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Novo ano na Babilónia

Tenho tido dificuldades em escolher algo sobre que escrever neste início de ano. Por esta altura, a maioria das coisas que vemos e lemos na Internet e comunicação social está relacionada com tops e listas que classificam as melhores coisas do ano transacto ou com as chamadas "resoluções de ano novo". Confesso que a "foleirada" destas últimas sempre me irritou um pouco, tal como as flash mobs, o galo da Joana Vasconcelos ou aqueles pedregulhos junto ao Cais das Colunas empilhados uns em cima dos outros.

Fascinante.

A quantidade de artigos, posts e tweets com desejos e resoluções para 2017 a que tenho sido sujeito feriu quase de morte a minha criatividade e levou-me a indagar sobre esta aparente necessidade que temos de celebrar e mudar a nossa vida assim que o relógio passa das 23h59 do dia 31 de Dezembro para as 00h00 do dia 1 de Janeiro. 

Ao que parece, este estado de coisas já se arrasta há algum tempo. Quando escrevo algum tempo refiro-me a mais de 3.000 anos de História. Pelo que andei a ler, consta que as festas de passagem de ano começaram com o "Akitu" ("Cevada" ou "Ceifa da Cevada"), um festival de Primavera das civilizações da Mesopotâmia (actual Iraque) que marcava o início das colheitas e, consequentemente, do ano. Para esta tradição foi especialmente influente o Akitu da Babilónia, uma cerimónia de 12 dias, que se destinava não só a celebrar o início da Primavera e das colheitas, mas também a "relembrar" o rei das suas promessas e deveres para com a comunidade e a sua obediência ao deus Marduk.

Curiosamente, ainda nos dias de hoje em Portugal se celebra uma versão antitética do Akitu em que se destroem os frutos do trabalho e se deixam promessas por cumprir. Chama-se "Legislatura".
©opanorama.pt

Não vou entrar em detalhe quanto às formas arranjadas pelos Babilónios para inculcarem no seu suserano o necessário "sentido de Estado" (digamos que envolvia o despojamento das armas, coroa e ceptro do rei e culminava com o mesmo a ser esbofeteado em público pelo sumo-sacerdote), mas não deixa de ser curioso que uma tradição iniciada para celebrar a agricultura, controlar e legitimar o poder político e glorificar os deuses, seja hoje pretexto para nos comprometermos a perder peso, deixar de fumar ou simplesmente a passar menos tempo na net (no que me diz respeito, apresento desde já as minhas desculpas).

Reveillon nas Portas de Ishtar 1837 A.C./1836 A.C. - reserve já!
@ancient-origins.net

Poderia começar um tirada moralista sobre como as nossas prioridades e valores se encontram frouxos ou pervertidos nos dias que correm, mas prefiro sublinhar a curiosidade que assinalei acima. Com efeito, as preocupações dos Babilónios, Sumérios ou Assírios emulam perfeitamente (pelo menos numa perspectiva ocidental) alguns dos desafios e problemas que atravessamos nos dias de hoje: a questão ecológica e de sustentabilidade, a legitimação e credibilidade dos nossos sistemas políticos e a necessidade de reafirmação e defesa dos nossos valores e princípios face a ameaças externas ao nosso modo de vida.

É frequente pensar que há séculos atrás as pessoas eram sujas, pouco civilizadas e ignorantes. Talvez o fossem, mas pelo menos podemos reconhecer um significado nos seus ritos e tradições, expresso numa preocupação genuína e colectiva com questões das quais depende a nossa existência no planeta Terra e a convivência em sociedade. E sim, já sei no que estão a pensar: «toda esta macacada da Babilónia é só uma desculpa elaborada para ele não ter resoluções de ano novo e não se inscrever no ginásio». Esperemos que resulte.

China #1 - Introdução e desmistificação de alguns mitos

Duas semanas de viagem na China são fonte (quase) inesgotável de material para pensar e escrever. Tenho andado às voltas na minha cabeça acerca da melhor forma de relatar uma viagem que me mostrou que do outro lado do mundo se vive numa dimensão paralela, embora com vários pontos de contacto com o Ocidente. 

