feias e inestéticas, especialmente quando utilizadas como objectos de decoração, o que constitui um acto quase revolucionário, atenta a sua inaptidão, por natureza, para cumprir um propósito de embelezamento. Existe um encanto ainda maior nas pessoas que percepcionam beleza nesses objectos, mostrando que podemos olhar para a mesma coisa e nela ver antónimos estéticos. Mais fantástico é, ainda, quando essas visões dissonantes coexistem no mesmo espaço e em relação de paridade com o que está a ser observado, quase como se fosse possível habitar diferentes dimensões da mesma realidade.

Esta tentativa de reflexão sobre o que é kitsch, percepção e gosto foi-me inesperadamente provocada pela distinta sala de refeições do restaurante O Bitoque, em Campo de Ourique. É uma tasca vivida e provavelmente conhecida de muitos, mas que sobressai pelas suas qualidades alquímicas, transformando propostas gastronómicas medianas em viagens espácio-temporais.

Em boa verdade, tive uma experiência perfeitamente comum n’O Bitoque, expressa nuns escalopes de perú e garrafinha de água das pedras que os excessos do final de ano impuseram à minha consciência e num serviço correcto, mas distraído (serviram batatas fritas em vez dos legumes prescritos pelas resoluções de ano novo).

Apesar disso, o décor absolutamente irrepreensível do espaço e que só pode ser entendido pelas imagens que aqui partilho, começou a transmutar este “bronze” em ouro, tendo a discussão que estalou na cozinha, e que rapidamente se tornou audível para todos, finalizado um processo digno de Paracelso. De repente, aquela gritaria, a total indiferença dos clientes que prosseguiam a desbastar os seus pratos de feijoada e o riso gozão dos empregados perante o litígio, revelaram-me que naquele momento não estava em Campo de Ourique, Lisboa, em Janeiro de 2025.

Estava noutro tempo e noutro lugar, num em que o consumidor é um familiar e envolvido nas alegrias e tristezas do quotidiano, em que se aceita fiado, em que não há “clientes”, mas sim “fregueses”, em que um quadro do “Menino da Lágrima” é a jóia da coroa a expôr em qualquer parede ainda por cobrir, em que a refeição termina sempre com um café “com cheirinho” e em que a conta é sempre calculada e redigida à frente do beneficiário de uma refeição servida em doses generosas.


Esta sensação animou-me o espírito e fez-me pensar que é realmente possível ver o belo no feio e a ordem no caos. Tudo estava no seu devido lugar: os ornamentos natalícios de índole mais capitalista do que católica, um bibelot perdido da Betty Boop, as garrafas meio vazias de B! Limonada a conviver na estante com vários exemplares do Tinto da Adega de Borba, um quadro com três cavalos brancos empinados à beira-mar e um relógio em forma de coruja cujos olhos acompanhavam o ponteiro dos segundos; e parecia até ensaiado, já que, após mais alguns berros do cozinheiro e apaziguamento do pessoal da sala, a querela arrefeceu e retornámos à actualidade. 

No final, tendo-me dirigido à “zona de caixa” para trocar uma nota, não resisti e espreitei para a cozinha, o coração daquele corpo ancião ainda em movimento. Nele vi uma sala cravejada a azulejos de intenso azul cortado pelo brilho metálico dos electrodomésticos, tachos, panelas e bandejas, manuseadas a contragosto por duas figuras de um homem e de uma mulher que mais pareciam moldadas em barro, vestidas de branco, transpiradas e com cara de (muito) poucos amigos. O tempo pareceu parar novamente e ali pude gravar na minha memória aquela cena e a sua brutalidade.

Não sei se terei oportunidade de rever O Bitoque antes que um qualquer cataclismo (auto-infligido ou de cariz imobiliário) o encerre permanentemente, ou se as emoções ali experimentadas são, sequer, repetíveis, mas nele guardarei esta viagem e o incentivo para ver sempre o que está à minha frente de duas formas diferentes. 

Vida de Tasca

Escrevo sobre o Vida de Tasca sem qualquer pretensão de revelar um tesouro escondido, contar a história que levou à sua (re)abertura ou, sequer, de falar dos pratos e vinhos que ali podemos consumir. Este texto não visa avaliar um restaurante, mas destacar um espaço que parece desafiar o ciclo de vida de um universo encaminhado para uma inevitável obliteração.

