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Zapata

É satisfatoriamente irónico notar que uma Casa que se apresenta com o nome de um revolucionário mexicano é, na verdade, um local com uma agradável disposição conservadora. Situado no n.º 47 da Rua do Poço dos Negros, o Zapata, não sendo de todo um espaço fracturante com o panorama das tascas lisboetas, é um sítio onde o essencial é bem feito.

A fachada do Zapata.

O Zapata apresenta-se como um destino de conveniência, conforto e qualidade. Aqui podemos chegar a qualquer hora do dia e somos sempre servidos. A escolha é vasta e a execução exímia. Recaiam as opções em pratos de nome polémico ("Frango no forno à maricas"), mais convencionais ("Bacalhau assado com batata a murro"), ou com um "quê" de inovação ("Gambas à braz"), sabemos que estamos sempre seguros. Não obstante, e como em qualquer espaço desta índole, ficaremos melhor se pedirmos os pratos do dia ou as especialidades da Casa.

Bacalhau assado com batata a murro.

Aliado ao ecletismo do restaurante, temos o desejado serviço familiar e uma disponibilidade quase ilimitada.  O espaço encontra-se sempre cheio nas horas normais de almoço, mas o facto de se poder entrar para almoçar às 16h00 (ou mais tarde), torna este restaurante um must para todos os que tenham isenção de horário de trabalho (ou isenção de trabalho). 

Emiliano Zapata ladeado de certificados de qualidade do sector da restauração.

Dificilmente terá Zapata alguma vez pensado que o seu legado chegaria a Portugal e perduraria na fachada e paredes de um excelente restaurante de comida típica. Igualmente improvável é também um almoço de semana numa tasca lisboeta me ter incentivado a ler e a estudar a história da Revolução Mexicana de 1910. Estas improbabilidades, bem como a enérgica e transparente conversa que tive sobre política, sociedade, cinema e uma ou outra banalidade, fizeram-me pensar em Mário Soares. Não só por as suas cerimónias fúnebres estarem a ser transmitidas na altura e por estar ligado a uma revolução como Zapata, mas principalmente por ter lutado para que as pessoas pudessem discutir ideais políticos e filosóficos da forma mais inócua e desejável possível: à mesa e com boa companhia.

Pho-Pu

Todos os anos, qual político em véspera de eleições, prometo que vou gastar menos tempo e dinheiro nesta epopeia que é a compra de presentes de Natal. Porém, o que acaba realmente por acontecer mimetiza na perfeição a situação financeira do nosso país.

Eram três da tarde e eu estava em pleno Chiado ainda sem ter almoçado. Como não me apetecia hambúrgueres gourmet nem nenhuma proposta do Chef Avillez, recorri a um dos bairros que melhor me tem tratado em termos gastronómicos: a Mouraria.

E como sempre não desiludiu.



















Há já algum tempo que queria ir ao Pho-Pu, um restaurante vietnamita na Rua do Benformoso. O restaurante estava completamente vazio e a gerente já estava a ver a novela da tarde, "Laços de Sangue", com a pujante Dânia Neto numa interpretação singular de uma peixeira (de profissão). Foi por isso com alguma cautela que entrei e perguntei se ainda podia ser servido. A gerente disse-me que sim e que me ia servir o pho da casa, uma sopa de massa de arroz com carne de vaca desfiada (e com uma ou outra tripa). Perante a frontalidade da senhora, sentei-me e aguardei pela refeição.

Pho Vietnamita.

O caldo era absolutamente delicioso. Picante como se pretende (e ainda mais com a adição de molho sriracha, um molho de pimenta proveniente da Tailândia), apresentou-se numa dose monumental que me venceu inapelavelmente. Com efeito, não consegui terminar o prato, mas dei o meu melhor para não desiludir a senhora que fitava atentamente o ecrã enquanto Dânia Neto se envolvia numa disputa amorosa no seu local de trabalho (a peixaria).

Mas era mesmo disto que estava a precisar. Uma sopa nutritiva e saborosa servida num espaço familiar, limpo e barato. Menos sorte tiveram duas turistas que foram enxotadas do restaurante porque já eram quatro da tarde (ou porque queríamos ver a novela em sossego). De igual modo, a romaria de amigos e vizinhos durante este período foi tal que a nossa fiel gerente foi obrigada a colocar-me uma conta de €7,5 na mesa e a fechar o estabelecimento. Ficou-me a vontade de regressar com mais calma e de saber se as altercações de Dânia Neto com a sua colega (outra peixeira) ficaram resolvidas. 