Neste sentido, concluí que faz mais sentido dividir a minha abordagem em função de cada cidade que visitei (Pequim, Xangai, Hong Kong e Macau), sendo que cada uma delas me forneceu inspiração para mais do que um artigo. Ainda assim, este artigo é meramente introdutório e alusivo a algumas questões e pré-concepções que acho importante afastar quando se fala da China (pelo menos da que pude ver).

Calma, ainda não vou falar disto. É só para tornar o artigo viral.

A sabedoria popular portuguesa professa que os chineses são um povo com hábitos de higiene duvidosos, apetências alimentares ainda piores e uma dificuldade geral em acatar regras de mínimas de convivência social. Munido desta informação que não se encontra nos livros (em parte talvez porque seja falsa), aterrei em Pequim às 15h30 de uma Terça-Feira, preparado para enfrentar os obstáculos colocados por um país fechado, pouco civilizado e alegadamente hostil.

Trânsito

Uma viagem de táxi do aeroporto até ao hotel permitiu-me observar que a utilização do cinto de segurança, o uso do telemóvel e outros cuidados de segurança habituais no Ocidente são encarados na China como meras recomendações que são, as mais das vezes, desconsideradas. No entanto, enquanto nos deslocávamos numa autoestrada em condições impecáveis que ligava o aeroporto ao centro da cidade e rodeados de centenas de veículos que não usavam sinais de luzes, apitavam incessantemente e não tinham qualquer pejo em mudar subitamente de faixa, não pude deixar de reparar na ordem existente dentro daquela aparente desordem. 

Regra básica para um peão: os carros têm sempre prioridade.

Para um português habituado a ouvir que o sem-número de regras com que convive é necessário para evitar a barbárie e a anarquia, pareceu-me bastante demonstrativo da nossa candura e inocência que uma cidade com o dobro da nossa população sobreviva bastante bem com condutores que cá seriam considerados autênticos arruaceiros. No total devo ter visto dois ou três acidentes, tudo em avenidas com cerca 40km de comprimento e sem o abrandamento do tráfego característico da prática do mironismo, arte que felizmente ainda não se difundiu por estas bandas. 

Higiene urbana

Outro dos aspectos que me surpreendeu foi a limpeza das ruas, com quilómetros e quilómetros de passeios imaculados. Desde as avenida principais onde se concentram os serviços de comércio, restauração e hotelaria até ao hutong (bairro típico) mais obscuro, existe uma preocupação (provavelmente "incentivada" pelas autoridades) com a limpeza da via pública. Uma vez mais me lembrei da nossa querida cidade de Lisboa, com uma vastidão tal que impede os bravos serviços camarários de recolherem de forma eficiente o lixo e tive vontade de rir ao constatar que a capital da China (e o resto das cidades que visitei, para esse efeito) são muito mais asseadas que a nossa civilizada e europeia Lisboa.

Wangfujing Street.

Também a existência de casas-de-banho públicas em tudo o que é sítio foi uma novidade. No metro, em lojas, nos monumentos, a multiplicação de lavabos seria um milagre certamente bem-vindo em paragens como o Bairro Alto ou o Cais do Sodré.

Não obstante estas primeiras constatações, é importante referir que os mitos vêm de algum lado. Com efeito, o povo chinês tem alguns hábitos (aparentemente milenares) com os quais os ocidentais inevitavelmente se confrontam. Um deles é o de escarrar cuspir muito. Para o passeio, estrada ou para o caixote do lixo, os cidadãos (e cidadãs) chineses praticam frequentemente este acto de limpeza interior, obrigatoriamente precedido de advertência sonora. A início estranho e desagradável, o ruído mistura-se rapidamente com a cacofonia da cidade e em pouco tempo ganha a mesma relevância de uma buzinadela.

Por fim, e porque é sem dúvida uma característica única de Pequim, os níveis de poluição registados nesta cidade são muito elevados. Dependendo da altura do dia, podem mesmo implicar que a pessoa tenha de ficar dentro de casa e aguardar que o "tempo" melhore. Este foi sem dúvida o elemento mais desagradável de toda a viagem e um sério contratempo a quem vive nesta cidade.

Estão a ver esta majestosa "neblina" que cobre a Cidade Proibida? Pois...

Hábitos alimentares

O povo chinês é saudável e trabalhador. Arroz, massa e legumes compõem grande parte de uma dieta que se reparte por várias refeições diárias. Assim, é normal encontrarmos tasquinhas e restaurantes com clientes a qualquer hora do dia e da noite.

