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Mango Chiado - Crítica

Abriu na semana passada a nova loja da "Mango" no Chiado, esse local com poucas superfícies comerciais dedicadas ao vestuário (Benetton, Zilian, Gardenia, G-Star, Levi's, Bershka, Massimo Dutti, Zara, Pull & Bear, Pepe Jeans, El Ganso, Sacoor, Hugo Boss, H & M). Não obstante,  saúdo esta iniciativa e deixo registada nos parágrafos seguintes a minha experiência na nova aposta da empresa de Barcelona.

Infelizmente para os que me lêem não estou autorizado pelos funcionários da loja a partilhar o acervo fotográfico que, na minha ingenuidade, achei inócuo. Está claro que uma obra arquitectónica constituída por 4 andares, um pé direito muito alto (é assim que se diz, não é?) e todos os elementos que são apanágio de uma loja destinada ao público feminino, é por si só uma experiência que não deve ser banalizada nem reproduzida nas redes (anti)sociais. Assim, ilustro este artigo com uma frase proferida esta semana que me provou fortes emoções do ponto de vista ontológico e que (penso) vos servirá bem no futuro.


Voltando à Mango, é preciso salientar a magnanimidade com que foi disponibilizado um piso inteiro (o primeiro) para a secção de moda masculina. Como sabem, neste tipo de lojas a existência de uma secção dedicada a todos aqueles que se identificam como seres de características masculinas (gostaram desta formulação politicamente correcta?) visa unicamente preencher uma quota de género, a bem da igualdade e representatividade no sector do vestuário. O que acaba por acontecer, à semelhança de outros domínios em que há quotas, é que estas áreas são usadas como backup para o excesso de procura feminina nos provadores e caixas de pagamento.

Subindo a escada rolante, o elevador ou as escadas (não rolantes), começamos progressivamente a descobrir os restantes três pisos, estes já dedicados à moda de senhora (e criança, mas só tipo 5%). Aqui não há muito a dizer. Cumpre apenas assinalar a limpeza e aprumo na arrumação das peças de vestuário, uma realidade perfeitamente demonstrativa do quão recente é a loja. Qualquer pessoa medianamente atenta sabe que a aparência normal deste tipo de superfícies é similar à dos quartos das adolescentes e jovens adultas que as frequentam.


As áreas de cada piso são também muito vastas, com cantos e recantos suficientes para nos fazer passar longos momentos de lazer (sempre em pé) e sentir regozijo com soluções arquitectónicas elegantes, mas proibidas de registo instagrâmico («Eu sei que isto é lindo, mas não tem autorização para fotografar», disse-me uma das colaboradoras). 

Quanto à roupa, vou apenas falar escrever do que sei (acho eu): está muito presente a estética militarizada, as camisas azuis com padrões (cornucópias, bolinhas, flores, etc) e os trench coats (que fixação é esta com a guerra?) Como possuidor de um casaco de estilo militar e camisas de padrões (graças apenas ao bom gosto da minha namorada) confesso-me agradado com estas propostas, mas sensatamente desconfiado quanto à sua durabilidade. Se há coisa que este tipo de marcas não pretende é que os seus clientes só lá vá uma vez por ano.


Em conclusão, a minha apreciação sobre a nova Mango do Chiado é muito positiva: vem suprir uma falha no mercado (inexistência de lojas de vestuário na zona), proporciona um tratamento mais digno aos clientes masculinos (façamos vista grossa à inexistência de bancos/sofás) e tem uma entrada directa para os Armazéns do Chiado, facilitando uma retirada estratégica do cônjuge mais afectado pelos horrores do "campo de batalha". Numa escala em que 1 é Primark e 10 é aqueles personal tailors do online que agora estão na moda, a Mango do Chiado leva um sólido 7, um valor suficiente para atrair fashionistas, mas não demasiado alto para não estragar os fins-de-semana aos seus namorados.

Como sobreviver ao Fashion Night Out

Hoje realiza-se mais uma edição do Vogue Fashion Night Out ("VFNO"), uma iniciativa da conhecida publicação que tem como objectivo atrair o pouco gastador público feminino para as ruas e lojas da Baixa de Lisboa. Para além do incentivo à aquisição de roupeiros maiores, a VFNO também promove concertos e a animação de personalidades como Cláudia Vieira (famosa), José Fidaldo (famoso), Jéssica Athayde (recém-famosa) ou Ruben Rua (quase famoso). 

Ruben Rua: modelo, actor, personalidade. Ⓒ Revista Caras

Como os que me lêem bem sabem, procuro sempre transmitir algumas palavras de conforto e conselho em momentos mais atribulados da vida dos homens em geral. Estou pois solidário com as centenas de "amigos", namorados ou maridos que serão inevitavelmente arrastados em horário pós-laboral (ou pós-curricular) para um evento que os vai testar não só na sua aptidão física, mas essencialmente na sua resistência mental. 

anteriormente identifiquei os grandes perigos que os homens enfrentam no universo das lojas de senhora. No VFNO essas ameaças encontram-se amplificadas: não existem bancos para sentar (nem na rua!), o calor e humidade são sul-asiáticos, a mistura de cheiros,  perfumes e fragrâncias é reminiscente de uma Smartshop, a música consegue ser ainda pior do que o costume (DJ Isabel Figueira) e as pessoas simplesmente não acabam.