 

Depois entranha-se

Se quisermos pensar numa instituição sediada na cidade de Bruxelas que mereça aprovação unânime, não virão certamente muitos nomes à cabeça. Se tivesse de arriscar, diria que o restaurante Viva M'Boma ("Viva a Avó", num antigo dialecto de Bruxelas) merece estar entre esses nomes. Repescando a culinária das mães e avós belgas entre o final do séc. XIX e a II Guerra Mundial, o Viva M'Boma destaca-se pela confecção criativa de "entranhas" dos mais variados animais. Sim, não é  um espaço para estômagos fracos.

A sala principal do restaurante.

O aspecto visual do espaço é informal e descontraído, ao passo que a luminosidade, o serviço e, especialmente, a proposta gastronómica, sugerem um registo mais sofisticado e cuidado. Para além da ementa fixa existe um quadro com sugestões sazonais que, no nosso caso, foram muito bem acolhidas.

Começámos com uma salada de moelas, peito de pato fumado e foie gras que era um exemplo acabado de frescura. O foie gras apresentava uma textura cremosa (mas sem comprometer na consistência) que transitava particularmente bem para o pato. A confusão de aromas e sabores entre o doce e o fumado era envolvida pelas moelas em estado cru, dando uma conclusão coerente a uma pequena viagem de sabores.


Salada de moelas, peito de pato fumado e foie gras.

A acompanhar a salada de moelas veio também uma entrada de línguas de cordeiro. Tenríssimas, as línguas quase que se desfaziam na boca e invadiam o palato com um sabor intenso e apurado pelo molho feito à base de umas ervas que desconheço. Foi o prato ideal para fazer a passagem para as atracções principais da noite.

Línguas de cordeiro.

Relativamente ao prato principal as escolhas dividiram-se e foram eleitas três opções. No que me diz respeito, "arrisquei" uma sugestão da casa e escolhi um prato chamado choesels. As choesels são basicamente um guisado que contém molejas (pâncreas) de vitelo, rim e pés de carneiro, rabo, fígado e testículo (sim, testículo) de boi.

Les Choesels.

Escusado será dizer que é um prato pesadíssimo, mas com uma riqueza e diversidade que justificam plenamente a experiência. A variedade de texturas e sabores é tal que ao final de algum tempo percebe-se de olhos fechados o que se está a comer. É verdade que ao início pode parecer estranho estar a ingerir um testículo de um animal (especialmente para um homem), mas, vendo bem as coisas, é só mais uma parte do corpo. Porque é que há-de ser menos válida que umas costeletas? Quem come carne não tem muita moral para hierarquizar neste tipo de coisas.

Chegaram igualmente à mesa umas belíssimas molejas de vitelo braseadas e uns rougnons (rins) de vitelo que muito satisfizeram quem os pediu. Quanto a mim, pude experimentar uma garfada de cada prato e devo dizer que as molejas foram eleitas as vencedoras de um repasto altamente "competitivo" (ainda que com o meu tímido voto de vencido).


Molejas de vitela braseadas com cogumelos.

Rins de vitela com cogumelos.

Para a sobremesa veio a bola de gelado de limão da praxe encharcada em vodka e quase uma hora de conversa animada sem preocupações. O Viva M'Boma opera até tarde e mesmo depois da refeição os clientes sentem-se à vontade para por lá ficar a partilhar uns com os outros as experiências que acabaram de saborear. Num panorama gastronómico onde predomina um numerus clausus de pratos repetidos até à exaustão, uma terminologia artificial e uma panóplia de restaurantes "de conceito", é refrescante sair da norma e ir directamente até às entranhas da boa cozinha. 


O Fuso

Quando pensamos em teorias da conspiração famosas vem-nos à cabeça os Illuminati, a Área 51 ou a falseada ida do homem à Lua. A verdade é que, por muito mérito que estas conjecturas possam ter, todas, sem excepção, cedem perante a incontestabilidade que merece a mãe de todas as conspirações. Falo, é claro, do facto de só chover ao fim-de-semana.

Esta triste realidade levou a que, ao longo das últimas semanas, me dedicasse a pensar em programas que não fossem afectados pelo miserável estado do tempo que nos é reservado para os dias em que podemos estar na rua às 16h sem que isso mereça censura social. Só depois é que me lembrei que uma ida ao restaurante "O Fuso" é suficiente para combater os maus humores de S. Pedro.

Já estão a perceber porquê.

