Um dos grandes desafios que surge na vida de qualquer homem com namorada, mulher, ou até mesmo na companhia de uma amiga, é o inevitável momento em que se vê numa loja de senhora. Nunca um indivíduo se sente verdadeiramente isolado no universo como quando entra nestes estabelecimentos. Todo o conhecimento adquirido em casa, na escola, universidade, local de trabalho e vida em geral se revelam inúteis quando somos confrontados com esta realidade inóspita e desconhecida para o qual nada nem ninguém nos preparou. Deste modo, o primeiro instinto de um indivíduo nesta situação é o de nem sequer entrar nestes espaços e ficar somente à espera junto à porta de entrada.
Já todos estivemos aqui.
Não obstante, todos chegamos a um ponto da nossa vida em que sabemos que para bem da nossa relação é necessário fazer cedências e mostrar boa vontade, num espírito de fair-play que esperamos ser recompensado mais tarde. Assim, com mente aberta abraçamos o desafio e entramos no estabelecimento em questão, esperando retirar algo positivo da experiência. Deparamo-nos então com o seguinte cenário:
1. Inexistência de superfícies planas para repousar
A sério, estas lojas têm três andares com 5000 m2 cada e não têm um único sítio em que nos possamos sentar.
Na imensidão destes labirintos de prateleiras, manequins, expositores, roupas e acessórios, um homem não consegue encontrar um local que o abrigue para, calma e tranquilamente, começar a preparar as respostas às questões estilísticas com que a sua cara metade o vai confrontar.
2. O calor
Como todos já reparámos nos nossos familiares, colegas de faculdade ou escritório, é praticamente impossível (especialmente no Verão) partilhar a mesma sala com uma senhora em condições de temperatura que permitam um mínimo de refrigeração. Com efeito, o ar condicionado é uma realidade tecnológica alienígena para uma senhora, dado que invariavelmente lhe provoca espirros, constipações e muito, muito frio. Consequentemente, quando entramos numa loja direccionada ao público feminino de imediato nos sentimos na Amazónia, seja pelo calor e humidade que ali se fazem sentir ou pelas cores vivas e padrões exóticos que podemos observar.
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| Um grupo de homens preparado para entrar na Mango. |
3. O cheiro
Um dos traços distintivos do homem português é a sua capacidade de deixar uma marca olfactiva pelos sítios onde passa (também eu abraço este preceito e procuro largar meio frasco de perfume em cima de mim antes de sair à rua todos os dias). Assim, e porque se faz anunciar e relembrar pela sua fragrância, o homem português assiste àquilo a que apenas se pode chamar uma total invasão da sua intimidade e personalidade quando entra numa loja de senhora.
Esqueçam o Davidoff, o Acqua di Gio ou Polo Ralph Lauren. Ao pé deste menino nenhum deles tem hipótese.
Ao constatar que o seu cheiro é completamente suplantado por esta estranha magia proveniente daquilo que parecem ser pauzinhos chineses, um homem assume uma posição mais defensiva, revelando um natural desconforto quanto ao meio que o rodeia.
4. A música
Eu gosto de música electrónica. Aliás, gosto bastante de música electrónica. Mas tal como não como um bitoque todos os dias e a todas as refeições, também não tenho especial prazer em ouvir a playlist "House Lounge Mix" ou "Best Ibiza Sunsets 2013" todas as vezes em que entro neste tipo de lojas. Se já 20 ou 30 minutos disto me fazem confusão às 11h30 da manhã de um Sábado, fico quase doente ao lembrar-me que estas lojas estão abertas cerca de 9/10 horas por dia!
Nem a malta dos afters se aguentava 10 horas numa H & M.
5. As pessoas
Tantas. E todas tão parecidas! Por vezes nem consigo distinguir as clientes das empregadas de loja. Qual criança num hipermercado dou por mim várias vezes perdido e sem conseguir encontrar a minha namorada porque entre mim e ela está um oceano de clones que me faz sentir que estou à procura do Wally.
Isto não significa que não consigo distinguir a minha
namorada das outras pessoas! Pronto, já me meti num buraco...
Conclusão
Todos fazemos sacríficios por aqueles de quem gostamos. Muitas vezes até aprendemos a gostar de algo que à partida nos era estranho ou inacessível. No meu caso, por exemplo, posso orgulhosamente dizer que já cheguei mesmo a comprar uma camisa (de homem) na Zara. Pouco a pouco vamos aprendendo a contornar e suportar os obstáculos que se colocam à nossa frente, aceitando como natural o facto de as senhoras não terem calor, serem surdas e não precisarem de se sentar e descansar como nós. Com efeito, o maior elogio que posso fazer à determinação e resistência femininas é reconhecer que reviver este ambiente de uma forma regular (às vezes mesmo quotidiana) é algo que nem eu nem nenhum homem conseguiria certamente aguentar. Por isso mandem-nos para a guerra, para a construção civil ou para a pesca em alto mar, mas da próxima vez que nos levarem às compras arranjem por favor algum sítio em que nos possamos sentar.






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