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O Zé da Mouraria 2

O André é um empregado do Zé da Mouraria 2. Já estávamos todos fartos da típica camisa branca.

Não se assustem com o nome. Bem sei que restaurantes com números no nome merecem sempre uma saudável dose de desconfiança (costumo passar por uma pastelaria chamada Sandro 2000 e como é óbvio nunca lá entrei). O Zé da Mouraria 2 tem este nome porque o Zé da Mouraria original, um restaurante localizado no conhecido bairro lisboeta, só serve almoços. Percursor daquele espírito eclético da tasca onde se come bem e se bebe melhor, congregando ao mesmo tempo clientes das mais variadas proveniências, o Zé da Mouraria viu a procura aumentar e não teve outra alternativa senão abrir um espaço só para jantares.

O Zé da Mouraria 2 é conhecido pela qualidade e pela quantidade. Esta meia-dose de lulas, por exemplo, chega para um grupo de 5/6 jovens adultos se entreterem no início da refeição.


No Zé da Mouraria 2 a ideia é partilhar. Partilhar uma refeição singular com um grupo de amigos, partilhar momentos de boa disposição com o staff (são demasiado competentes e simpáticos para serem só empregados de mesa) e partilhar a sala com grupos de pessoas que ao virem aqui demonstram claramente ter as prioridades bem definidas. 

Uma dose de bacalhau à Zé da Mouraria.

Porém, o que mais impressiona no Zé da Mouraria 2 não são as doses massivas de comida, a sua qualidade indiscutível ou sequer os preços mais do que razoáveis. Não, aqui sentimo-nos amigos das pessoas que aqui trabalham, sentimos que somos bem-vindos e que podemos ficar o tempo que quisermos. Num jantar de amigos perguntámos ao André a que horas fechavam e a resposta que tivemos foi um "sei lá, às vezes estamos aqui até às 4". Esta simpatia e primazia ao cliente também se verificam na larga margem que nos é dada para expressarmos as alegrias e tristezas da nossa vida. Instados pelo André que uma outra mesa nos tinha pedido para fazer menos barulho a pergunta que ele nos colocou foi: "Como é? Quem é que lá vai mandá-los para o...? Vocês ou eu?"   

 

 Um arroz de coentros tão bom que até pode ser servido à sobremesa.

E o que dizer do vinho? Produzido pelo Virgílio, o proprietário e um homem que gostaríamos de ter a proteger as nossas futuras filhas, o Xico Pé Descalço é um tinto de Palmela com capacidade para nos levar do início ao fim de uma refeição trabalhosa mas prazenteira. Neste aspecto também tenho de dar o braço a torcer a um espaço que produz o seu próprio vinho e torna praticamente inútil a existência de uma carta de vinhos.


A caricatura de Virgílio figura no rótulo do Xico Pé Descalço.

Para terminar a refeição de forma gloriosa temos o leite creme literalmente queimado ao momento e à frente do cliente (como comprovado pela primeira imagem a este post). Também o digestivo essencial para reflectir no momento que acabámos de partilhar não nos é negado. O Zé da Mouraria 2 é um restaurante ideal para grupos de amigos ou familiares que gostem de comer muito bem num ambiente acolhedor e extremamente convidativo. Assim, é natural que ao sairmos do Zé da Mouraria fiquemos com a sensação de que a melhor parte da noite já passou.

A espetada é um autêntico "tomba-gigantes" e requer força de vontade.

Zé dos Cornos, um reduto da democracia

Todos fomos ensinados a admirar e estimar a democracia. Na escola, faculdade ou trabalho, todos reafirmamos a importância do pluralismo (seja qual for a sua vertente), da liberdade de expressão ou da igualdade. As conversas sobre sistemas políticos terminam geralmente recorrendo ao aforismo de Churchill e todos nos consideramos devotos defensores destes princípios. Confesso que valorizo muito mais a adopção e prática natural desses princípios do que os grandes discursos, debates e proclamações tão próprias da classe política. Assim, procuro associar a defesa (ou mais importante, a vivência) de determinados valores e ideias a pessoas, locais e formas de "estar". 

O único "comício" em que me vão apanhar.

Se tivesse de definir o Zé dos Cornos (ou Zé do Carvoeiro, ou Zé da Maria) num adjectivo, teria de recorrer à palavra "democrático". Não por causa da sua orgânica ou gestão, mas sim porque este espaço singular encarna como poucos alguns dos valores que acima referi. No Zé dos Cornos partilhamos a refeição com europeus, africanos, asiáticos e americanos (os "oceânicos" que me desculpem, mas acho que ainda não os vi lá). No Zé dos Cornos brindamos com ricos, pobres e remediados. No Zé dos Cornos falamos com advogados, professores, desempregados, pedreiros, economistas, "homens do lixo" e estudantes. No Zé dos Cornos sentamo-nos ao lado uns dos outros e acabamos a maioria das vezes a fazer amigos, estabelecer contactos ou simplesmente a ouvir histórias mirabolantes. Por exemplo, uma vez tive a oportunidade (e privilégio) de me sentar lado a lado com um indivíduo que se intitulava, por esta ordem, sportinguista, comunista, carteirista, pedreiro e "garagista". Como imaginam, a única coisa que tínhamos em comum era a afeição pelo Sporting e mesmo assim em quantidades totalmente diferentes, dado que o senhor, apesar de estar numa cadeira de rodas, acompanhava regularmente as deslocações do clube a países que incluíam a Geórgia, a Ucrânia e a Letónia (embora quanto a esta última tenha as minhas dúvidas).

