Já não vou ao Paquete há cerca de dois anos. Não porque tenha fechado ou
porque me tenha fartado. Não. Simplesmente já não tenho o tipo de vida
que me levava ao Paquete. Um tipo de vida que implicava estar acordado
às 6/7 da manhã de um Sábado e procurar conforto num belo bitoque com
ovo a cavalo e numa imperial de despedida. Por muitas razões este
estabelecimento é mais do que um espaço de refeições perdido em
Entrecampos. Nele se juntam as pessoas que não vemos durante o dia: os
homens do lixo que fazem a recolha nocturna, os taxistas do turno da
noite, os seguranças privados de empresas, bares ou discotecas, os que
estão sozinhos e procuram companhia, os alcoólicos e as mais variadas
personagens da noite que embelezam o espaço com conversas e contos
obscuros das suas vidas impensáveis e (muitas vezes) pouco
recomendáveis.
O Paquete tem um horário "todo-o-terreno". Está aberto desde as 05h00
até às 24h00. O proprietário vive mesmo no andar de cima, mas não deixa
muitas vezes de fazer noitadas. Com efeito, com a limpeza e
arrumação do restaurante é frequente restarem-lhe apenas 2/3 horas para
dormir todos os dias. Nas suas palavras, "tem de ser", e as noites mal dormidas não
são pretexto para um serviço mais desatento ou demorado. De facto, muito
devem ajudar a "Branquinha" e a "Amarelinha", as duas aguardentes que o Sr. "Paquete" (como por nós é carinhosamente
conhecido) tem ao dispôr dos clientes que a essa hora começam "a pegar"
no trabalho ou daqueles que precisam de uma conclusão digna numa noite
se calhar não tão digna.
Como tudo na vida, também o Paquete tem defeitos. O maior deles é estar fechado ao Domingo, roubando os noctívagos do necessário conforto nas noites de Sábado, mas oferecendo ao seu proprietário o descanso que este sem dúvida merece.
Como tudo na vida, também o Paquete tem defeitos. O maior deles é estar fechado ao Domingo, roubando os noctívagos do necessário conforto nas noites de Sábado, mas oferecendo ao seu proprietário o descanso que este sem dúvida merece.


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