Quem nunca teve vontade de trincar um cavalo-marinho antes de se ir deitar?

Apesar das histórias e notícias que ouvimos, não é muito frequente encontrar nas grandes cidades pessoas a comer cães, gatos, escorpiões, abelhas ou qualquer coisa que não seja massa ou legumes. Como disse, os chineses gostam mesmo é de massas e legumes, seja sob a forma de noodles, servidos em hotpots, ou apresentados em dumplings. Não prometo que lá para o meio não estejam restos mortais do melhor amigo do homem, mas pelo menos não é tão perceptível quanto poderia à primeira vista parecer.

Isto supostamente é porco. E se não for? Paciência, já passou mais de uma semana.

Segurança

Nunca me senti tão seguro numa cidade como nas cidades da China. Vemos polícia em todas as ruas, nos transportes, superfícies comerciais e monumentos. No metro existe inclusivamente detector de metais e bagagem, um vidro ao longo das plataformas que filtra e organiza as pessoas, ao mesmo tempo que impede que estas caiam (voluntária ou involuntariamente) para a linha. Andar com passaporte e documentos é essencial porque são regularmente pedidos e examinados por todo o tipo de autoridades. Este aparato de segurança é também uma resposta do governo à ameaça global do terrorismo, embora perceba que para um cidadão chinês isto possa promover abusos mais ou menos frequentes às suas liberdades. Não obstante, para um turista europeu é impressionante a sensação de segurança que todo este controlo transmite.

À entrada de cada hutong é comum ver-se polícia ou seguranças.

Sei o que estão a pensar, não se agitem. Os artigos com os monumentos, restaurantes e paisagens estão na forja e serão publicados em devido tempo. Pensem no presente texto como uma introdução a um país sobre o qual de facto sabemos muito pouco mas inventamos muito. Essa é uma das coisas que viajar ensina: por muito que gostemos do nosso país e da nossa forma de fazer as coisas, existem sempre formas alternativas e igualmente válidas de viver. O conforto e prosperidade que atingimos no Ocidente não nos devem amolecer e fazer com que deixemos de ser exigentes só porque noutros sítios não se atingiram os mesmos resultados. A nível de transportes, infraestruturas, higiene urbana, segurança e até de (alguns) hábitos alimentares podíamos aprender alguma coisa com os chineses.

Oh não, mais um artigo sobre festivais!

Calma, não é só mais um artigo (tecnicamente até é, mas prometo que vão ser abordadas questões que transcendem em muito a mera crítica à organização, aos preços ou àquela banda que adoramos mas que se estava completamente nas tintas para nós).

Há  muitas coisas que gosto nos festivais de Verão: dos alinhamentos  e da organização em geral, da qualidade das infraestruturas e do foco quase exclusivamente dirigido para o consumidor (existem festivais para pessoas que costuram as suas próprias roupas, para pessoas que deixam de gostar das bandas assim que atingem mais de 100 reproduções no Spotify e para pessoas que na verdade queriam ir ao Mega Picnic Continente mas que não se importam de ir recolher brindes para outro sítio). 

"Esses festivais a que vocês vão agora é só DJs. Já nem há músicos!"

Não obstante as grandes performances e os verdadeiros espectáculos de iluminação que podemos testemunhar, não são essas coisas o que mais me impressiona nos festivais.  Quando vou a um festival fico sempre surpreendido com a massa humana que ali se acumula. Não é o facto de presenciar os milhares de pessoas que se deslocam a um sítio para experienciar algo de forma colectiva e que até se pode assemelhar de certa forma a um culto. Não. O que me excede e tenho dificuldade em apreender é a quantidade de pessoas ali presente e a sensação de insignificância e pequenez que esse facto me transmite. Ver materializada ali à minha frente uma amostra da quantidade absurda de pessoas que existe no mundo atira-me para uma realidade quase relativista.

Não me refiro a relativismo moral. Esse dá direito a ir para o Inferno.

Todas estas pessoas têm sonhos, aspirações, vidas e projectos. Todas são, à partida, únicas na sua identidade e experiência pessoal.  Todas, de certa forma e à sua maneira, já pensaram em algum momento da suas vidas mudar significativamente o mundo em que existem, deixar a sua marca. Não obstante, o seu impacto real no universo é reduzidíssimo, se existente. Na minha realidade, naquilo que percepciono, a esmagadora maioria destas pessoas não teve provavelmente qualquer influência. 

