A obra demonstra
friamente que há pessoas que, mesmo perante o colapso do seu ramo nessa árvore
e a exposição cruel às forças do mundo, permanecem incapazes de compreender onde
estão e de continuar a habitar esse lugar. Preferem reorganizar-se num lugar mais escuro na árvore a abdicar do idealismo que
as levou a escolher viver num galho quebradiço.
Contrariamente ao
que possa parecer, a inteligência de David Lurie não se revela grande ajuda
para as decisões que toma na história. Lurie é culto, articulado e verbalmente
sofisticado, mas isso serve sobretudo para justificar os seus desejos,
estetizar os seus impulsos, proteger a imagem que tem de si próprio e converter
a sua fragilidade em estilo. A sua relação com a cultura, com Byron, com a
opereta que se entretém a imaginar e com a linguagem do desejo, não o abre ao
mundo, antes fecha-o cada vez mais sobre si próprio e torna-o progressivamente
mais incapaz de se relacionar com os outros e com o ambiente que o rodeia. Nele,
a cultura opera como cenário e mecanismo de auto-absolvição de tudo quanto
possa ser moralmente censurável na sua existência. Lurie até pode perceber a
sua condição, mas não quer sair do seu mundo romântico.
Esta disposição
de Lurie torna-se trágica porque Coetzee recusa a ideia confortável de que o
sofrimento ensina ou purifica. Mesmo depois da expulsão da universidade, da ida
para a quinta, do ataque e da exposição da vulnerabilidade da sua filha, Lurie
continua, no essencial, preso às suas emoções, à húbris, às preconceções e à
necessidade de se pensar como personagem principal. Coetzee mostra que há
pessoas cuja estrutura interior é tão rígida que nem a violência do real é
capaz de as mudar.
Poderá existir a
tentação de ver no trabalho no abrigo animal uma forma de humanização tardia da
personagem de Lurie, mas essa parece uma leitura demasiado benigna. Os cães
funcionam, para Lurie, como um medium de deslocação narcísica. Não o
desafiam, não exigem reciprocidade moral complexa, não o obrigam a rever-se e
não têm história. É mais fácil para ele ligar-se ao sofrimento mudo e
dependente do que enfrentar os humanos e o meio implacável à sua volta. O
serviço aos cães pode assim ser lido como uma nova organização da sua narrativa
pessoal: se já não pode ser protagonista, passa a ocupar o papel do homem
diminuído, silencioso e nobre no seu apagamento, uma personagem fora da
história. Ali não há redenção, apenas resignação cénica.
Por oposição, Lucy
Lurie apresenta-se como a personagem mais lúcida do romance. Isto não é
necessariamente bom, nem significa que esteja moralmente certa, mas, pelo
menos, Lucy percebe a brutalidade do território em que vive, compreende a
fragilidade da sua posição, aceita a dependência e o preço de permanecer onde está.
Ao contrário do pai, Lucy existe e está inscrita naquele mundo de forma
concreta e real. No decurso da narrativa, apercebemo-nos que há nela uma
vontade radical de independência e permanência que a impede de regressar à
Cidade do Cabo ou à Holanda, oportunidades amiúde oferecidas pelo seu pai. Lucy
está disposta a sacrificar quase tudo pela vida cruenta e imperdoável que aquele
território africano reserva para os que nele têm a temeridade ou
inevitabilidade de viver.
O carácter
inflexível deste território parece ser corporizado por Petrus, vizinho de Lucy,
trabalhador agrícola, e, mais tarde, proprietário. A vida de Petrus brota da
terra, dos seus frutos e castigos. Trabalha, investe e protege os seus numa
lógica crua de autonomia, responsabilidade e inequívoca ambição. Num mundo
rural, ermo e sem autoridade efetiva, a sobrevivência depende de redes de
proteção, da proximidade familiar, da tradição e da demonstração de força. Se Petrus
sabe isso intuitivamente, Lurie, com toda a sua cultura e “conhecimento”, falha
em reconhecer uma verdade simples: o ser humano sobrevive através de
instituições, tradições e vínculos moldados pelo ambiente em que vive. E quanto
menos garantida estiver a sobrevivência nesse meio, mais impiedosas tenderão a
ser as estruturas sociais criadas para a alcançar.
Coetzee não está
interessado em atribuir um sentido moral ou transcendente a esta ordem do
mundo. O romance monta um enquadramento factual de violência, dependência,
território e vulnerabilidade, e permite-nos observar quem o compreende, quem
resiste, quem se ilude e quem cede. Não há uma tese moral fechada, nem pode
haver. O que há é um teste da espessura real de cada personagem quando caem as
mediações sociais, políticas e intelectuais.

