O que é interessante no Vida de Tasca é precisamente o seu nome, por ser extremamente difícil, senão impossível, fazer jus a esse tipo de vivência nos dias de hoje. Ninguém “respeitável” tem 2 ou 3 horas para almoçar com amigos durante a semana, nem, muito menos, justificação para juntar um café com cheirinho (ou mousse) a um palmarés onde já constam 1/2 minis (para “abrir”) e uma garrafinha de tinto (mas nada muito alcoólico para ainda se poder “trabalhar” à tarde, claro). Também já ninguém tem muita paciência para encetar conversas com a mesa do lado, mesmo quando percebe que há ali um tema que, explorado por todos, pode produzir uma epifania nas consciências mais ou menos inebriadas dos envolvidos.

Na verdade, o conceito de vida de tasca é cada vez mais incompatível com a movida urbana que nos impinge refeições “saudáveis” (sopa, alface e smoothie), deglutidas em 30 minutos à frente do computador para cumprir um prazo inadiável ou enviar um e-mail com feedback. Ninguém pode ter uma vida de tasca se está sempre online no Teams ou tem um tempo de reacção inferior a um segundo para atender mais uma chamada do “Colega”. Também é difícil aproveitar uma vida de tasca se a única altura que há para ir ao ginásio - a missa do séc. XXI – é a hora de almoço. Bem sabemos que as tascas são para ser vividas nesse período e que pratos como rim frito, cozido, chanfana ou mão de vaca não devem ser consumidos depois do sol-posto, sob pena de o nosso sistema digestivo nos convidar a uma vigília forçada.

É também muito difícil enquadrar o barulho, falta de espaço, cheiro a fritos e um serviço esforçado com as preocupações estéticas que uma ida a um restaurante exige ao utilizador das redes sociais vocacionadas para a romantização do quotidiano (Instagram, à cabeça). Uma vida de tasca não cabe num reel, dificilmente fica bem numa fotografia e é insuscetível de ser compreendida com qualquer tipo de filtro, melhoramento de imagem ou outro artifício de aperfeiçoamento. A vida de tasca é o oposto de tudo isso: é a assunção de um espírito preguiçoso e convivial, de uma total incúria no que diz respeito à saúde pessoal, do abraçar de uma procrastinação inaceitável mas epidémica nas sociedades contemporâneas e de uma orgulhosa imperfeição do “ambiente”, “serviço” e “carta”, inadmissível para quem é, como todos são, um foodie especialista há já uns bons 2 anos (ou, mais precisamente, 231 publicações e o dobro dos stories).

Apesar de cruzar os mares tormentosos da gestão de um negócio de restauração tradicional na época das “redes”, o Vida de Tasca defende com nobre propósito uma pequena cidadela cercada pelos exércitos invasores dos reinos que pedem caução para reservar mesa, dos principados do serviço em turnos, dos ducados da “partilha” como “conceito” e dos condados das ementas em inglês. Dificilmente esta fortaleza resistirá para sempre, uma vez que é difícil recrutar soldados que não se envergonhem com a defesa deste estilo de vida ignominioso aos olhos da sociedade dos KPIs e objectivos SMART. É, sim, muito mais fácil encontrar detractores destes hábitos e consumos associados por alguns a uma ruralidade que saloiamente procuram apagar.

Não sei se será possível ter uma vida de tasca hoje, mas será certamente possível vivê-la durante umas horas e, durante esses momentos, imaginar que se tem uma existência pacata numa qualquer localidade do interior onde todos são afáveis e querem o nosso bem, onde todas as obrigações e afazeres se tratam rapidamente sem sair da nossa rua e onde o tempo para as refeições e convívio está sempre garantido. Realmente, não sei quem, vivendo numa cidade, idealizará ou quererá coisa diferente para a sua vida ou porque é que pensará dessa forma. Talvez seja uma boa conversa para se ter a uma quinta-feira durante um almoço - prolongado - no Vida de Tasca.

Retrato do Artista Quando Velho

António Júlio percorria estes caminhos há muito tempo. Desinteressado de compromissos e desafogado de dificuldades, dedicava-se a uma pequena galeria de obscuridades surripiadas a estudantes de Belas Artes que não lhe dava nada senão uma forma de ocupar a sua vida cada vez mais vazia.

Como é bom de ver, o desafogo provinha de outras paragens, em concreto, de um conjunto de prédios deixados em legado e cujas rendas permitiam a António Júlio dedicar-se ao mundo da arte e das ideias alicerçado numa vivência que tinha mais de material do que transcendente.

