Todos fomos ensinados a admirar e estimar a democracia. Na escola, faculdade ou trabalho, todos reafirmamos a importância do pluralismo (seja qual for a sua vertente), da liberdade de expressão ou da igualdade. As conversas sobre sistemas políticos terminam geralmente recorrendo ao aforismo de Churchill e todos nos consideramos devotos defensores destes princípios. Confesso que valorizo muito mais a adopção e prática natural desses princípios do que os grandes discursos, debates e proclamações tão próprias da classe política. Assim, procuro associar a defesa (ou mais importante, a vivência) de determinados valores e ideias a pessoas, locais e formas de "estar".
O único "comício" em que me vão apanhar.
Se tivesse de definir o Zé dos Cornos (ou Zé do Carvoeiro, ou Zé da Maria) num adjectivo, teria de recorrer à palavra "democrático". Não por causa da sua orgânica ou gestão, mas sim porque este espaço singular encarna como poucos alguns dos valores que acima referi. No Zé dos Cornos partilhamos a refeição com europeus, africanos, asiáticos e americanos (os "oceânicos" que me desculpem, mas acho que ainda não os vi lá). No Zé dos Cornos brindamos com ricos, pobres e remediados. No Zé dos Cornos falamos com advogados, professores, desempregados, pedreiros, economistas, "homens do lixo" e estudantes. No Zé dos Cornos sentamo-nos ao lado uns dos outros e acabamos a maioria das vezes a fazer amigos, estabelecer contactos ou simplesmente a ouvir histórias mirabolantes. Por exemplo, uma vez tive a oportunidade (e privilégio) de me sentar lado a lado com um indivíduo que se intitulava, por esta ordem, sportinguista, comunista, carteirista, pedreiro e "garagista". Como imaginam, a única coisa que tínhamos em comum era a afeição pelo Sporting e mesmo assim em quantidades totalmente diferentes, dado que o senhor, apesar de estar numa cadeira de rodas, acompanhava regularmente as deslocações do clube a países que incluíam a Geórgia, a Ucrânia e a Letónia (embora quanto a esta última tenha as minhas dúvidas).
Os queijos da Gardunha, ao fundo, perfilam-se como candidatos em eleições com muitas, muitas "voltas".
Esta coexistência na diversidade que é a marca do Zé dos Cornos permite-nos sentir num clima/espaço de confraternização pacífica entre pessoas com vidas totalmente diferentes, ideologias opostas e clubes rivais. Ali todos são respeitados e todos opinam, falam, gritam, choram e riem. Tudo dentro da "ordem" conferida pelo Sr. João (filho do falecido proprietário - o Sr. José Ferreira) e por uma equipa de pessoas que dedicam as suas vidas à conservação daquele ambiente e espírito fundamental para a experiência gastronómica e humana que ali se pode viver.
Na grelha, tal como na democracia, quer-se rotatividade e por isso os "mandatos" sucedem-se uns aos outros.
A especialidade do Zé dos Cornos é o entrecosto grelhado (ou na gíria local, o "piano") que é acompanhado com arroz de feijão, picante caseiro e, desejavelmente, uma garrafa do tinto da casa que tem por virtude conferir a necessária "transparência" democrática. Também a feijoada e o cozido são afamados nesta casa e a fila que diariamente se forma à porta (qual mesa de voto da nossa participada democracia) é a prova de que por certas coisas vale a pena esperar.
"Meninos, se depois quiserem nós pomos mais um bocadinho", diz uma das cozinheiras.
No que diz respeito ao serviço, podemos contar com eficiência, simpatia e metodologias modernas de comunicação e facturação (gritos da sala para cozinha e conta escrita na "toalha" de mesa). No fim da refeição podem optar pelos clássicos leite creme, pudim ou mousse "caseira", ou, para os que não podem (ou não devem) comer sobremesas, pela aguardente do Sr. João. Por fim, e como os impostos são um mal necessário prescrito pelo afamado mas invisível "Contrato Social", também no Zé dos Cornos há uma conta para pagar. Porém, ao invés do que sucede nas nossas democracias ditas liberais, o valor da conta é bem mais reduzido, muito mais justificado e verdadeiramente voluntário.
Brincadeiras e ironia à parte, o Zé dos Cornos é um espaço que recomendo vivamente a todos os que quiserem experimentar o melhor das tascas lisboetas e da cozinha portuguesa, num ambiente livre, bem-disposto e muito, muito amigável.



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