O Fuso é um restaurante na Arruda dos Vinhos conhecido pela qualidade e doses generosas do seu bacalhau assado. É um local obrigatório para todos os apreciadores do fiel amigo e para todos os que gostem de almoços tardios em estabelecimentos com capacidade para servir pequenos exércitos e um ambiente familiar e caloroso (nos dois sentidos).

Pela sua localização geográfica, dimensões e tipo de cozinha, o Fuso é ideal para famílias que não sabem o que fazer num fim-de-semana chuvoso. De facto, o passeio até à Arruda dos Vinhos, o inevitável tempo de espera e o labor e dedicação necessários para enfrentar uma travessa do Fuso são ingredientes suficientes para ocupar uma tarde de Domingo e tornar desnecessária a ingestão de comida nas 24 horas seguintes.

Bacalhau proveniente do famoso "Mar da Arruda".

A qualidade do bacalhau convida pecaminosamente a excessos. Seja pelo facto de quase se derreter na boca, seja pelas doses necessárias (leia-se, exageradas) de azeite e alho, a verdade é que este é um dos poucos sítios que me votam ao mais profundo silêncio durante a hora da refeição. Estar sentado em família numa sala cheia de pessoas da mais variada proveniência enquanto se ouve a chuva lá fora e se prova este manjar é provavelmente a melhor definição que consigo arranjar para o chamado "sentimento de comunidade". Aqui todos temos o mesmo objectivo, todos nos esquecemos das nossas diferenças e todos nos unimos em torno da mesma missão. Pronto, alguns comem carne, mas todas as comunidades têm os seus párias.

Uma "dose" de bacalhau assado.

Para os mais corajosos (ou inconscientes) está ainda reservada uma sobremesa cujo impacto na minha vida ombreia com o meu primeiro beijo ou a conclusão da minha licenciatura. Não sou por norma adepto de sobremesas, mas a simplicidade e o prazer de um prato com doses iguais de massa folhada e açúcar leva-me a renegar os meus princípios nesta matéria e a agradecer profundamente às pessoas que contribuíram para esta descoberta. Vocês sabem quem são.

O "Folhado".

No final, ficam umas horas para passar estendido no sofá a relembrar com emoção a experiência e fingir que no dia seguinte não se tem de ir trabalhar. Mais importante do que isso, ficam também memórias das pessoas que connosco partilharam esses momentos e de um espaço que recebe com alegria todos os que lá comparecem com menor ou maior frequência. Vamos ao O Fuso não só para comer, mas também para nos recordarmos que é possível ter mais do que um sítio ao qual chamar "Casa".

O Cantinho do Bem-Estar

Comer no Bairro Alto não tem de ser uma experiência má nem cara (embora a esmagadora maioria das vezes o seja). É certo que as armadilhas para turistas abundam e  que os bastiões do bem comer e do bem servir são cada vez menos nesta zona da cidade, mas o Cantinho do Bem-Estar conserva-se no seu posto, zelando atenciosamente para que os apreciadores de boa comida portuguesa não saiam defraudados.

O nome é bem escolhido.

Os espaços de excelência fazem-se de ideias simples, pretensões realistas e comida singular. No Cantinho do Bem-Estar existem meia dúzia de mesas, outros tantos pratos a preços altamente acessíveis e um serviço familiar. A estrela da companhia são os filetes de peixe galo, cuja frescura e a consistência quase aveludada são motivo suficiente para fazer deste estabelecimento um local de frequente peregrinação.

As doses são, como é bom de ver, "apropriadas".

Não obstante a afabilidade e disponibilidade com que os proprietários deste espaço recebem os clientes, convém referir que um telefonema prévio é sempre desejável, uma vez que a casa tem períodos de descanso e de férias no mínimo "flexíveis". Fora isso, não existem muitos mais sítios nesta zona de Lisboa que reúnam as características e qualidades do Cantinho do Bem-Estar. Terminar uma refeição com a barriga e a carteira cheia (a conta ronda geralmente os €10) vai sendo cada vez mais raro, mas só se torna mesmo impossível quando nos dispomos a trocar a qualidade e genuinidade pelo popular e efémero.

Carvoaria Jacto

Embora não faltem em Lisboa steakhouses, é preciso dizer isto: a Carvoaria Jacto é "o" sítio para comer carne. Ao invés de jantarmos num restaurante de luz baixa e paredes em tons negros e madeira, somos acolhidos por um espaço decorado com camisolas autografadas por jogadores de futebol mais ou menos conhecidos e muito, muito vinho.