Mas António Júlio não vagou por esta vida deslocado, nem, muito menos, desapegado das emoções e relações humanas. António Júlio já foi casado, teve filhos, partilhou e destruiu lares, cultivou relações amorosas e chegou ao alto dos seus 64 anos com a consciência formada de que o Outro é, mais do que tudo, uma fonte transitória de comodidades e prazeres.

Ora, foi em mais um desses dias corredios e improvisados que António Júlio, tendo já bebido da fonte da juventude (no caso, vinho), foi encontrar um grupo de jovens adultos em caloroso repasto nocturno num dos restaurantes onde costumava poisar. Comoveu-o logo o trato cordial e afectuoso que estes Amigos emprestavam uns aos outros. As conversas que ondulavam entre a seriedade e uma brejeirice inocente, típicas de quem só tem aquele momento para rejuvenescer umas décadas e esquecer que amanhã voltará a ser adulto.

António Júlio lembrou-se do tempo em que teve Amigos. Não é que estivesse propriamente sozinho - acompanhavam-no um amigo e o genro – mas o primeiro fazia-o certamente por pena e o segundo nada mais do que por obrigação. A breve trecho também já lá não estariam porque, ao contrário do nosso protagonista, a vida ainda era para eles coisa séria. Munindo-se de táctica fanfarrona - um encontrão bem calculado - António Júlio abordou o incauto grupo, interpelando-o de forma estrepitosa e recolhendo desse modo a atenção que sempre precisou:

- Boa noite, importavam-se que me juntasse a este grupo de jovens tão educados e bem-parecidos?

- De todo, esteja à vontade Sr…

- António Júlio, à vossa disposição. Estive ali a jantar com o meu genro e um amigo, mas os gajos são muita chatos e em breve largam daqui.

- Esteja à vontade, Sr. António Júlio. Diga-nos lá, o que é que faz? – inquiriu o grupo com genuína curiosidade e fascínio.

O herói iniciou então uma descrição dos seus feitos e um rigoroso elenco das suas posses, não se esquecendo de destacar as marcas das roupas que vestia e do relógio que usava para que não restassem dúvidas do sucesso por si granjeado e de quão pouca importância lhe atribuía.

Já se tinha passado tempo suficiente para perceber que sairiam dali juntos, fosse para sítios de pior ou melhor frequência, o que seria mais difícil no último caso, considerando os apetites particulares de António Júlio por espectáculos de exibição pública das formas femininas.

Cientes dessas inclinações, informaram previdentemente os jovens:

- Sr. António Júlio, nós vamos beber umas imperiais aqui ao bar do lado. Se quiser pode vir connosco. Depois logo se vê.

- A sério que não se incomodam? Agradeço-vos muito. São realmente um grupo de gente muito bem formada. Mas olhem, por azar não trouxe carteira nem dinheiro, pelo que vou ter de ligar ao Alcídio para me levantar algum.

Ainda antes que os jovens pudessem perguntar quem era e de que forma estava Alcídio vinculado a António Júlio, veio interceder em nome da Verdade o dito amigo que o acompanhava:

- O Alcídio é um taxista contratado pelo António para lhe fazer todo o tipo de serviços. Geralmente está parado nos arredores da cidade à espera do contacto providencial. Pode ser uma boleia para uma amiga, uma recolha tardia (diurna) ou um levantamento de fundos, como parece ser o caso.

Entretanto, já o nosso Júlio estabelecia contacto:

- Alcídio? Estou? Olha, preciso que me tragas o cartão e dinheiro aqui ao Saldanha. Sim, pá, ‘tou aqui com uma malta e estou a seco (uma figura de expressão, sem dúvida, atento o combustível já atestado no volumoso depósito).

- Bom, o Alcídio já aparece. Vamos andando e eu depois vou ter com ele.

E lá foi o grupo, deixando para trás o amigo e o genro que recolheram às suas vidas mais simples e equilibradas, tal como já tinha antecipado o astro da narrativa. Por razões distintas, umas mais inteligíveis do que outras, os interesses de António Júlio e dos Amigos convergiam e fizeram juntos o curto trajecto até ao estabelecimento de bebidas.