Os queijos da Gardunha, ao fundo, perfilam-se como candidatos em eleições com  muitas, muitas "voltas".

Esta coexistência na diversidade que é a marca do Zé dos Cornos permite-nos sentir num clima/espaço de confraternização pacífica entre pessoas com vidas totalmente diferentes, ideologias opostas e clubes rivais. Ali todos são respeitados e todos opinam, falam, gritam, choram e riem. Tudo dentro da "ordem" conferida pelo Sr. João (filho do falecido proprietário - o Sr.  José Ferreira) e por uma equipa de pessoas que dedicam as suas vidas à conservação daquele ambiente e espírito fundamental para a experiência gastronómica e humana que ali se pode viver.

Na grelha, tal como na democracia, quer-se rotatividade e por isso os "mandatos" sucedem-se uns aos outros.

A especialidade do Zé dos Cornos é o entrecosto grelhado (ou na gíria local, o "piano") que é acompanhado com arroz de feijão, picante caseiro e, desejavelmente, uma garrafa do tinto da casa que tem por virtude conferir a necessária "transparência" democrática. Também a feijoada e o cozido são afamados nesta casa e a fila que diariamente se forma à porta (qual mesa de voto da nossa participada democracia) é a prova de que por certas coisas vale a pena esperar.

"Meninos, se depois quiserem nós pomos mais um bocadinho", diz uma das cozinheiras. 

No que diz respeito ao serviço, podemos contar com eficiência, simpatia e metodologias modernas de comunicação e facturação (gritos da sala para cozinha e conta escrita na "toalha" de mesa). No fim da refeição podem optar pelos clássicos leite creme, pudim ou mousse "caseira", ou, para os que não podem (ou não devem) comer sobremesas, pela aguardente do Sr. João. Por fim, e como os impostos são um mal necessário prescrito pelo afamado mas invisível "Contrato Social", também no Zé dos Cornos há uma conta para pagar. Porém, ao invés do que sucede nas nossas democracias ditas liberais, o valor da conta é bem mais reduzido, muito mais justificado e verdadeiramente voluntário.

Brincadeiras e ironia à parte, o Zé dos Cornos é um espaço que recomendo vivamente a todos os que quiserem experimentar o melhor das tascas lisboetas e da cozinha portuguesa, num ambiente livre, bem-disposto e muito, muito amigável.  

O Paquete

Já não vou ao Paquete há cerca de dois anos. Não porque tenha fechado ou porque me tenha fartado. Não. Simplesmente já não tenho o tipo de vida que me levava ao Paquete. Um tipo de vida que implicava estar acordado às 6/7 da manhã de um Sábado e procurar conforto num belo bitoque com ovo a cavalo e numa imperial de despedida. Por muitas razões este estabelecimento é mais do que um espaço de refeições perdido em Entrecampos. Nele se juntam as pessoas que não vemos durante o dia: os homens do lixo que fazem a recolha nocturna, os taxistas do turno da noite, os seguranças privados de empresas, bares ou discotecas, os que estão sozinhos e procuram companhia, os alcoólicos e as mais variadas personagens da noite que embelezam o espaço com conversas e contos obscuros das suas vidas impensáveis e (muitas vezes) pouco recomendáveis.


O Paquete tem um horário "todo-o-terreno". Está aberto desde as 05h00 até às 24h00. O proprietário vive mesmo no andar de cima, mas não deixa muitas vezes de fazer noitadas. Com efeito, com a limpeza e arrumação do restaurante é frequente restarem-lhe apenas 2/3 horas para dormir todos os dias. Nas suas palavras, "tem de ser", e as noites mal dormidas não são pretexto para um serviço mais desatento ou demorado. De facto, muito devem ajudar a "Branquinha" e a "Amarelinha", as duas aguardentes que o Sr. "Paquete" (como por nós é carinhosamente conhecido) tem ao dispôr dos clientes que a essa hora começam "a pegar" no trabalho ou daqueles que precisam de uma conclusão digna numa noite se calhar não tão digna.


Como tudo na vida, também o Paquete tem defeitos. O maior deles é estar fechado ao Domingo, roubando os noctívagos do necessário conforto nas noites de Sábado, mas oferecendo ao seu proprietário o descanso que este sem dúvida merece.