Estas considerações generalistas e existenciais que mais não são do que a constatação de que o Universo é grande demais para a nossa minha compreensão levam-me a associar os festivais e os concertos ao que de mais aproximado temos de uma viagem ao espaço. Na impossibilidade financeira e conjuntural de visitar a Lua, a Estação Espacial Internacional ou qualquer outro ponto realisticamente atingível pelo ser humano, a única realidade quotidiana que me permite perceber o quão pequeno sou são as multidões.

Neste caso até estou maior que a multidão, mas vocês percebem onde quero chegar.

Uma característica que sempre admirei nas pessoas é a sua auto-estima e confiança (prometo que isto está relacionado com o que acabei de escrever). Um dos grandes motivos para, por vezes, vacilar neste aspecto é saber que os meus talentos e o que sei fazer são executados de forma muito mais brilhante por milhões e milhões de pessoas no mundo. Penso: "o que faço em nada altera o mundo porque já foi feito e continuará a ser feito por gente infinitamente mais capaz e talentosa". Este pensamento acompanha-me sempre e penso que nunca será afastado totalmente. Existirá sempre dentro de mim (e provavelmente dentro de outros) a dúvida de saber se o que estou a fazer é o que realisticamente consigo fazer da melhor forma.


Mas também é por isso que gosto de festivais e das suas multidões. Porque essa  multidão que me faz duvidar da minha importância do mundo também está ela própria carregada de pensamentos e dúvidas similares. E se no meio de todas aquelas pessoas estão indivíduos muito mais capazes que eu e que vão ter um impacto muito mais positivo no mundo, também é verdade que nem esses se encontram imunes às inseguranças associadas à vida em geral. A forma como cada um enfrenta esses medos assume uma infindável variedade de possibilidades que atravessam a religião, as espiritualidades, ideologias, família, carreira, um misto de todas estas, ou algo completamente diferente.  


Porém, algo que nos "une" é o facto de sermos todos assaltados por estes medos. Tal factor torna-se assim poderoso o suficiente para criarmos empatia uns com os outros e nos compreendermos. Até para nos sentirmos bem na presença um dos outros. Se todas estas pessoas estão ali naquele festival é porque pensam que isso vale a pena. Que independentemente dos medos e receios, sucessos e falhanços, vale a pena passar aquele intervalo de tempo na companhia de outros tantos milhares tão confusos, inseguros, brilhantes e medianos como eles. Não sei se todos pensam como eu, mas sei que quando estou num festival, rodeado de milhares de desconhecidos, sinto-me seguro. Seguro porque consigo relativizar e circunscrever as dúvidas da minha vida. Seguro porque sou tão pequeno que tudo continuará a existir depois de mim. Seguro porque isso significa que posso fazer virtualmente o que quiser. Seguro porque tenho um cheque em branco nesta coisa tão mal explicada, incompleta e curta que se chama existência.

Saudades de futebol


Um dos dias mais tristes da minha vida enquanto amante de futebol foi quando Pep Guardiola deixou de ser treinador do Barcelona. Habituara-me durante quatro anos a ver uma equipa provar semanalmente que era possível dominar totalmente o jogo e o adversário, ganhar e praticar o melhor futebol que já alguma vez vi. Juntando intérpretes extraordinários a um treinador singular, aquele Barcelona ganhou uma aura de invencibilidade que se materializou na sua forma mais perfeita ao obrigar o seu rival de sempre, treinado pelo (à data) melhor treinador do mundo, a apresentar-se regularmente com três médios-defensivos e uma dureza na disputa dos lances que roçava as artes marciais. 

Condicionar desta forma clubes como o Real Madrid, o Manchester United, Chelsea ou Bayern de Munique, foi para mim a prova definitiva que o "jogar bem" não se esgota nos 90 minutos de um jogo de futebol.  É uma aura que se cultiva e transporta para os outros jogos, que condiciona os adversários à partida, que apaixona os adeptos e que coloca uma pressão e exigência adicional nos próprios jogadores. Veja-se o rendimento actual de Messi, Busquets, Iniesta e demais contemporâneos de Guardiola no Barcelona 2008-2012. Continuam a ser indubitavelmente extraordinários como antes, mas não com a regularidade supra-humana a que nos tinham habituado. Atingir uma qualidade a roçar a perfeição e demonstrá-la semanalmente habitua mal os que gostam do jogo e do espectáculo que ele proporciona. Quando via o Barça via outro futebol, algo quase filosófico que nunca tinha sonhado existir a não ser no mundo das ideias. Mesmo quando não ganhavam a experiência era de tal forma transcendental que, mesmo quando fui a Camp Nou vê-los empatar, saí do estádio eufórico.