Atingido este ponto do relato, António Júlio já se apresentava num estado de notável embriaguez. Os seus pequenos olhos azuis, cada vez mais fechados, cintilavam com indisfarçável malícia. O cigarro começava a chegar-se cada vez mais para a extremidade da boca, numa tentativa compreensível de fugir à torrente de boçalidades, impropérios e fanfarronices proferidas pelo bardo. Também não foi o facto de alegar ser um habitual frequentador do bar em questão que impediu António Júlio de falhar a entrada do estabelecimento de forma contundente, servindo-se do encosto das paredes em seu redor para meditar fugazmente na razão do seu falhanço.

Arrumou-se o grupo numa pequena cabine de sofás e foram pedidas as prometidas imperiais, com exceção para António Júlio, cavaleiro do seu conto de fadas, que escalou para o gin tónico. As horas passaram e os jovens tomaram conhecimento das intermináveis virtudes do galerista, expressas em historietas como a de quando deu um T2 à sua primeira ex-mulher sem que tal lhe fosse juridicamente exigido; ou a temperança com que se relacionava com os seus inquilinos do Bangladesh, apesar de ter por boa práctica o assédio telefónico persistente como garantia de um atempado pagamento da renda; ou mesmo as suas inesgotáveis capacidades para avaliar e vender a bom preço qualquer obra ou metal, do mais vil ao mais nobre.

Conforme é da experiência comum, e da de António Júlio ainda mais, a conversa guinou para as mulheres, o amor-ódio da ilustre vedeta. Procurando manter estas linhas acessíveis para públicos de todas as idades, basta referir que a última tirada do artista sobre o tema, por sinal mais gritada do que falada, lhe mereceu reprovação imediata de uma senhora de latitude sulista que apenas queria desfrutar de um serão pacato.

- Você não fala assim das mulheres, viu? Você é um porco! Eu te ponho um processo!

António Júlio assistia a esta (justa) manifestação de repúdio com uma impavidez só ao alcance de um ébrio experiente, tendo reservado como singela reação um único vocábulo na língua de Sua Majestade: 

- Yes!

A desnecessária refrega, logo desarmada pelo grupo de amigos que se desculpou por este comportamento de maturidade inversamente proporcional à da idade do seu autor, trouxe o recomendado fim ao convívio, tendo sido pedida a fatura do estrago financeiro para a realização das devidas partilhas.

- Nem pensar! Vocês convidaram-me, eu pago isto tudo! Não se fala mais nisso! Chefe, a conta para aqui se faz favor! – urrou António Júlio inflamado pelo desplante dos jovens já ensonados e mal impressionados que teimavam em fazer uso da sua educação.

Ficaram assim resolvidos, tendo ido cada um à sua vida, os Amigos para casa e de regresso às suas famílias e trabalhos, António Júlio deslizando até ao automóvel de Alcídio em procura de outros confortos do corpo e da alma.

Mas a história de António Júlio não acaba aqui. E nem sequer acaba com o próprio, já que as acções e omissões deste tipo de pessoas assemelham-se ao movimento de placas tectónicas que criam terramotos e réplicas que afectam inevitavelmente as vidas dos outros.

- Estou? Estou a falar com o Sr. Pedro que esteve aqui ontem à noite a beber copos com uns amigos e com um tipo mais velho?

- Sim, é o próprio. Diga-me, o que se passa?

- Pois bem, vocês saíram daqui ontem sem pagar a conta. Vai ter de vir cá saldar a dívida.

- Desculpe, mas como assim? O Sr. António Júlio não pagou? Ele disse que ficava por conta dele.

- Pois, mas não pagou coisa nenhuma. Arrancou daqui logo a seguir a vocês e dinheiro, nada.

- Estranho, ele até nos mostrou várias notas que o motorista tinha vindo entregar…Olhe, deve ter sido engano, de certeza. Eu dou-lhe o número dele para que possa esclarecer isso com ele. De certeza que não teve intenção.

Mas teve.

- Estou? Olhe, acabei de falar com esse tal António Júlio. Diz que não sai de casa há seis meses por conta de uma doença. Está acamado, diz ele.

- Peço imensa desculpa! Quando puder passo aí e pago-lhe a conta. Desculpe lá, a sério.


Passatempos


Às vezes penso se é mesmo preciso chegarmos à meia-idade para descobrirmos um gosto ou passatempo que seja  classificado pelos outros como "crise". De facto, é melhor metermo-nos nos clubes de vinhos aos 30 do que enveredar pacificamente pela jardinagem aos 50? É preferível abandonar a família ao fim-de-semana para correr um trajecto de obstáculos na lama ao estilo comando do que fazê-lo mais tarde com os filhos já criados? Não estarão as pessoas de meia-idade a ser injustiçadas no meio disto tudo?

