"Desgraça", de J. M. Coetzee


Desgraça não me parece ser uma obra de redenção ou humanização progressiva de um narcisista. Não é um livro que proponha esperança nem desespero. Parece preocupar-se mais em descrever uma árvore antiga: o seu tronco e ramos mais ou menos viçosos, os ventos que a assolam, as chuvas, os raios de sol e as vicissitudes que entorpecem ou fomentam o seu crescimento. Descreve também a fauna que a habita, voluntária ou resignadamente.

A obra demonstra friamente que há pessoas que, mesmo perante o colapso do seu ramo nessa árvore e a exposição cruel às forças do mundo, permanecem incapazes de compreender onde estão e de continuar a habitar esse lugar. Preferem reorganizar-se num lugar mais escuro na árvore a abdicar do idealismo que as levou a escolher viver num galho quebradiço.

Contrariamente ao que possa parecer, a inteligência de David Lurie não se revela grande ajuda para as decisões que toma na história. Lurie é culto, articulado e verbalmente sofisticado, mas isso serve sobretudo para justificar os seus desejos, estetizar os seus impulsos, proteger a imagem que tem de si próprio e converter a sua fragilidade em estilo. A sua relação com a cultura, com Byron, com a opereta que se entretém a imaginar e com a linguagem do desejo, não o abre ao mundo, antes fecha-o cada vez mais sobre si próprio e torna-o progressivamente mais incapaz de se relacionar com os outros e com o ambiente que o rodeia. Nele, a cultura opera como cenário e mecanismo de auto-absolvição de tudo quanto possa ser moralmente censurável na sua existência. Lurie até pode perceber a sua condição, mas não quer sair do seu mundo romântico.

Esta disposição de Lurie torna-se trágica porque Coetzee recusa a ideia confortável de que o sofrimento ensina ou purifica. Mesmo depois da expulsão da universidade, da ida para a quinta, do ataque e da exposição da vulnerabilidade da sua filha, Lurie continua, no essencial, preso às suas emoções, à húbris, às preconceções e à necessidade de se pensar como personagem principal. Coetzee mostra que há pessoas cuja estrutura interior é tão rígida que nem a violência do real é capaz de as mudar.

Poderá existir a tentação de ver no trabalho no abrigo animal uma forma de humanização tardia da personagem de Lurie, mas essa parece uma leitura demasiado benigna. Os cães funcionam, para Lurie, como um medium de deslocação narcísica. Não o desafiam, não exigem reciprocidade moral complexa, não o obrigam a rever-se e não têm história. É mais fácil para ele ligar-se ao sofrimento mudo e dependente do que enfrentar os humanos e o meio implacável à sua volta. O serviço aos cães pode assim ser lido como uma nova organização da sua narrativa pessoal: se já não pode ser protagonista, passa a ocupar o papel do homem diminuído, silencioso e nobre no seu apagamento, uma personagem fora da história. Ali não há redenção, apenas resignação cénica.

Por oposição, Lucy Lurie apresenta-se como a personagem mais lúcida do romance. Isto não é necessariamente bom, nem significa que esteja moralmente certa, mas, pelo menos, Lucy percebe a brutalidade do território em que vive, compreende a fragilidade da sua posição, aceita a dependência e o preço de permanecer onde está. Ao contrário do pai, Lucy existe e está inscrita naquele mundo de forma concreta e real. No decurso da narrativa, apercebemo-nos que há nela uma vontade radical de independência e permanência que a impede de regressar à Cidade do Cabo ou à Holanda, oportunidades amiúde oferecidas pelo seu pai. Lucy está disposta a sacrificar quase tudo pela vida cruenta e imperdoável que aquele território africano reserva para os que nele têm a temeridade ou inevitabilidade de viver.

O carácter inflexível deste território parece ser corporizado por Petrus, vizinho de Lucy, trabalhador agrícola, e, mais tarde, proprietário. A vida de Petrus brota da terra, dos seus frutos e castigos. Trabalha, investe e protege os seus numa lógica crua de autonomia, responsabilidade e inequívoca ambição. Num mundo rural, ermo e sem autoridade efetiva, a sobrevivência depende de redes de proteção, da proximidade familiar, da tradição e da demonstração de força. Se Petrus sabe isso intuitivamente, Lurie, com toda a sua cultura e “conhecimento”, falha em reconhecer uma verdade simples: o ser humano sobrevive através de instituições, tradições e vínculos moldados pelo ambiente em que vive. E quanto menos garantida estiver a sobrevivência nesse meio, mais impiedosas tenderão a ser as estruturas sociais criadas para a alcançar.

Coetzee não está interessado em atribuir um sentido moral ou transcendente a esta ordem do mundo. O romance monta um enquadramento factual de violência, dependência, território e vulnerabilidade, e permite-nos observar quem o compreende, quem resiste, quem se ilude e quem cede. Não há uma tese moral fechada, nem pode haver. O que há é um teste da espessura real de cada personagem quando caem as mediações sociais, políticas e intelectuais.

Em consequência, Desgraça é menos um romance sobre culpa ou redenção do que sobre redução e limitação. A redução de uma pessoa à sua verdadeira medida quando cultura, desejo e autoimagem deixam de bastar para existir em paz num mundo hostil. Lurie fá-lo no único espaço em que a sua mente fantasiosa ainda pode existir: o abrigo animal. Aí, no interlúdio de funções como eutanasiar e cremar cães, encontra alívio para uma existência desgraçada que, só para ele, foi inevitável.

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