A influência de Guardiola no mundo do futebol foi tremenda: tornou o Barcelona na melhor equipa de sempre; tornou a Espanha (eterna perdedora) numa bi-campeã europeia e campeã mundial; "obrigou" a uma mudança na mentalidade alemã, passando os jogadores teutónicos a ser seleccionados com base no seu talento e inteligência ao invés das suas características físicas; deu aos guarda-redes um novo papel como elementos activos na construção e organização ofensiva das equipas; deu a equipas com menos capacidade para captar talentos as ferramentas e mecanismos para praticar um futebol dominante e verdadeiramente colectivo, aumentando assim as suas hipóteses de vencer; obrigou os seus adversários a inventar novas maneiras de defender aquele furacão de futebol ofensivo; e, acima de tudo, mostrou que o estilo e as ideias, ao contrário do que muita gente pensa, ficam na história e aproximam as equipas do sucesso.

Lembrei-me muito de Guardiola durante este Campeonato Europeu. Lembrei-me especialmente dele sempre que em Portugal se dizia que não importava jogar bem e que o que interessava era ganhar. Que o que fica para a história são os resultados, as conquistas e os troféus. Lembrei-me especialmente dele quando dei por mim a pensar: "Que se lixe o futebol da Selecção, vamos mas é ganhar isto!" E lembrei-me porque é que adorava aquele Barcelona e porque é que Pep é diferente. Para ele o objectivo não é vitória a qualquer custo, mas sim jogar o melhor futebol possível. Os títulos, vitórias e demais conquistas são a consequência natural de algo que é feito com o maior rigor, talento e dedicação. Os títulos são a materialização de uma ideia superior concretizada na sua forma mais completa. O mais difícil é assim criar algo verdadeiramente original, único, belo. A Grécia já ganhou um Euro, o Chelsea de Di Matteo já ganhou uma Champions, o Boavista já ganhou um Campeonato Nacional. Em todas as competições (e especialmente nas de eliminar) tem de haver um vencedor. No mundo dos que almejam a perfeição o resultado não é sempre nem necessariamente uma obra-prima. Muitos tentam e não conseguem. 

Ao pensar nisto lembrei-me porque é que gostava e vibrava com o futebol. Porque mais do que festejar uma vitória ou chorar com uma derrota, o que me ficava para sempre gravado na mente e no coração eram as recepções, as fintas, os remates, as desmarcações e outros movimentos que, embora repetidos até à exaustão, não deixarão de ser em si próprios a manifestação de algo perfeito em si, de um contexto de concretização progressiva e metódica de uma ideia maior.  Acreditem: não me lembro do que senti quando Portugal foi à final do Euro 2004, mas lembro-me do nosso "jogar", da classe do Deco, da irreverência do Cristiano, da experiência de Figo, da realeza de Jorge Andrade e Ricardo Carvalho, da maestria de Rui Costa. Foi o que estes homens fizeram no campo que permaneceu e permanece comigo. É isso que levo enquanto amante de futebol e é disso que me vou lembrar para sempre. 

No Domingo fui naturalmente festejar para o Marquês mas senti-me estranhamente vazio. Estava, é claro, momentaneamente feliz e de bom humor, mas tinha uma sensação de que ia ter dificuldade em lembrar-me deste Europeu. Vou sempre saber que o ganhámos, mas não tenho a certeza de que me irei lembrar de como jogámos, o que fizemos, o que mostrámos. Se não fosse um apaixonado pelo futebol que me mostrou Guardiola e profundo crente na sua forma de ver o jogo talvez isto não me importasse, mas não consigo deixar de sentir que algo ficou por fazer. Que o nosso futebol, o nosso jogo, a nossa capacidade, o nosso estilo, a nossa exigência foi posta de parte. E por quê? Por uma taça? Uma conquista que 9 antes de nós e muitos outros depois vão almejar? Valerá a pena esta troca? A vasta maioria dos portugueses dirá que sim, que precisávamos de uma vitória para sermos olhados como iguais, que assim ficaremos na "História".  É aqui que discordo profundamente da mundivisão dos meus compatriotas. Possivelmente valorizo em demasia o lado estético e olho para este desporto mais como uma forma de arte do que uma competição, mas não consigo deixar de sentir uma empatia e identificação maior com a Selecção de 2000, de 2004, o Barcelona de Guardiola, a Espanha de 2010, o Chile de Sampaoli, a Alemanha de 2014, o Sporting de Peseiro e de Jorge Jesus, ou o Porto de Mourinho, do que com estes 23 que acabaram de ganhar um Campeonato da Europa e realizaram um feito inédito na história do futebol português. 