Aos 35 anos, tenho reparado que a maior parte dos meus amigos enveredou pela prática de modalidades ou atividades como o golfe, jogging (agora diz-se running para  parecer mais intenso), enologia, charutos ou padel. Embora seja fácil à primeira vista distinguir as que são benéficas para a saúde humana das que destroem órgãos e funções vitais do corpo, diria que há aspetos comuns na prática destas actividades que aproximam atletas e boémios, embora os boémios tendam a atingir  níveis de performance superiores.

Em primeiro lugar, é essencial para qualquer iniciado em qualquer uma destas modalidades levá-la extremamente a sério. Não basta dar uma ou duas voltas ao quarteirão. Não. Há que despender duzentos paus nuns Asics Gel-Kayano 31 e declarar que se pretende fazer uma meia-maratona dentro de dois meses, ainda que a nossa capacidade física e consciência corporal só nos permitam sentar e levantar para encher o cantil de 0,75L que a nossa entidade empregadora gentilmente nos cedeu na esperança de aplacar sentimentos de estagnação salarial. Da mesma forma, também não basta comprar umas referências entre os 10€-15€ do Dão para ir apurando o palato ou um decanter no IKEA. Não. Há que adquirir autênticas granadas como um Chryseia, Mouchão, Batuta ou Principal para mostrar como estamos investidos nisto. Parece que há um receio de a nossa nova paixão ser vista como fraudulenta se não igualarmos o nosso compromisso emocional com o financeiro e estabelecermos metas cujo irrealismo preocupa quem, avisadamente, tenta refrear esta recém-descoberta vocação.

De seguida, é necessário passar muito, muito tempo nas redes sociais, jornais e revistas da especialidade a ler artigos ou ver vídeos de especialistas influencers que dedicam a sua vida a fazer germinar estas pequenas sementes de obsessão. Temos vídeos sobre “técnica e postura de corrida”, “Zieher vs. Riedel, que marca que produz melhores copos de cristal?”, “melhores grips de tacos de golfe”, “formas de retirar a banda do charuto quando este chega ao último terço”, enfim, motivos vários para adiar aquele e-mail urgente utilizado como desculpa para não levar o miúdo à creche ou fazer um brilharete em grupos de pessoas cujo nome esqueceremos mais facilmente do que a diferença entre um Closed Face Driver e um Neutral Face Driver (são tipos de tacos de golfe).

Feito o investimento inicial e adquirido o jargão, rudimentos técnicos e fluência necessária para nos aguentarmos mais do que 10 minutos numa conversa sobre o tema, é essencial entrarmos “em campo”. Não literalmente, diga-se, mas apenas começar a ter umas conversas sobre o nosso passatempo em almoços e jantares, para que os leigos possam tomar conhecimento da Boa Nova. Este é o aspecto mais importante de tudo isto, porque nos permite ter a sensação de ser ministros da nossa própria religião, fazendo simultaneamente fé do nosso fervor e atraindo fiéis para as fileiras de uma qualquer prática desportiva ou cultural executada com técnica deficiente, mas com uma regularidade que, embora o neguemos, o nosso corpo já não sustém.

Outra virtude deste tipo de iniciações é, para além de nos resgatar das preocupações da vida e do trabalho, o tempo que nos subtrai como paga desses alívios efémeros. Torna-se, pois, fácil justificar almoços e jantares a desoras (“Amor, é o nosso Clube Vínico!”), o afrouxar  de responsabilidades parentais (“Não vou poder ficar com os miúdos este Sábado. Sim, começamos às 10h e é só um jogo de 90 minutos, mas depois há almoço-convívio e o jogo do [inserir clube predilecto] às 20h que combinámos ver juntos.”) e um conjunto de debilidades físicas que mais cedo ou mais tarde surgiriam com a idade (“Dores de costas? Pois, tenho de melhorar a postura em sprint. Azias e enjoos? Tenho de beber mais biodinâmicos e deixar de fumar Toros da Nicarágua”).