Bom e inteligente povo este que soube escolher a Carvoaria Jacto.

A ementa é quase toda dedicada à carne, existindo também a possibilidade de escolher uns pratos de salmão ou de bacalhau. Porém, é para os apreciadores de carne que o universo de escolhas se expande. Com efeito, há que reflectir e eleger o animal, a sua proveniência (apostem na carne mirandesa), o corte e a quantidade desejada. Como pratos emblemáticos da casa destacam-se a posta mirandesa (€14,95 para 1PAX ou €28 para 2PAX) e a espetada mirandesa (€14,50). Pratos como a Espetada à Carvoaria (novilho e gambas), a picanha e o clássico quarteto de bifes (vazia, acém, lombo e alcatra) têm também muita saída. Para os estreantes, uma ida a Trás-os-Montes é sempre aconselhável.

A Posta Mirandesa.

Ao mesmo nível da carne está a lista de vinhos, documento de variedade assinalável que proporciona grande flexibilidade económica. Ali temos vinhos para todos os apreciadores e preços para todas as carteiras.


No que respeita ao serviço, diga-se apenas que a sua eficiência e rapidez é tal que muito provavelmente o leitor já estaria a comer antes de terminar este parágrafo. É também de assinalar que a simpatia e boa disposição dos empregados não são sacrificadas em detrimento de um maior "despacho". Esta fórmula rara no panorama da restauração lisboeta permite que uma casa frequentemente cheia e com filas à porta funcione sem sobressaltos ou demoras imperdoáveis. 

Localizada numa zona emergente de animação nocturna, a Carvoaria Jacto serve de forma competente todos os carnívoros, sejam eles caçadores solitários, alcateias ou matilhas. Porque a sua popularidade é bastante elevada, o restaurante não aceita reservas à Sexta-Feira nem ao Sábado. No entanto, as prováveis filas que vão encontrar à porta podem ser evitadas com alguma preparação ou suportadas com paciente espera. Ambas ficam plenamente justificadas quando finalmente nos sentamos à mesa e satisfazemos a vontade dos nossos amigos da imagem abaixo.


Esplanaurantes

Para os que inexplicavelmente aguardavam por novo artigo no blog declaro desde já que este texto pretende ser mais um conselho do que uma crítica. Isto porque os dois espaços de que vou falar são assumidamente (ou deviam ser) locais para beber um copo e não para tomar refeições.

E ver vistas.
  
Por esta altura do campeonato (qual campeonato?), uma significativa parte dos que  me lêem já deve ter experimentado, ou pelo menos ouvido falar, do restaurante/bar/esplanada/lounge TOPO, no Chiado. Todos ouvimos e lemos as maravilhas que sobre ele se tem dito na comunicação social especializada («A nova esplanada mais cool  de Lisboa», para o site New in Town; «O novo terraço da moda em Lisboa», segundo o blog Casal Mistério; ou «O novo terraço-esplanada da moda mais cool de Lisboa» para quem queira simplesmente fazer plágio).

No TOPO Chiado podemos usufruir de uma bonita vista para o "centro histórico" de Lisboa, de um espaço amplo e bem decorado e de uma vasta carta de bebidas com escolhas para todos os gostos. O que não podemos (ou devemos) fazer é tentar jantar lá. Aí já estamos a misturar as coisas. 

Por onde começar? Porque não pelo velho conceito de adicionar €5 a todos os preços da comida porque simplesmente se tem o privilégio de comer a olhar para um monumento histórico (neste caso o Castelo de S. Jorge que, a propósito, é de entrada gratuita para os munícipes)? Aumentar os preços de cada prato na lista em virtude da localização do espaço só se justifica, na minha opinião, se existir uma harmonia e coerência entre a qualidade da vista e a qualidade do prato.

Atentem neste bife tártaro, por exemplo.

Provavelmente estarão a pensar: «Que bom aspecto! Quero experimentar!». Não, não querem. Apesar de bem apresentado, estava insuficientemente temperado, a carne não tinha sabor e a dose era reduzidíssima. «Ah, mas para petiscar até passava!», dirão. Pois, o problema é que este "petisco" faz-se passar por prato e custa o mesmo (cerca de €20) que um bife tártaro no Pabe (um dos melhores bifes tártaros de Lisboa). Quando a comida é realmente boa não me importo de pagar mais pela vista e localização do espaço, já que a conjugação entre a experiência gustativa e visual também tem o seu valor.

Tipo aqui.

