A polémica das MMA

 
Royce Gracie (à direita) é descendente de uma família brasileira de lutadores que remonta a 1914 e foi o primeiro campeão do UFC. O seu irmão Rorion foi o fundador da competição.


Com a morte do lutador João "Rafeiro" Carvalho notei na imprensa e comunicação social portuguesa uma natural insatisfação, surpresa e repúdio a esta "coisa" das MMA ("Mixed Martial Arts"). Porque tenho vindo a acompanhar um pouco o meio desde o aparecimento do fenómeno Conor McGregor, naquele que é actualmente o maior campeonato da modalidade, o UFC ("Ultimate Fighting Championship"), resolvi escrever este post. Para os que não sabem, as artes marciais mistas, tal como o seu nome indica, são um "estilo de luta" que inclui tanto golpes de combate em pé, como técnicas de luta no chão. Assim, a variedade de técnicas permitida é amplíssima, sendo lícita a utilização dos punhos, pés, cotovelos, joelhos, tal como técnicas de imobilização e submissão. Pela sua natureza abrangente, as MMA permitem e promovem o confronto entre vários estilos de artes marciais e desportos de combate, como o boxe, wrestling, kickboxing, jiu-jitsu, karate, judo, muay thai, etc.

Conor "The Notorious" McGregor"

Quando começou no início dos anos 90, o objectivo do UFC era encontrar a arte marcial mais eficaz, colocando em confronto lutadores de várias disciplinas, pesos e tamanhos. Com a evolução e sucesso deste formato, os lutadores, para fazer frente às suas fraquezas e debilidades, passaram a incorporar técnicas de vários estilos de artes marciais, dando origem ao termo artes marciais mistas. Por pressão das autoridades americanas também as regras do UFC foram alteradas, sendo introduzidas categorias de peso, a utilização obrigatória de luvas e sendo algumas técnicas e condutas mais agressivas (como o "fish-hooking", pontapés a adversários caídos, cabeçadas, etc.) limitadas ou mesmo banidas. Nos dias de hoje o UFC goza de uma popularidade à escala mundial, assumindo-se como um evento desportivo e de entretenimento com regras definidas, combates com doses iguais de técnica e brutalidade e, claro está, muita emoção.

O evento UFC 193.

Qualquer pessoa que tenha estudado história não estranhará a popularidade do UFC. Afinal, o ser humano desde muito cedo se envolveu em competições de luta, com objectivos que iam desde a glória pessoal dos lutadores até à sua própria sobrevivência, tudo ao mesmo tempo que se aproveitava para entreter e pacificar as massas. É por isso muito importante distinguir entre a evolução dos espectáculos de combate propriamente ditos (desde o "pankration" como modalidade olímpica na Antiga Grécia até ao UFC de hoje) e o  desenvolvimento das artes marciais, como sistemas de combate complexos que envolvem não só destreza e força física, mas também, e na maior parte das vezes, um conhecimento profundo de uma tradição, cultura, filosofia e atitude espiritual, pautando-se pelo seguimento de variadas regras e rituais.

 Cena de pankration impiedosamente gamada da Wikipédia.

Não obstante esta importante distinção, pergunto-me se  a vertente espectáculo/competição é totalmente dissociável da introversão associada ao aperfeiçoamento de uma arte marcial? Nunca pratiquei nenhuma arte marcial, muito menos de forma competitiva, mas não posso deixar de colocar um conjunto de questões que acho essenciais para pensar neste tema com seriedade: Deve um virtuoso num determinado estilo de luta ser impedido de voluntariamente se exibir ou competir para testar o seu potencial e obter reconhecimento, colocando à prova as técnicas que aperfeiçoou durante anos? Não existem já nos nossos dias competições de judo, boxe, taekwondo, karate ou kickboxing? Em todas estas competições não existe sempre um risco de lesão irreversível ou até mesmo morte? Em que medida é possível extinguir ou até mesmo mitigar esse risco? Quando é que a competição desportiva dá lugar ao espectáculo de violência gratuita?

Mike Tyson (à direita), reconhecido por todos como um dos melhores da história do boxe. Desportista ou gladiador?

Confesso que costumo tender sempre para a liberdade e autonomia do indivíduo, identificando-o como o senhor e dono da sua vida, e, consequentemente, das suas escolhas. Existem, claro está, obstáculos naturais impostos pelos costumes, leis e convivência social que variam conforme as culturas, tradições e povos. Na Tailândia, por exemplo, os lutadores de muay thai começam as suas carreiras aos 5/6 anos, passando por longuíssimas provações e treinos, naquilo que aqui no Ocidente se poderia mesmo considerar "maus tratos" ou "exploração infantil". Não obstante, para estas crianças, e à semelhança do que representa por exemplo o futebol, esta poderá ser a sua única possibilidade de sair da miséria a que aparentemente estariam condenadas. No Brasil o jiu-jitsu tem tido uma influência muito positiva nos jovens de bairros mais desfavorecidos, impedindo que estes se dediquem à criminalidade e incutindo-lhes valores ou pelo menos um estilo de vida mental e fisicamente mais saudável. Estas realidades são-me culturamente tão distantes que tenho dificuldades em formar sequer um juízo de valor sobre vidas e muito menos condená-las a priori.

De acordo com os Mestres desta arte marcial, o muay thai confere às crianças disciplina pessoal, capacidades de socialização, auto-estima, respeito, sentido de equipa e confiança.

O UFC tem milhões de fãs, mais de 500 atletas de nacionalidades, origens e meios completamente diferentes, árbitros, juízes, apresentadores, treinadores e equipas técnicas. Todas estas pessoas de uma forma ou outra dedicam a sua vida ou parte dela ao desenvolvimento, promoção ou visionamento de um desporto/espectáculo que requer disciplina, dedicação e treino. Todas estas pessoas o fazem de forma livre e voluntária. Todos conhecem os riscos e os perigos inerentes a uma actividade que envolve o contacto físico. A modalidade desenvolveu-se, tem regras, e continuará, melhor ou pior, a evoluir. Uma coisa não mudará: não será a última vez que dois seres humanos se irão voluntariamente confrontar para testar a sua força, técnica, resistência e velocidade, sabendo que desse confronto poderão resultar lesões, desfiguramentos, paralisias e até a morte. Com isso poderemos sempre contar, uma vez que o ser humano quererá sempre controlar o seu destino e não deixar que outros o façam por si. Por isso, da próxima vez que virem um combate de qualquer coisa que seja, perguntem-se pelo menos o que faz aquelas duas pessoas defrontarem-se. Entre lutar contra um homem ou contra a fome, a pobreza, o anonimato ou a irrelevância, talvez a escolha não seja assim tão difícil de compreender.

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