Como sinto que já fiz inimigos suficientes (especialmente com o último parágrafo), termino apenas dizendo que não escrevo com qualquer sentido de superioridade ou imunidade a este tipo de desejos que são evidentes para quem vê a vida começar a acelerar e quer provar a si mesmo a sua capacidade de a aproveitar. Porque não há nada mais natural no espírito eternamente curioso do ser humano do que um novo interesse que desenvolva os seus sentidos e capacidades para patamares inexplorados, tornando-o assim "uma melhor versão  de si mesmo". Vêem? Não há ninguém que melhor nos consiga iludir com justificações perfeitamente racionais, lógicas e encorajadoras para estragar o cabedal mais um bocadinho e complicar complicadas vidas profissionais e familiares do que nós próprios. Tudo visto e somado, acho que as crises de meia-idade acabam por ser mais saudáveis.



P.S.: Numa prova de que não aprendi nem refleti nada com o que acabei de escrever, comecei a seguir o Manchester United do Ruben Amorim, i.e., os jogos, conferências de imprensa, entrevistas, análises e as respectivas redes sociais.

Go Chef

Quase 10 anos volvidos que razão me faz voltar a escrever e activar novamente este blogue? Um livro arrebatador dos muitos que tenho lido ultimamente? A exposição às ideias, críticas e discussões bem fundamentadas, honestas e cordiais das nossas impolutas redes sociais? Uma entrevista ao Julião Sarmento que vi no Youtube e me fez pensar nas virtudes da insatisfação permanente? Não. Uma razão bem maior – figurativa e literalmente – que, há já alguns dias, continua a prender-me a uma perplexidade da qual entendi só poder desenredar-me escrevendo umas linhas sobre o assunto.

Refiro-me ao restaurante Go Chef, sito em Frielas, mais precisamente junto à placa que sinaliza a entrada na localidade de Flamenga, concelho de Loures, e que desafia a capacidade de síntese, visto que congrega em si os elementos estéticos, decorativos e arquitectónicos daquilo que poderíamos descrever como uma grande oficina automóvel como as que existem no Prior Velho (estamos a falar de 1000m2) onde cerca de 400 pessoas podem, num ambiente reminiscente de um Centro Comercial Vasco da Gama decorado pelo staff do Love is Blind, banquetear-se com uma oferta gastronómica em modo buffett igual à dos restaurantes Serra da Estrela, Bifana de Vendas Novas, di Casa, Go Natural, la Parrilla, Noori, Kiro Sushi, Panda Cantina, Pizza Hut, Sabor Gaúcho, Frango da Guia, Vitaminas e, claro, Xiao Long Kan, todos juntos*. Ah, e também servem marisco. Que tipo? Todo.

Go Chef.

Com efeito, só a prodigiosa organização, ética de trabalho (ou vínculos laborais com segurança aquém do desejável) e escala comummente atribuídas ao povo chinês poderiam tornar realidade este espaço. Todas as mesas estão identificadas por um algarismo que serve de código/língua franca na aventura que nos espera: é esse número que devemos utilizar caso queiramos deixar uma simbiose de espetadas de camarão, picanha e lulas a estagiar na estação dos grelhados, pedir uma sopa de noodles chineses com carne de porco e couves, seleccionar a 34ª água das pedras na app de bebidas do restaurante ou, simplesmente, para sermos reconhecidos por um robot itinerante que leva os pedidos às mesas (este certamente sem vínculo laboral).

A sensação de estar no Go Chef assemelha-se à que imagino caso fosse mesmo possível entrar num videojogo. Os nossos sentidos são assoberbados por sons (crianças, festas de aniversário, o dito robot), cores e luzes, personagens de todos os tipos e formas (com prevalência para as arredondadas) a circular freneticamente, uma barra de energia em progressiva diminuição (a nossa fome), vários níveis (não cheguei sequer ao das sobremesas) e uma competição despropositada com outros jogadores que claramente acham que estão a jogar em Single Player e não online.

Dois jogadores S-rank a jogar em modo co-op.

Como se tudo isto não fosse já inacreditável, o Go Chef tem ainda um ecrã gigante do tamanho de um campo de padel, Pêra Manca na carta de vinhos (o tinto, não o do edil de Oeiras) e preços que levariam à bancarrota qualquer um que tentasse concorrer com este porta-estandarte do açambarcamento.

Tendo tido a oportunidade de lá ir recentemente, confesso que ainda não me refiz da experiência. Sinto que a estratégia e abordagem que implementei podem não ter sido as mais correctas, o que me terá feito perder a possibilidade de deliciar-me com maior diversidade e quantidade (as molduras gigantes com fotografias do Arco do Triunfo, do Panteão e de outras maravilhas da latinidade também não facilitaram o exercício de concentração). Pensando bem, dei apenas uma volta de reconhecimento aos expositores, balcões e bancadas que compõem a arena do fartote, enquanto outros com mais experiência e sageza se demoraram em corredores-chave de onde podiam admirar quatro ou cinco filas de rechauds em simultâneo.