Sabem aquelas pessoas que passam o fim-de-semana em centros comerciais? Adivinhem lá para onde é que elas vão hoje. Ⓒ espalhafactos.com

Contudo, ao contrário do que acontece com as lojas de senhora, o VFNO oferece aos homens algumas possibilidades que lhes permitem escapar momentaneamente ao mundo impiedoso, frenético e colorido da moda feminina. Neste sentido, deixo-vos com alguns conselhos que vos vão ajudar a sobreviver a esta noite:

1. Ganhar capital moral

Ok. A vossa cara metade convenceu-vos (obrigou-vos) a ir ao VFNO e já não há forma de voltar atrás. A primeira coisa a fazer é perguntar-lhe o que é que ela pretende retirar da experiência. Um casaco novo? Peças básicas a preços convidativos? Ver e ser visto? Um autógrafo da Cristina Ferreira? 

Ao inquirirem a vossa namorada quanto às expectativas para a noite, não só demonstram interesse e ganham uns pontos, como também se podem preparar física e psicologicamente para o que vos espera. Para uma pontuação bónus, mantenham esta atitude durante a maior parte da noite: façam perguntas (muitas perguntas), demonstrem interesse e corram o risco de sugerir uma ou outra peça. Mesmo que não seja a escolha correcta a intenção e o interesse ficam devidamente registados.

«Não é o mais forte nem o mais inteligente da espécie que sobrevive, mas sim o que melhor se adapta à mudança.» Charles Darwin

2. Álcool

Uma das vantagens do VFNO relativamente à generalidade das experiências em qualquer superfície comercial destinada às senhoras é que aqui há acesso rápido (e geralmente gratuito) a álcool. Com efeito, é muito mais fácil persuadir uma senhora de 60 anos de que fica fantástica com um casaco militar e umas leggings de cabedal preto se antes lhe tivermos servido duas caipirinhas e meia (ou gins, agora é gins). Esta estratégia comercial é igualmente acertada para os homens que altruistica e apaixonadamente acompanham as suas mais-que-tudo para o campo de batalha. Ninguém vos vai censurar se, enquanto debatem tonalidades, cortes e padrões, mandarem abaixo dois ou sete copos de vinho branco. Na verdade, a experiência demonstra que o nível de conhecimento de alta costura dos homens aumenta à medida que a ingestão de bebidas alcóolicas segue o mesmo curso. Afinal quem é que receia falar em peles, gargantilhas e chelsea boots com um copo de vinho na mão? A sério, no fundo vocês sabem mais disso do que de futebol...

«Embora ao olhar de um homem qualquer os vossos vestidos sejam iguais, as vossas personalidades únicas transformam-nos em statement pieces

3. Geografia

Conhecer bem o terreno é vital no VFNO. O espaço escasseia e um homem pode perder-se com relativa facilidade. A ideia geral é ser agressivo e tomar a iniciativa. Como dizia  Sun Tzu no capítulo 10 de "A Arte da Guerra":  «No que diz respeito a passagens estreitas, ocupa-as em primeiro lugar, fortifica-as e aguarda o avanço do inimigo.» Tudo se resume a uma batalha por espaço, pelo que se virem espaço livre (uma superfície plana), avancem com confiança e estabeleçam a vossa posição. O álcool consumido no passo 2 elevará a vossa resiliência, permitindo-vos preciosos momentos de descanso.

«Conhece-te a ti próprio, conhece o teu inimigo. Um milhar de batalhas, um milhar de vitórias.» Sun Tzu

4. A flora

Preparem-se para um freak show. Qual floresta do Bornéu, nesta noite saem à rua as mais variadas criaturas ainda desconhecidas pelas ciências humanas. Aproveitem para enriquecer o vosso espólio fotográfico e sentir o exotismo proveniente das escolhas estilísticas dos Night Outers (expressão inventada agora mesmo). Também aqui, como na Natureza, as espécies estão divididas por regiões (lojas), predominando os fluorescentes e padrões animais na Bershka ou Stradivarius, os cabedais e chokers na Zara, o abstruso no Princípe Real (eixo Nuno Gama-Embaixada) e as espécies gregárias nos Armazéns do Chiado.

Multidão à espera de uma fotografia com Rita Pereira.

Conclusão

Se dominarem e estiverem preparados para estes quatro elementos irão certamente ter uma noite mais fácil e até, quiçá, divertida. No final, quando estiverem de rastos e ainda não souberem a diferença entre azul petróleo e azul marinho, puxem do vosso Joker e peçam para ir para casa. Se tiverem seguido fielmente os passos acima descritos a vossa companheira reconhecerá o vosso esforço e poderá mesmo agraciar-vos com um saída antecipada do evento. Porém, não é certo que isto ocorra, dado que um acontecimento inesperado (entrega de brindes ou maquilhagem gratuita) poderá renovar a vontade da vossa cara metade em ficar mais "uns minutinhos" (horas). 


«A paciência é amarga, mas o seu fruto é doce.»

