China #1 - Introdução e desmistificação de alguns mitos

Duas semanas de viagem na China são fonte (quase) inesgotável de material para pensar e escrever. Tenho andado às voltas na minha cabeça acerca da melhor forma de relatar uma viagem que me mostrou que do outro lado do mundo se vive numa dimensão paralela, embora com vários pontos de contacto com o Ocidente. 

Neste sentido, concluí que faz mais sentido dividir a minha abordagem em função de cada cidade que visitei (Pequim, Xangai, Hong Kong e Macau), sendo que cada uma delas me forneceu inspiração para mais do que um artigo. Ainda assim, este artigo é meramente introdutório e alusivo a algumas questões e pré-concepções que acho importante afastar quando se fala da China (pelo menos da que pude ver).

Calma, ainda não vou falar disto. É só para tornar o artigo viral.

A sabedoria popular portuguesa professa que os chineses são um povo com hábitos de higiene duvidosos, apetências alimentares ainda piores e uma dificuldade geral em acatar regras de mínimas de convivência social. Munido desta informação que não se encontra nos livros (em parte talvez porque seja falsa), aterrei em Pequim às 15h30 de uma Terça-Feira, preparado para enfrentar os obstáculos colocados por um país fechado, pouco civilizado e alegadamente hostil.

Trânsito

Uma viagem de táxi do aeroporto até ao hotel permitiu-me observar que a utilização do cinto de segurança, o uso do telemóvel e outros cuidados de segurança habituais no Ocidente são encarados na China como meras recomendações que são, as mais das vezes, desconsideradas. No entanto, enquanto nos deslocávamos numa autoestrada em condições impecáveis que ligava o aeroporto ao centro da cidade e rodeados de centenas de veículos que não usavam sinais de luzes, apitavam incessantemente e não tinham qualquer pejo em mudar subitamente de faixa, não pude deixar de reparar na ordem existente dentro daquela aparente desordem. 

Regra básica para um peão: os carros têm sempre prioridade.

Para um português habituado a ouvir que o sem-número de regras com que convive é necessário para evitar a barbárie e a anarquia, pareceu-me bastante demonstrativo da nossa candura e inocência que uma cidade com o dobro da nossa população sobreviva bastante bem com condutores que cá seriam considerados autênticos arruaceiros. No total devo ter visto dois ou três acidentes, tudo em avenidas com cerca 40km de comprimento e sem o abrandamento do tráfego característico da prática do mironismo, arte que felizmente ainda não se difundiu por estas bandas. 

Higiene urbana

Outro dos aspectos que me surpreendeu foi a limpeza das ruas, com quilómetros e quilómetros de passeios imaculados. Desde as avenida principais onde se concentram os serviços de comércio, restauração e hotelaria até ao hutong (bairro típico) mais obscuro, existe uma preocupação (provavelmente "incentivada" pelas autoridades) com a limpeza da via pública. Uma vez mais me lembrei da nossa querida cidade de Lisboa, com uma vastidão tal que impede os bravos serviços camarários de recolherem de forma eficiente o lixo e tive vontade de rir ao constatar que a capital da China (e o resto das cidades que visitei, para esse efeito) são muito mais asseadas que a nossa civilizada e europeia Lisboa.

Wangfujing Street.

Também a existência de casas-de-banho públicas em tudo o que é sítio foi uma novidade. No metro, em lojas, nos monumentos, a multiplicação de lavabos seria um milagre certamente bem-vindo em paragens como o Bairro Alto ou o Cais do Sodré.

Não obstante estas primeiras constatações, é importante referir que os mitos vêm de algum lado. Com efeito, o povo chinês tem alguns hábitos (aparentemente milenares) com os quais os ocidentais inevitavelmente se confrontam. Um deles é o de escarrar cuspir muito. Para o passeio, estrada ou para o caixote do lixo, os cidadãos (e cidadãs) chineses praticam frequentemente este acto de limpeza interior, obrigatoriamente precedido de advertência sonora. A início estranho e desagradável, o ruído mistura-se rapidamente com a cacofonia da cidade e em pouco tempo ganha a mesma relevância de uma buzinadela.

Por fim, e porque é sem dúvida uma característica única de Pequim, os níveis de poluição registados nesta cidade são muito elevados. Dependendo da altura do dia, podem mesmo implicar que a pessoa tenha de ficar dentro de casa e aguardar que o "tempo" melhore. Este foi sem dúvida o elemento mais desagradável de toda a viagem e um sério contratempo a quem vive nesta cidade.

Estão a ver esta majestosa "neblina" que cobre a Cidade Proibida? Pois...

Hábitos alimentares

O povo chinês é saudável e trabalhador. Arroz, massa e legumes compõem grande parte de uma dieta que se reparte por várias refeições diárias. Assim, é normal encontrarmos tasquinhas e restaurantes com clientes a qualquer hora do dia e da noite.

Quem nunca teve vontade de trincar um cavalo-marinho antes de se ir deitar?

Apesar das histórias e notícias que ouvimos, não é muito frequente encontrar nas grandes cidades pessoas a comer cães, gatos, escorpiões, abelhas ou qualquer coisa que não seja massa ou legumes. Como disse, os chineses gostam mesmo é de massas e legumes, seja sob a forma de noodles, servidos em hotpots, ou apresentados em dumplings. Não prometo que lá para o meio não estejam restos mortais do melhor amigo do homem, mas pelo menos não é tão perceptível quanto poderia à primeira vista parecer.

Isto supostamente é porco. E se não for? Paciência, já passou mais de uma semana.

Segurança

Nunca me senti tão seguro numa cidade como nas cidades da China. Vemos polícia em todas as ruas, nos transportes, superfícies comerciais e monumentos. No metro existe inclusivamente detector de metais e bagagem, um vidro ao longo das plataformas que filtra e organiza as pessoas, ao mesmo tempo que impede que estas caiam (voluntária ou involuntariamente) para a linha. Andar com passaporte e documentos é essencial porque são regularmente pedidos e examinados por todo o tipo de autoridades. Este aparato de segurança é também uma resposta do governo à ameaça global do terrorismo, embora perceba que para um cidadão chinês isto possa promover abusos mais ou menos frequentes às suas liberdades. Não obstante, para um turista europeu é impressionante a sensação de segurança que todo este controlo transmite.

À entrada de cada hutong é comum ver-se polícia ou seguranças.

Sei o que estão a pensar, não se agitem. Os artigos com os monumentos, restaurantes e paisagens estão na forja e serão publicados em devido tempo. Pensem no presente texto como uma introdução a um país sobre o qual de facto sabemos muito pouco mas inventamos muito. Essa é uma das coisas que viajar ensina: por muito que gostemos do nosso país e da nossa forma de fazer as coisas, existem sempre formas alternativas e igualmente válidas de viver. O conforto e prosperidade que atingimos no Ocidente não nos devem amolecer e fazer com que deixemos de ser exigentes só porque noutros sítios não se atingiram os mesmos resultados. A nível de transportes, infraestruturas, higiene urbana, segurança e até de (alguns) hábitos alimentares podíamos aprender alguma coisa com os chineses.

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