Posicionamento e seating típicos de um iniciado.

Para os que antecipam o acirrar da guerra comercial entre os EUA e a China e uma possível vitória dos primeiros graças aos seus novos personagens (oxalá fossem de videojogos), diria que basta (i) deslocarmo-nos à estação do marisco do Go Chef (decorada com bonitas réplicas de barcos, âncoras envoltas em redes de pesca e crustáceos variados), (ii) tirar uma pata de sapateira pré-partida, (iii) comê-la, (iv) perceber que não é má e (v) perguntar como raio é que Vicente Wang, representante legal da sociedade Parcelas Alinhadas, Lda.**, conseguiu reunir todo este produto a 19,95€/PAX (preço em vigor para maiores de 9 anos aos fins-de-semana e feriados) para perceber que o mundo ocidental não tem qualquer hipótese.




* Sim, todos estes espaços de restauração podem ser encontrados na Praça de Alimentação (adoro este termo) da superfície comercial cujo nome encheria de alegria póstuma o célebre navegador português (contanto que exista vida depois da morte, claro).

**Com o vastíssimo objecto social “Atividades de restauração. Bazar Chinês. Comércio por grosso e a retalho de produtos alimentares, naturais e dietéticos, produtos cosméticos e de higiene, chás e plantas medicinais, produtos de lazer, bem como comércio por correspondência e via Internet, produtos farmacêuticos, medicamentos de venda livre, atividades de fisioterapia, dietética, massagens e atividades similares, comércio por grosso e a retalho de vestuário, artesanato, bijutaria e decoração.”

Qosqo

Depois da minha experiência, o ano passado, n'A Cevicheria (podem recordá-la, aqui), comecei a nutrir uma certa desconfiança por estabelecimentos que apresentassem ceviche na sua ementa. Não tanto pela sua tentativa de "cavalgar a onda" da restauração pop, mas mais por ter chegado à conclusão que é um prato em que é muito difícil atingir o equilíbrio entre a sua acidez, "frescura" e o imprescindível picante, sendo por isso bastante improvável encontrar uma fórmula que me agradasse (ai que isto não soou nada pretensioso).

Convencido de que não iria encontrar esse El Dorado do peixe cru, abandonei por completo as minhas incursões pela cozinha peruana (excepto nos pisco sour) até ter finalmente ido, na última Sexta-Feira, ao Qosqo.

A entrada do Qosqo.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que o propósito de ir ao Qosqo não é o de tirar fotografias à comida e ao espaço e partilhar a "inesquecível experiência" nas redes sociais (eu sei que fiz isto, mas qual é o blog pessoal que não tem um pouco de hipocrisia?). Isto porque não só saborear com atenção a comida vale a pena, mas também, como poderão verificar pelas fotografias seguintes, porque a luz baixa não é propriamente amiga das objectivas de smartphone

Em segundo lugar, a dona e cozinheiros do Qosqo são mesmo peruanos, pelo que estamos safos das "reinterpretações", "reincarnações" e "actualizações" de comida do mundo com "um toque português". Isto viu-se logo no primeiro prato que pedimos, o "Ceviche Clássico".  Um simples prato de garoupa aos cubos, banhada em sumo de lima e cebola roxa e acompanhada de batata doce ("camote"), milho peruano ("choclo") e picante peruano chegou à mesa e logo à primeira garfada percebi que o equilíbrio que procurava há tanto tempo tinha sido atingido. Não sei explicar, mas parecia que a acidez inicial do molho cedia logo lugar à frescura do peixe e dava depois ao picante a palavra final. Em suma, o melhor ceviche que já comi.

"Ceviche Clássico".

Foi também pedido um "Tiradito de Maracuyá" que mais não é do que uma sequência de lâminas de atum fresco marinado em sumo de limão e molho de...sim, adivinharam, maracujá. Não tão impressivo como o ceviche, foi ainda assim uma excelente forma de complementar a sua acidez natural.

A acompanhar este primeiro duo de pratos esteve outro de piscos sour. Não sou grande fã de cocktails ou misturas (pelo menos desde aquela Viagem de Finalistas, em 2007), mas as proporções que são tidas em conta na preparação destes piscos (quase mais pisco que sour) e o preço praticado no Qosqo tornam-nos absolutamente irresistíveis. 