Jean-Jacques Rousseau

Lojas de senhora, uma provação inevitável

Um dos grandes desafios que surge na vida de qualquer homem com namorada, mulher, ou até mesmo na companhia de uma amiga, é o inevitável momento em que se vê numa loja de senhora. Nunca um indivíduo se sente verdadeiramente isolado no universo como quando entra nestes estabelecimentos. Todo o conhecimento adquirido em casa, na escola, universidade, local de trabalho e vida em geral se revelam inúteis quando somos confrontados com esta realidade inóspita e desconhecida para o qual nada nem ninguém nos preparou. Deste modo, o primeiro instinto de um indivíduo nesta situação é o de nem sequer entrar nestes espaços e ficar somente à espera junto à porta de entrada. 

Já todos estivemos aqui.

Não obstante, todos chegamos a um ponto da nossa vida em que sabemos que para bem da nossa relação é necessário fazer cedências e mostrar boa vontade, num espírito de fair-play que esperamos ser recompensado mais tarde. Assim, com mente aberta abraçamos o desafio e entramos no estabelecimento em questão, esperando retirar algo positivo da experiência. Deparamo-nos então com o seguinte cenário:

1. Inexistência de superfícies planas para repousar

 A sério, estas lojas têm três andares com 5000 m2 cada e não têm um único sítio em que nos possamos sentar.

Na imensidão destes labirintos de prateleiras, manequins, expositores, roupas e acessórios, um homem não consegue encontrar um local que o abrigue para, calma e tranquilamente, começar a preparar as respostas às questões estilísticas com que a sua cara metade o vai confrontar.


2. O calor

Como todos já reparámos nos nossos familiares, colegas de faculdade ou escritório, é praticamente impossível (especialmente no Verão) partilhar a mesma sala com uma senhora em condições de temperatura que permitam um mínimo de refrigeração. Com efeito, o ar condicionado é uma realidade tecnológica alienígena para uma senhora, dado que invariavelmente lhe provoca espirros, constipações e muito, muito frio. Consequentemente, quando entramos numa loja direccionada ao público feminino de imediato nos sentimos na Amazónia, seja pelo calor e humidade que ali se fazem sentir ou pelas cores vivas e padrões exóticos que podemos observar.

Um grupo de homens preparado para entrar na Mango.

3. O cheiro

Um dos traços distintivos do homem português é a sua capacidade de deixar uma marca olfactiva pelos sítios onde passa (também eu abraço este preceito e procuro largar meio frasco de perfume em cima de mim antes de sair à rua todos os dias). Assim, e porque se faz anunciar e relembrar pela sua fragrância, o homem português assiste àquilo a que apenas se pode chamar uma total invasão da sua intimidade e personalidade quando entra numa loja de senhora.


Esqueçam o Davidoff, o Acqua di Gio ou Polo Ralph Lauren. Ao pé deste menino nenhum deles tem hipótese.

Ao constatar que o seu cheiro é completamente suplantado por esta estranha magia proveniente daquilo que parecem ser pauzinhos chineses, um homem assume uma posição mais defensiva, revelando um natural desconforto quanto ao meio que o rodeia. 

4. A música 

Eu gosto de música electrónica. Aliás, gosto bastante de música electrónica. Mas tal como não como um bitoque todos os dias e a todas as refeições, também não tenho especial prazer em ouvir a playlist "House Lounge Mix" ou "Best Ibiza Sunsets 2013" todas as vezes em que entro neste tipo de lojas. Se já 20 ou 30 minutos disto me fazem confusão às 11h30 da manhã de um Sábado, fico quase doente ao lembrar-me que estas lojas estão abertas cerca de 9/10 horas por dia! 

Nem a malta dos afters se aguentava 10 horas numa H & M.


5. As pessoas

Tantas. E todas tão parecidas! Por vezes nem consigo distinguir as clientes das empregadas de loja. Qual criança num hipermercado dou por mim várias vezes perdido e sem conseguir encontrar a minha namorada porque entre mim e ela está um oceano de clones que me faz sentir que estou à procura do Wally.

Isto não significa que não consigo distinguir a minha namorada das outras pessoas! Pronto, já me meti num buraco...


Conclusão

Todos fazemos sacríficios por aqueles de quem gostamos. Muitas vezes até aprendemos a gostar de algo que à partida nos era estranho ou inacessível. No meu caso, por exemplo, posso orgulhosamente dizer que já cheguei mesmo a comprar uma camisa (de homem) na Zara. Pouco a pouco vamos aprendendo a contornar e suportar os obstáculos que se colocam à nossa frente, aceitando como natural o facto de as senhoras não terem calor, serem surdas e não precisarem de se sentar e descansar como nós.  Com efeito, o maior elogio que posso fazer à determinação e resistência femininas é reconhecer que reviver este ambiente de uma forma regular (às vezes mesmo quotidiana) é algo que nem eu nem nenhum homem conseguiria certamente aguentar. Por isso mandem-nos para a guerra, para a construção civil ou para a pesca em alto mar, mas da próxima vez que nos levarem às compras arranjem por favor algum sítio em que nos possamos sentar.