O resultado desta e de outras peripécias é no final recebermos uma conta adequada a um restaurante de fine dining, mas sem termos tido direito à parte do fine. O espaço está claramente direccionado para os turistas que (felizmente) assolam  a nossa cidade e para uma bebida a seguir ao trabalho ou ao jantar, pelo que não é dada especial atenção ao serviço de restaurante (demorado) nem ao sabor dos pratos (variaram entre o razoável e o insípido).

Não obstante, este não é um fenómeno isolado. Existem outros espaços que aproveitam o facto de terem uma boa localização e excelentes vistas para nos proporem um serviço de restaurante muito perto do deplorável.

Uma vez mais: nota máxima para as vistas.

O Noobai, um espaço adjacente ao multicultural Miradouro de Santa Catarina (a.k.a. Miradouro do Adamastor), já existe há uns bons anos e tem provavelmente uma das melhores localizações para a prática do banho de sol urbano. As bebidas têm preços aceitáveis, os empregados são diligentes q.b. e o registo é descontraído. 

O problema, mais uma vez, é quando tentam ser o que não são (e não conseguem ser) e começam a cozinhar. Voltamos ao problema do pricing vs qualidade dos pratos, da insuficiência de empregados que torna o serviço demorado e da manifesta falta de preparação do staff existente para lidar com uma casa cheia. Em suma: comida cara, seca e fria, servida por um rapaz assoberbado de pedidos e mal orientado por um gerente alheio à realidade e que não vê qualquer problema na gestão do espaço.

Às vezes acho que as pessoas tentam fazer demais. Noto isso na proliferação de Avillezes, de Oliviers e Kikos, mas também na expansão de esplanadas para restaurantes, restaurantes para bares e bares para discotecas. Em alguns casos é justificado e bem pensado, mas na maior parte das vezes perde-se o que de bom se tem para se ser apenas mais um no respectivo mercado.
 

 Não sei porquê é que está aqui uma imagem dos MUSE (porque se venderam em 2009).

O conselho é este: saibam ao que vão. Investiguem e percebam a filosofia do espaço. Se virem um espaço que ao mesmo tempo organiza sunsets, recruta os empregados no Boom ou na Bad Bones e vende ceviches, carne DOP e cocktails preparados por "mixologistas", é razão para desconfiar. Não se pode ter tudo simultaneamente, sob pena de não se ter nada verdadeiramente. Se quiserem ajuda, a ordem é esta: 1) sunset e cocktail, 2) bife ou ceviche e, se a noite correr bem, 3) Boom.

Belcanto

Antes de ir de férias, e também porque não escrevo há algum tempo, deixo-vos com o relato de uma experiência superlativa. Na semana passada, tive a feliz oportunidade de ir ao Restaurante Belcanto, de José Avillez. Advirto desde já que me vou arriscar no estilo e parecer talvez demasiado pretensioso ou exagerado para alguns. Mas juro-vos, a única forma de descrever fielmente esta experiência é recorrer a vocábulos ou figuras de estilo que não tenho por hábito utilizar. Afinal, todas as palavras têm o seu espaço.

Começo por dizer que acho feliz e apropriada a abordagem que o Chef Avillez tem à cozinha. Reconhecendo a qualidade da gastronomia portuguesa a tentativa é de recriar os pratos, desconstruindo-os e fazendo-os acompanhar de sabores e texturas menos usuais (as por ele chamadas "Combinações Improváveis"). Este pairing é por norma bem conseguido e está presente em todos os seus espaços que tinha visitado à data.


O Belcanto é uma história diferente. Em primeiro lugar, por ser o restaurante onde o Chef passa a maior parte do seu tempo a criar, descobrir e aperfeiçoar receitas. Uma espécie de laboratório em que o cientista desenvolve as suas experiências e apura os resultados. No Belcanto há espaço para mais arrojo, risco e aventura, sendo o objectivo criar algo verdadeiramente singular e memorável. Antes de começar a descrição pormenorizada da refeição adianto já que este objectivo foi plenamente alcançado.

A refeição começou com uma reinterpretação de ingredientes simples mas bastante presentes na cozinha portuguesa:

A "Cenoura" e o "Alho".

Ao contrário do que a imagem pode sugerir, não estamos perante uma mera rodela de cenoura e de um simples dente de alho. Com efeito, quer um quer o outro, se desfizeram imediatamente mal os levámos à boca, revelando um sabor mais complexo do que à primeira vista fariam adivinhar. A "Cenoura" complementava o seu conhecido sabor com notas cítricas que iam progressivamente aumentando até ao final, enquanto que o "Alho" era na verdade um pequeno pedaço de manteiga que, uma vez saboreado, revelava o mesmo registo cítrico balanceado com um ténue mas constante sabor a alho. No meio, uma raspa de limão, elemento comum e factor de equilíbrio em todo o prato.

