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Zapata

É satisfatoriamente irónico notar que uma Casa que se apresenta com o nome de um revolucionário mexicano é, na verdade, um local com uma agradável disposição conservadora. Situado no n.º 47 da Rua do Poço dos Negros, o Zapata, não sendo de todo um espaço fracturante com o panorama das tascas lisboetas, é um sítio onde o essencial é bem feito.

A fachada do Zapata.

O Zapata apresenta-se como um destino de conveniência, conforto e qualidade. Aqui podemos chegar a qualquer hora do dia e somos sempre servidos. A escolha é vasta e a execução exímia. Recaiam as opções em pratos de nome polémico ("Frango no forno à maricas"), mais convencionais ("Bacalhau assado com batata a murro"), ou com um "quê" de inovação ("Gambas à braz"), sabemos que estamos sempre seguros. Não obstante, e como em qualquer espaço desta índole, ficaremos melhor se pedirmos os pratos do dia ou as especialidades da Casa.

Bacalhau assado com batata a murro.

Aliado ao ecletismo do restaurante, temos o desejado serviço familiar e uma disponibilidade quase ilimitada.  O espaço encontra-se sempre cheio nas horas normais de almoço, mas o facto de se poder entrar para almoçar às 16h00 (ou mais tarde), torna este restaurante um must para todos os que tenham isenção de horário de trabalho (ou isenção de trabalho). 

Emiliano Zapata ladeado de certificados de qualidade do sector da restauração.

Dificilmente terá Zapata alguma vez pensado que o seu legado chegaria a Portugal e perduraria na fachada e paredes de um excelente restaurante de comida típica. Igualmente improvável é também um almoço de semana numa tasca lisboeta me ter incentivado a ler e a estudar a história da Revolução Mexicana de 1910. Estas improbabilidades, bem como a enérgica e transparente conversa que tive sobre política, sociedade, cinema e uma ou outra banalidade, fizeram-me pensar em Mário Soares. Não só por as suas cerimónias fúnebres estarem a ser transmitidas na altura e por estar ligado a uma revolução como Zapata, mas principalmente por ter lutado para que as pessoas pudessem discutir ideais políticos e filosóficos da forma mais inócua e desejável possível: à mesa e com boa companhia.

O Cantinho do Bem-Estar

Comer no Bairro Alto não tem de ser uma experiência má nem cara (embora a esmagadora maioria das vezes o seja). É certo que as armadilhas para turistas abundam e  que os bastiões do bem comer e do bem servir são cada vez menos nesta zona da cidade, mas o Cantinho do Bem-Estar conserva-se no seu posto, zelando atenciosamente para que os apreciadores de boa comida portuguesa não saiam defraudados.

O nome é bem escolhido.

Os espaços de excelência fazem-se de ideias simples, pretensões realistas e comida singular. No Cantinho do Bem-Estar existem meia dúzia de mesas, outros tantos pratos a preços altamente acessíveis e um serviço familiar. A estrela da companhia são os filetes de peixe galo, cuja frescura e a consistência quase aveludada são motivo suficiente para fazer deste estabelecimento um local de frequente peregrinação.

As doses são, como é bom de ver, "apropriadas".

Não obstante a afabilidade e disponibilidade com que os proprietários deste espaço recebem os clientes, convém referir que um telefonema prévio é sempre desejável, uma vez que a casa tem períodos de descanso e de férias no mínimo "flexíveis". Fora isso, não existem muitos mais sítios nesta zona de Lisboa que reúnam as características e qualidades do Cantinho do Bem-Estar. Terminar uma refeição com a barriga e a carteira cheia (a conta ronda geralmente os €10) vai sendo cada vez mais raro, mas só se torna mesmo impossível quando nos dispomos a trocar a qualidade e genuinidade pelo popular e efémero.