Não pretendo insinuar que não houve mérito na vitória de Portugal, nem que a equipa e treinador não tenham dado tudo para conseguir a vitória. Não tenho a mínima dúvida de que o esforço, suor e lágrimas tenham sido abundantes. Creio que esta conquista deve ser muito mais saborosa para os emigrantes do que para mim que tenho uma vida relativamente despreocupada e não habituada a um constante esforço e sofrimento. Simplesmente não consigo valorizar o esforço e a sorte da mesma forma que valorizo o talento puro, a genialidade, a visão e o compromisso eterno com a qualidade. A culpa é do Guardiola que me mostrou que a prioridade é jogar o melhor futebol e, como consequência, ganhar. Aliás, a culpa é de todos os treinadores, jogadores e pessoas que são exigentes consigo próprias e que põem as suas qualidades a render ao máximo, procurando modelar as suas vidas e realizar o seu trabalho da forma que entendem ser a mais aproximada da perfeição, mesmo que tal não satisfaça as expectativas dos outros ou que vá contra a mentalidade instituída. Mesmo que sejam uma desilusão. Mesmo que não ganhem.

Estranhos que não o são

Todos os dias apanho o Metro para o Marquês de Pombal e dirijo-me para a já afamada Zona Norte da Castilho para trabalhar. Durante o percurso, e fruto da minha pontualidade quase kantiana, costumo deparar-me no metro e na rua com as mesmas pessoas quase todos os dias. Como tenho por hábito cultivar a cuscovilhice e gosto de alguns exercícios imaginativos começo a pensar de onde terão vindo aquelas pessoas, o que fazem, como são as suas vidas, etc. Reconheço que esta é uma patologia que deve ser provavelmente comum a todos os que usam os transportes públicos (o que explicaria o ar alienado de grande parte dos utentes do Metro de Lisboa), mas não deixa ainda assim de ser um exercício fascinante.

Dou-vos apenas um exemplo: na estação de Santa Apolónia entram sempre no metro dois indivíduos de fato que aparentam ser colegas de trabalho. Os fatos que usam são de muito bom corte e qualidade, tal como os sapatos que se encontram sempre impecavelmente engraxados. Na maior parte das vezes não usam gravata e trazem sempre um saco da Rosa & Teixeira onde, pelo que percebi, levam o almoço. Saem também na estação da Avenida, o que, tudo somado, levaria a concluir que muito provavelmente trabalham na Avenida da Liberdade. Para além disto, quando chegamos à estação da Baixa-Chiado entra também um terceiro indivíduo com um fato e sapatos ainda melhores que os deles. Cumprimenta-os cordialmente mas com um distanciamento que poderá sinalizar a existência de uma hierarquia. Também sai na Avenida.

Dir-me-ão: "brilhante dedução, é óbvio que uns tipos de fato que saem na Avenida trabalham de certeza numa consultora/banco qualquer na Avenida da Liberdade". Mas as coisas não são tão simples assim, caros amigos. Ainda não mencionei que um destes indivíduos chega a Santa Apolónia pelas 09h30 no comboio proveniente da Azambuja e que costuma também comprar o jantar no Pingo Doce da mesma estação ali pelas 19h45-20h00. Ora raciocinem comigo: porque é que um indíviduo que usa fatos de €700-€900, sapatos de, no mínimo, €150, que claramente tem itens da Rosa & Teixeira e trabalha na Avenida da Liberdade vive fora de Lisboa e compra refeições rápidas no Pingo Doce regularmente? É que deve ser pelo menos 2 horas e tal para chegar e voltar do trabalho todos os dias. Alguém que se dá ao luxo de ter fatos e sapatos bons é porque de certeza valoriza o conforto e qualidade. Então porque é que gasta 2 horas diárias em transportes públicos e come pizzas pré-cozinhadas? Será que afinal não trabalha numa boa empresa na Avenida? Trabalhará na Rosa & Teixeira? E os outros dois? Também trabalham na Rosa & Teixeira? Ou são todos apreciadores de grandes fatos e gastam o dinheiro todo nisso? Realmente só um é que tem aliança...Emfim, nada é claro.
 