"Pedra da Calçada".

A acompanhar esta proposta tão tradicional estava também uma "Pedra da Calçada" com um tremoço "explosivo". A dinâmica era a mesma: uma consistência aparentemente sólida que "explodia" no primeiro contacto com os lábios e nos entregava um sabor pujante ao nosso "marisco" preferido com um final de boca também ele alimonado.


"Pedras cremosas" com ovas de truta.

De seguida, foi servido um prato só aconselhável no início de uma refeição, não só devido ao seu intensíssimo sabor, mas também por ser altamente confundível (e ainda mais para os espíritos ébrios) com um conjunto de pedras. As pedras (só as que têm as ovas por cima) eram na verdade uma experiência de solidificação do odiado/amado (riscar o que não interessa) óleo de fígado de bacalhau. Um prato que recolhe pela sua natureza reacções díspares, mas que nem por isso deixa de ser uma afirmação da maestria de Avillez.

"Flores" com temakis de tártaro e barriga de atum do Algarve.

O prato seguinte foi uma incursão pela cozinha japonesa materializada no afamado temaki. Uma vez mais notamos um elemento de ligação ao nosso país através da proveniência do peixe, sendo o seu enquadramento num jardim florido uma forma eficaz de dar história a uma proposta simples e "crua" (e crua também).

"Frango Assado".

Eu sei que não parece, mas garanto-vos que o sabor vos faz lembrar a "Valenciana" ou qualquer outra reputada casa de frangos. Temperado com leche de tigre (componente essencial dos ceviches), este frango assado conferiu à refeição um momento de informalidade e genuíno sabor que não devem nunca ser esquecidos pelos grandes Chefs. Encerrava-se assim a sequência de amuse-bouche e passámos para as entradas propriamente ditas.

"Carabineiro grelhado" com cinzas de alecrim.

 Um dos momentos altos de toda a experiência. Destaco o ponto de grelha que foi atingido na perfeição e deu ao carabineiro uma elasticidade inicial muito agradável que encontrava pouca resistência e permitia que o sabor rapidamente se espalhasse pela boca. Por falar em sabor, o que dizer da cabeça? A concentração de carne e fluidos, uma vez mais impecavelmente preservados, deram a um prato já de si singular um final em crescendo e de difícil esquecimento.


"Rebentação", bivalves, gamba da costa, "água do mar" e "areia" de algas.

Falar deste prato faz-me desejar estar na praia (já falta pouco). Poucas vezes vi à minha frente uma representação tão fiel de um cenário e do estado de espírito que lhe está associado como neste caso. Visualmente foi o prato que mais me marcou e que certamente não sairá da minha memória. Impressionante a forma como os bivalves e as gambas estão envolvidos de um lado pela espuma e do outro pelas algas, permitindo que, com uma simples colherada (ou mergulho) se saboreie instantaneamente pelo menos meia dúzia de sabores. O equilíbrio entre todos os ingredientes foi também alcançado, sendo possível destrinçar de forma faseada o sabor de cada um e perceber como interagem entre si. 

Merecem também destaque outros pratos que, embora só provados de forma superficial, são ainda assim  testemunho da harmonia conseguida entre a estética visual e o sabor.

"A horta da galinha dos ovos de ouro", ovo, pão crocante e cogumelos.

"Mergulho no mar", robalo com algas e bivalves.

"Leitão revisitado", batata frita (no saco, também ele comestível), laranja e salada.

Eis-nos chegados ao prato principal que foi a prova de que, mesmo com a quantidade e qualidade que já tinha provado, procurava ainda sabores mais fortes e intensos.

"Rabo de boi com grão", foie gras, tendões de vitela, creme de cebola com queijo da serra.

Pois é. Só pela descrição se percebe a quantidade de ingredientes e produtos que poderiam, por si só,  ser o protagonista de um prato só deles. Atingir assim um equilíbrio que permita que todas estas "espécies" convivam de uma forma que potencie o prato no seu todo não é fácil. Nada fácil. Este desígnio é cumprido uma vez mais pela disposição dos elementos. Não é pois fútil elogiar mais uma vez a apresentação: a carne envolve o foie gras e encima o creme, permitindo que num único gesto se capture o potencial de sabor que o prato emana. Sabor muito forte que atravessa diferentes momentos e parece não se esgostar. Uma pequena história que é contada e que transmite para a nossa boca a vida que já é apreendida pelos olhos. 

