Tenho tido dificuldades em escolher algo sobre que escrever neste início de ano. Por esta altura, a maioria das coisas que vemos e lemos na Internet e comunicação social está relacionada com tops e listas que classificam as melhores coisas do ano transacto ou com as chamadas "resoluções de ano novo". Confesso que a "foleirada" destas últimas sempre me irritou um pouco, tal como as flash mobs, o galo da Joana Vasconcelos ou aqueles pedregulhos junto ao Cais das Colunas empilhados uns em cima dos outros.
A quantidade de artigos, posts e tweets com desejos e resoluções para 2017 a que tenho sido sujeito feriu quase de morte a minha criatividade e levou-me a indagar sobre esta aparente necessidade que temos de celebrar e mudar a nossa vida assim que o relógio passa das 23h59 do dia 31 de Dezembro para as 00h00 do dia 1 de Janeiro.
Ao que parece, este estado de coisas já se arrasta há algum tempo. Quando escrevo algum tempo refiro-me a mais de 3.000 anos de História. Pelo que andei a ler, consta que as festas de passagem de ano começaram com o "Akitu" ("Cevada" ou "Ceifa da Cevada"), um festival de Primavera das civilizações da Mesopotâmia (actual Iraque) que marcava o início das colheitas e, consequentemente, do ano. Para esta tradição foi especialmente influente o Akitu da Babilónia, uma cerimónia de 12 dias, que se destinava não só a celebrar o início da Primavera e das colheitas, mas também a "relembrar" o rei das suas promessas e deveres para com a comunidade e a sua obediência ao deus Marduk.
Não vou entrar em detalhe quanto às formas arranjadas pelos Babilónios para inculcarem no seu suserano o necessário "sentido de Estado" (digamos que envolvia o despojamento das armas, coroa e ceptro do rei e culminava com o mesmo a ser esbofeteado em público pelo sumo-sacerdote), mas não deixa de ser curioso que uma tradição iniciada para celebrar a agricultura, controlar e legitimar o poder político e glorificar os deuses, seja hoje pretexto para nos comprometermos a perder peso, deixar de fumar ou simplesmente a passar menos tempo na net (no que me diz respeito, apresento desde já as minhas desculpas).
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Poderia começar um tirada moralista sobre como as nossas prioridades e valores se encontram frouxos ou pervertidos nos dias que correm, mas prefiro sublinhar a curiosidade que assinalei acima. Com efeito, as preocupações dos Babilónios, Sumérios ou Assírios emulam perfeitamente (pelo menos numa perspectiva ocidental) alguns dos desafios e problemas que atravessamos nos dias de hoje: a questão ecológica e de sustentabilidade, a legitimação e credibilidade dos nossos sistemas políticos e a necessidade de reafirmação e defesa dos nossos valores e princípios face a ameaças externas ao nosso modo de vida.
É frequente pensar que há séculos atrás as pessoas eram sujas, pouco civilizadas e ignorantes. Talvez o fossem, mas pelo menos podemos reconhecer um significado nos seus ritos e tradições, expresso numa preocupação genuína e colectiva com questões das quais depende a nossa existência no planeta Terra e a convivência em sociedade. E sim, já sei no que estão a pensar: «toda esta macacada da Babilónia é só uma desculpa elaborada para ele não ter resoluções de ano novo e não se inscrever no ginásio». Esperemos que resulte.



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