Dito Escrito isto, passo a explicar a seguinte fotografia que pode funcionar como uma explicação das orientações ideológicas aos mais novos aplicadas à prática: à esquerda está o "Tiradito", numa clara alusão à "redistribuição de rendimentos", à direita, o "Ceviche Clássico", uma bonita imagem de conservadorismo e tradição, à extrema-direita, o picante, porque embora possa provocar autênticas destruições, o ardor que faz sentir agrada a muita gente. Por fim, ao centro estão os piscos, talvez porque seja preciso bebê-los com moderação. Ah, esqueci-me de mencionar a extrema-esquerda, mas também é um bocado como aquela garrafa de água, está ali mais para dar uma imagem de pluralismo do que propriamente para ser consumida.

Real politik.

Depois de ter estragado este texto com alusões políticas primárias e superficiais, nada como falar do último prato que experimentámos para elevar o nível. Refiro-me ao "Tártaro de Quinoa com Atum Grelhado". Misturado com tomate e abacate, este tártaro teve o condão de mostrar a um carnívoro inveterado como eu que a comida fit até é boa e só é prejudicada pelo marketing (e pricing) que dela se faz. Uma vez mais, é como tudo na vida, são as pessoas que dão cabo das coisas. O prato estava tão bom, tão bom, que até me esqueci de o fotografar. Nos dias que correm, pensem bem no que isto significa.

Pessoas a interagir socialmente através do dom da vocalização.

Uma última palavra para o espaço, o ambiente e o serviço. A grande vantagem, como aliás na grande maioria dos sítios em que se come bem, é que as pessoas não estão ali para impressionar ninguém através de artifícios estético-teatrais. Assim, um serviço próximo e atento complementa uma cozinha já de si calorosa, um espaço com iluminação ideal para jantar a dois e um preço mais do equilibrado para a qualidade e quantidade apresentada.  Provavelmente passará outra vez algum tempo até voltar a comer ceviche, mas desta vez já sei onde tenho de ir.




P.S.: É verdade, o blog faz hoje um ano. Aos que me continuam a ler, agradeço o tempo e a paciência dispensados. Aos que já não me lêem, respeito e compreendo a V. decisão. Provavelmente faria a mesma coisa se não fosse eu a escrever esta macacada.

Crew Hassan

Quem me conhece sabe que nutro pelo eixo Anjos-Martim Moniz um carinho especial. Entre tasquinhas, mercearias, modistas, associações culturais e oficinas automóveis, temos ali um pouco de tudo e de toda a gente. É neste oásis multicultural que reside, desde 2015, uma das associações pioneiras num certo tipo de animação de espaços que outrora se encontravam votados ao abandono: a Crew Hassan

A fachada do Crew Hassan, no cruzamento entre a Rua Maria e a Rua Andrade.

O Crew Hassan é um amplo espaço de convívio, onde tanto podemos ir beber um chá ou uma cerveja artesanal. Com mobiliário antigo (desculpem, mas não quero dizer vintage), é também um lugar que acolhe e publicita todo o tipo de actividades culturais, como concertos, aulas de dança, stand-up, artes marciais ou aulas de inglês (de estilo "dinâmico").

O ambiente é, como seria de esperar, muito descontraído, e isso reflecte-se na forma como somos abordados pelo staff («Boas, como é que é?») ou na liberdade que temos em escolher e sugerir vinis ao DJ de serviço. A esse propósito, a escolha da música é uma das coisas de que gosto mais neste espaço e que mais contribui para a sua aura "criativa". Da última vez que lá fui, passei a tarde a ouvir Buena Vista Social Club enquanto queimavam uns paus de incenso e lavavam o chão. A improbabilidade de fazer isto no meu lar seria altíssima, mas, por alguma estranha razão, senti-me de facto em casa.


Se estão com dificuldade em encontrar locais onde podem ter longas conversas, observar concidadãos com opções de vida diametralmente opostas às vossas, ou simplesmente não conhecem bem uma zona profícua em especialistas do "saber viver", urjo-vos a passar pelo Crew Hassan e passar umas horas ao som de êxitos de Bossa Nova e na companhia de promissores escritores de romances, turistas perdidos e revivalistas de todos os tipos. Se ficarem com fome, não se preocupem. A maravilhosa Carvoaria Jacto é mesmo ali ao lado.