Com a refeição a entrar na recta final, fomos surpreendidos com um simpático convite do Chef para ir conhecer a cozinha, a equipa e a sua própria pessoa. Este pequeno gesto de proximidade com o cliente permite não só uma honesta partilha da experiência, como também, e especialmente para o Chef, recolher nos olhos e expressões das pessoas a merecida gratificação por um trabalho bem feito.


Voltados à mesa escolhemos as nossas sobremesas, tendo sido agraciados com os pratos que se seguem.

"Pudim Abade de priscos" com torresmos e sorvete de framboesa e wasabi.

"Citrinos e doce de ovos".

"Tangerina".

As sobremesas eram todas elas sublimes, podendo mesmo ser feito um artigo à parte só para falar delas. Predominou a influência da doçaria portuguesa, aliada a uma cuidada e pertinente desconstrução. Com os cafés foram ainda servidos uns "doces", com o claro intuito de testar a gula dos presentes, dado que por esta altura já todos se encontravam fisicamente satisfeitos e emocionalmente realizados.


Como se adivinha por esta longa descrição daquela que foi provavelmente uma das melhores refeições (se não a melhor) que alguma vez pude experienciar, considero um Belcanto um dos melhores restaurantes a que já fui na minha ainda curta existência.  No entanto, é também importante manter a cabeça fria e apontar falhas onde elas existem. Neste caso, notei que duas coisas não estiveram ao nível desta experiência inesquecível. 

Em primeiro lugar, a decoração do espaço peca por ser demasiado simplista. Percebo a opção por uma estética minimalista para deixar brilhar a cozinha do Chef Avillez, mas penso que se caiu no exagero e que o espaço acabou por ficar desprovido de personalidade. Bem sei que uma tela em branco tem o seu apelo e que cabe aos profissionais que ali trabalham preenchê-la, mas um restaurante com esta reputação tem também uma imagem exterior e autónoma a preservar.

Em segundo lugar, notei que a carta de vinhos tinha algumas lacunas. Com efeito, o vinho pedido em primeiro lugar (um vinho tipicamente presente e obrigatório neste tipo de restaurantes) não se encontrava disponível. Compreendendo que situações destas podem acontecer, mais surpreendido fiquei pelo stock limitado de garrafas do segundo vinho pedido. Num jantar demorado e com várias fases para 6 pessoas, não dispor de, pelo menos, quatro garrafas de um determinado vinho significa que, com alguma probabilidade, os clientes acabarão a refeição com um terceiro vinho diferente. 

Estes pormenores são de importância relativa quando colocados no contexto da experiência como um todo, mas é ainda assim vital manter padrões de exigência condizentes com o local em que se está e com a qualidade que se lhe reconhece. Resta assim aconselhar este restaurante a todos os que tenham possibilidade de o experimentar, destacando o seu carácter inventivo e reconciliador do que de mais genuíno temos com as melhores práticas da cozinha contemporânea internacional. 

Mas mais importante do que isto tudo é agradecer ao meu Pai a oportunidade que me deu para experimentar algo de que não me esquecerei. Nada é tão bom como quando é partilhado com as pessoas de quem mais gostamos.

Obrigado.

Belcanto
Largo de São Carlos, 10, Chiado
213 420 607

A Cevicheria

Apesar de já se encontrar aberto há algum tempo e gozar de um estatuto consolidado como um dos melhores restaurantes de Lisboa, "A Cevicheria" era, até à semana passada, um espaço que nunca tinha visitado. Fruto das inúmeras referências em guias da especialidade, amigos, familiares, programas de televisão e rádio, construí deste restaurante uma imagem de qualidade absoluta, máximo detalhe e serviço inatacável. Infelizmente, não foi essa a minha experiência. 

Nada a apontar à decoração, contudo.