É nisto que dá pertencer àqueles grupos de pessoas que aparecem naquelas sequências fast-motion nas grandes cidades a atravessar passadeiras. Fruto da nossa rotina começamos a conhecer os anónimos que connosco a partilham. Já nos reconhecemos, sabemos como andamos vestidos, os nossos horários, ouvimos bocados de conversas ao telefone e até sabemos o que comemos ao jantar. É inegável que todo este conhecimento confere uma inusitada sensação de intimidade e conforto. Sabemos que se for preciso qualquer coisa, aquelas pessoas sabem quem somos de vista e não se assustarão com uma abordagem mais imprevisível. Talvez até possam mesmo servir como testemunhas para comprovar um alíbi. Se calhar vêem-me perder a carteira e sabem que no dia seguinte estarei à procura dela no mesmo sítio.

E as coisas que estas pessoas sabem de nós? São provavelmente os primeiros a ver-me logo de manhã, se calhar ouvem a minha música quando abuso no volume, vêm para onde vou e têm uma noção dos meus horários. "É inevitável", dirão vocês, mas não é por isso que deixamos de nos lembrar destes factos e personagens aleatórios: o casal de namorados que todos os dias atravessa o cruzamento da Joaquim António de Aguiar com a Castilho, o barman do horrendo Hotel Fénix Music a servir imperiais aos turistas franceses, um tipo estranhíssimo da Deloitte que tem uns headphones quadrados e vê anime no telemóvel (nota: não depreendam que o acho estranho por ver anime).

Falamos muitas vezes da perda de privacidade que as redes sociais e a tecnologia em geral provocaram, mas esquecemo-nos que sabemos muito mais sobre as pessoas que se cruzam diariamente connosco do que provavelmente achamos. Estas pessoas fazem parte de breves momentos do nosso dia, mas talvez já tenhamos passado mais tempo com elas na totalidade do que com certos amigos ou familiares. É uma sensação esquisita, mas quando não vejo estas pessoas durante algum tempo pergunto-me o que lhes terá acontecido. Terão mudado de vida? Sido despedidas? Terão morrido? Emigrado? Não sei se há um nome para estas pessoas, mas apelidá-los de "estranhos" ou "desconhecidos" é para mim redutor tendo em conta o tempo que passo com eles e o que me entretenho a imaginar como serão as suas vidas. Eu sei. Há quem simplesmente leia nos transportes públicos.

No meu dia de anos, aprender com Freddy Adu

Todos os rapazes pensam, em alguma altura das suas vidas, tornar-se jogadores de futebol. Também eu já o fiz e embora sempre soubesse que por várias razões esse seria um sonho dificilmente alcançável, não pude deixar de sentir uma certa tristeza quando comecei a ver os anos passar e malta mais nova que eu a vingar nos grandes clubes europeus. Comecei a sentir-me adulto a partir do momento em que comecei a ter a idade dos jogadores de futebol.

Por força deste "sonho" que fui acalentando, tornou-se inevitável não ter acompanhado com atenção (e emoção) a carreira futebolística de um jogador de futebol em particular: Fredua Korateng Adu, ou como é mais vulgarmente conhecido, Freddy Adu. Antes de mais, tenho perfeita consciência de que a carreira de Adu foi um flop. Desde 2008 que não consegue estar mais de um ano num clube que não seja dos Estados Unidos, contando no seu currículo com passagens goradas pela Sérvia, Turquia, Grécia e Brasil.