Em primeiro lugar, quem pretenda ir à Cevicheria (eliminemos o desnecessário "A", ok?) tem de colocar o nome numa lista e aguardar pela sua vez à porta. O espaço é pequeno e muito requisitado, pelo que se entende perfeitamente a opção por um serviço sem reservas. O que não se percebe tão bem é a total ausência de um mecanismo de contacto remoto entre os clientes e o restaurante caso aqueles pretendam utilizar o seu tempo de espera para outra coisa que não beber um cocktail à frente do estabelecimento. Com efeito, e porque as mesas no exterior estavam carregadas de estrangeiros a beber pisco sours (bebida que desde já recomendo) optei por ir beber um copo numa esplanada próxima (até porque tinha 5 mesas à minha frente), tendo para o efeito perguntado aos empregados se era possível ligar para o restaurante para saber do andamento da fila de espera em que já se encontrava o meu nome. Foi-me dito num tom desagradável e de algum desdém que tal não era possível. Como não tenho por hábito ficar dependente do mau humor das pessoas optei à mesma por esperar noutro sítio. Passados 25-30 minutos voltei ao restaurante para inquirir acerca da minha precária situação. A empregada anunciou de forma quase triunfante que teve de passar um casal à nossa frente porque não comparecemos de imediato à "chamada". Bem sei que um restaurante do tamanho e com o pricing da Cevicheria não se pode dar ao luxo de reservar mesas, mas adoptar uma estratégia reminisciente das marisqueiras algarvias também não me parece ser solução. No Mercado Timeout temos os aparelhómetros que vibram quando chega a nossa vez e, na falta disso, também existe aquela tecnologia revolucionária chamada telefone.

Por fim, lá consegui entrar e sentei-me na fila de mesas junto ao espelho que domina a parede do lado esquerdo. Já se referiu que o espaço não abunda e o mesmo ficou comprovado quando constatei que conseguia ouvir na íntegra a conversa das mesas ao lado sem grande esforço. Para tal também contribuiu decisivamente um casal de portugueses manifestamente embriagados em pisco sours (aproveito para voltar a recomendar esta bebida) que mais não fazia do que berrar um para o outro as personalidades e famosos que conheciam. 

No que diz respeito à comida, começámos com o Gaspacho de Vieiras que se apresentou de forma sólida, mas sem surpreender, dado que as vieiras, apesar de terem uma consistência assinalável, encontravam-se desprovidas de grande sabor. A estrela do prato foi sem dúvida as ovas de salmão, mas mais pelas qualidades que lhes são inerentes do que por arte ou engenho do Chef.

Gaspacho de Vieiras, Tapioca, Lima e Ovas de Salmão.


Pedia-se uma apresentação melhor. Estas tigelas não acompanham o nome nem os preços da casa.

De seguida, fomos para o Ceviche de Salmão e aí ficámos desiludidos. O prato, apesar de sul-americano, não revela nada de interessante ao nível da sua acidez, tempero ou frescura. A ausência total de picante (nem que fosse um bocadinho) amarrou-o ainda mais à sua normalidade, algo verdadeiramente inaceitável para um restaurante que se denomina como "A Cevicheria". No Sábado anterior tinha ido a um restaurante de ceviche em Londres e nem queria acreditar que os ingleses tinham conseguido confeccionar uma versão muito mais rica deste prato que um português (desculpem o racismo gastronómico).

Ceviche de Salmão, Tapioca, Puré de Feijão, Edamame, Amendoins e Leite de Tigre com Coco.


Por fim, experimentei o Quinoto do Mar (Quinoa com Camarão, Berbigão, Mexilhão, Peixe Branco, Algas, Espuma de Ostras e Kombu) e estava tão bom que me esqueci de lhe tirar uma fotografia. A sério. Este foi o único prato que justificou a ida ao restaurante, dado que o equilíbrio entre sabores, texturas e consistências foi praticamente perfeito. A acompanhar a refeição esteve o infame pisco sour, aqui já duas vezes recomendado e agora explicado. É basicamente um cocktail feito à base de aguardente de uva (o pisco), sumo de limão (o sour), xarope e claras de ovo. A bebida é tão boa que o casal ruidoso acima mencionado gastou 70€ a consumi-la, o que justifica também a sua falta de "compostura" bem antes das 9 da noite.

Como nota final, cumpre ainda dizer que o serviço, apesar de eficiente e rápido, não primou propriamente pela simpatia, denotando-se antes sim uma preocupação excessiva com o velho "aviar serviço" das também já referidas marisqueiras algarvias. Notem que nada me move contra estas últimas, dado que vou sempre visitá-las, ano após ano. Porém, tem de existir uma diferença clara no posicionamento de um restaurante que se assume e pretende de topo na capital e um restaurante simplesmente destinado à confecção e venda de marisco no sul de Portugal. A impressão com que fiquei da Cevicheria é muito parecida à que tenho sobre "O Talho", outro restaurante do Chef Kiko. A ambição é grande, o marketing é muito bem feito, a estética está lá, mas falha o essencial: o sabor e o serviço.