Freddy Adu


O principal motivo porque segui a carreira de Adu e quis que ele vingasse prende-se essencialmente com o facto de, fruto da aleatoriedade do nosso universo, partilhar com ele um conjunto de características idênticas: a data de nascimento (02.06.1989), a altura (1.70cm), o peso (65kg) e o pé preferencial (o esquerdo). Sempre achei curioso existir um jogador de futebol nascido no mesmo dia e no mesmo ano que eu com as minhas exactas características físicas e que era também canhoto. Pensei: se não vou ser jogador de futebol, pelo menos que ele consiga ter sucesso, já que, sem o seu conhecimento, tem algo em comum comigo. 

Freddy Adu começou a ser conhecido aos 15 anos na Major League Soccer dos EUA, devido à sua velocidade e capacidade física. Era titular em praticamente todos os jogos, marcava golos e fazia assistências. Jogava com indivíduos em média 10 anos mais velhos que ele. A consagração do seu estatuto de jovem promessa veio a acontecer com o aclamado Football Manager e as estatísticas que lhe foram atribuídas nesse jogo.

Com estas stats Adu facilmente se tornava num dos melhores do mundo no FM.

Depois da fama no mundo virtual, veio o hype no mundo real com a contratação de Adu pelo Sport Lisboa e Benfica, em 2007. Não queria acreditar. Na altura especulou-se que o departamento de scouting andava a jogar muito FM, mas eu não queria saber. O Adu em Portugal era para mim algo quase messiânico. Quais eram as probabilidades? 

O jogador veio para a Luz com 18 anos e a expectativa dos adeptos era enorme. A minha era ainda maior. Sou do Sporting, mas perante estes fenómenos do universo a minha emoção leva a melhor e facilmente me deixo fascinar. Não é por isso de estranhar que tenha ido ao Estádio da Luz durante o pontificado de Adu com o fito único de o ver jogar. Foi um Benfica - Marítimo e os encarnados começaram  o jogo a perder. Como se não bastasse, é assinalado um penálti contra o Benfica e o guarda-redes Quim é expulso. Para a baliza vai Hans-Jörg Butt, um veterano alemão que vinha do Bayer Leverkusen. Disse ao meu amigo Zeca (que tem a bondade de levar um sportinguista a estes jogos): "O Butt vai defender". E defendeu. O Benfica ficou galvanizado e mais tarde igualou a partida por Óscar Cardozo. O jogo precipitava-se para o fim e Freddy Adu ainda estava no banco. Eu não parava de repetir: "se o Adu entrar vai ser decisivo"; "o Adu vai entrar, marcar e eu vou chorar". Adu entrou. Adu marcou o golo da vitória nos últimos minutos e eu não consegui evitar a comoção. Aquele tipo nascido no Gana, emigrado para os Estados Unidos, nascido no mesmo dia e no mesmo ano que eu, com a minha altura, peso e pé tinha marcado pelo meu eterno rival e eu estava ali a poucos metros dele ver tudo isto a acontecer.

O Adu não sabe, mas esse dia foi o melhor da carreira dele.

Esse dia bastou-me para aceitar a estranha ordem do universo e também que se calhar o Freddy Adu não ia ter uma carreira tão brilhante assim. Apesar de marcar uns golos de vez em quando, Adu não sabia jogar em equipa e não compreendia o jogo. Provavelmente ninguém o ensinou e foi mal acompanhado por agentes, patrocinadores e etc. Ficou apenas um ano no Benfica e o mesmo aconteceu no Mónaco, Belenenses, Aris de Salónica, Caykur Rizespor, Bahia, FK Jagodina e KuPS (é mesmo assim que se escreve). Aos 27 anos, os que fazemos hoje, Freddy Adu está outra vez nos Estados Unidos nos Tampa Bay Rowdies. Provavelmente já não vou voltar a vê-lo jogar num estádio, nem vou sequer conseguir apanhar um canal que transmita os seus jogos, mas sei que, para o bem ou para o mal, existe um tipo que podia ser eu que tomou a decisão de arriscar e jogar futebol, que não se deu tão bem como se calhar gostaria, mas que pelo menos teve a oportunidade de me mostrar naquele dia o que poderia ter acontecido se as minhas decisões tivessem sido outras.

Somos na maior parte das vezes educados para desenvolver aversão ao risco e ao desconhecido, mas a história de Freddy Adu mostrou-me que há sempre quem tome as decisões que nós não tomamos. Por vezes corre bem, noutras nem por isso, mas momentos de classe, magia e espectáculo acabam por acontecer quer se escolha uma vida mais convencional ou outra um bocado mais imprevisível.