Todos os dias apanho o Metro para o Marquês de Pombal e dirijo-me para a já afamada Zona Norte da Castilho para trabalhar. Durante o percurso, e fruto da minha pontualidade quase kantiana, costumo deparar-me no metro e na rua com as mesmas pessoas quase todos os dias. Como tenho por hábito cultivar a cuscovilhice e gosto de alguns exercícios imaginativos começo a pensar de onde terão vindo aquelas pessoas, o que fazem, como são as suas vidas, etc. Reconheço que esta é uma patologia que deve ser provavelmente comum a todos os que usam os transportes públicos (o que explicaria o ar alienado de grande parte dos utentes do Metro de Lisboa), mas não deixa ainda assim de ser um exercício fascinante.
Dou-vos apenas um exemplo: na estação de Santa Apolónia entram sempre no metro dois indivíduos de fato que aparentam ser colegas de trabalho. Os fatos que usam são de muito bom corte e qualidade, tal como os sapatos que se encontram sempre impecavelmente engraxados. Na maior parte das vezes não usam gravata e trazem sempre um saco da Rosa & Teixeira onde, pelo que percebi, levam o almoço. Saem também na estação da Avenida, o que, tudo somado, levaria a concluir que muito provavelmente trabalham na Avenida da Liberdade. Para além disto, quando chegamos à estação da Baixa-Chiado entra também um terceiro indivíduo com um fato e sapatos ainda melhores que os deles. Cumprimenta-os cordialmente mas com um distanciamento que poderá sinalizar a existência de uma hierarquia. Também sai na Avenida.
Dir-me-ão: "brilhante dedução, é óbvio que uns tipos de fato que saem na Avenida trabalham de certeza numa consultora/banco qualquer na Avenida da Liberdade". Mas as coisas não são tão simples assim, caros amigos. Ainda não mencionei que um destes indivíduos chega a Santa Apolónia pelas 09h30 no comboio proveniente da Azambuja e que costuma também comprar o jantar no Pingo Doce da mesma estação ali pelas 19h45-20h00. Ora raciocinem comigo: porque é que um indíviduo que usa fatos de €700-€900, sapatos de, no mínimo, €150, que claramente tem itens da Rosa & Teixeira e trabalha na Avenida da Liberdade vive fora de Lisboa e compra refeições rápidas no Pingo Doce regularmente? É que deve ser pelo menos 2 horas e tal para chegar e voltar do trabalho todos os dias. Alguém que se dá ao luxo de ter fatos e sapatos bons é porque de certeza valoriza o conforto e qualidade. Então porque é que gasta 2 horas diárias em transportes públicos e come pizzas pré-cozinhadas? Será que afinal não trabalha numa boa empresa na Avenida? Trabalhará na Rosa & Teixeira? E os outros dois? Também trabalham na Rosa & Teixeira? Ou são todos apreciadores de grandes fatos e gastam o dinheiro todo nisso? Realmente só um é que tem aliança...Emfim, nada é claro.
Dou-vos apenas um exemplo: na estação de Santa Apolónia entram sempre no metro dois indivíduos de fato que aparentam ser colegas de trabalho. Os fatos que usam são de muito bom corte e qualidade, tal como os sapatos que se encontram sempre impecavelmente engraxados. Na maior parte das vezes não usam gravata e trazem sempre um saco da Rosa & Teixeira onde, pelo que percebi, levam o almoço. Saem também na estação da Avenida, o que, tudo somado, levaria a concluir que muito provavelmente trabalham na Avenida da Liberdade. Para além disto, quando chegamos à estação da Baixa-Chiado entra também um terceiro indivíduo com um fato e sapatos ainda melhores que os deles. Cumprimenta-os cordialmente mas com um distanciamento que poderá sinalizar a existência de uma hierarquia. Também sai na Avenida.
Dir-me-ão: "brilhante dedução, é óbvio que uns tipos de fato que saem na Avenida trabalham de certeza numa consultora/banco qualquer na Avenida da Liberdade". Mas as coisas não são tão simples assim, caros amigos. Ainda não mencionei que um destes indivíduos chega a Santa Apolónia pelas 09h30 no comboio proveniente da Azambuja e que costuma também comprar o jantar no Pingo Doce da mesma estação ali pelas 19h45-20h00. Ora raciocinem comigo: porque é que um indíviduo que usa fatos de €700-€900, sapatos de, no mínimo, €150, que claramente tem itens da Rosa & Teixeira e trabalha na Avenida da Liberdade vive fora de Lisboa e compra refeições rápidas no Pingo Doce regularmente? É que deve ser pelo menos 2 horas e tal para chegar e voltar do trabalho todos os dias. Alguém que se dá ao luxo de ter fatos e sapatos bons é porque de certeza valoriza o conforto e qualidade. Então porque é que gasta 2 horas diárias em transportes públicos e come pizzas pré-cozinhadas? Será que afinal não trabalha numa boa empresa na Avenida? Trabalhará na Rosa & Teixeira? E os outros dois? Também trabalham na Rosa & Teixeira? Ou são todos apreciadores de grandes fatos e gastam o dinheiro todo nisso? Realmente só um é que tem aliança...Emfim, nada é claro.
É nisto que dá pertencer àqueles grupos de pessoas que aparecem naquelas sequências fast-motion nas grandes cidades a atravessar passadeiras. Fruto da nossa rotina começamos a conhecer os anónimos que connosco a partilham. Já nos reconhecemos, sabemos como andamos vestidos, os nossos horários, ouvimos bocados de conversas ao telefone e até sabemos o que comemos ao jantar. É inegável que todo este conhecimento confere uma inusitada sensação de intimidade e conforto. Sabemos que se for preciso qualquer coisa, aquelas pessoas sabem quem somos de vista e não se assustarão com uma abordagem mais imprevisível. Talvez até possam mesmo servir como testemunhas para comprovar um alíbi. Se calhar vêem-me perder a carteira e sabem que no dia seguinte estarei à procura dela no mesmo sítio.
E as coisas que estas pessoas sabem de nós? São provavelmente os primeiros a ver-me logo de manhã, se calhar ouvem a minha música quando abuso no volume, vêm para onde vou e têm uma noção dos meus horários. "É inevitável", dirão vocês, mas não é por isso que deixamos de nos lembrar destes factos e personagens aleatórios: o casal de namorados que todos os dias atravessa o cruzamento da Joaquim António de Aguiar com a Castilho, o barman do horrendo Hotel Fénix Music a servir imperiais aos turistas franceses, um tipo estranhíssimo da Deloitte que tem uns headphones quadrados e vê anime no telemóvel (nota: não depreendam que o acho estranho por ver anime).
Falamos muitas vezes da perda de privacidade que as redes sociais e a tecnologia em geral provocaram, mas esquecemo-nos que sabemos muito mais sobre as pessoas que se cruzam diariamente connosco do que provavelmente achamos. Estas pessoas fazem parte de breves momentos do nosso dia, mas talvez já tenhamos passado mais tempo com elas na totalidade do que com certos amigos ou familiares. É uma sensação esquisita, mas quando não vejo estas pessoas durante algum tempo pergunto-me o que lhes terá acontecido. Terão mudado de vida? Sido despedidas? Terão morrido? Emigrado? Não sei se há um nome para estas pessoas, mas apelidá-los de "estranhos" ou "desconhecidos" é para mim redutor tendo em conta o tempo que passo com eles e o que me entretenho a imaginar como serão as suas vidas. Eu sei. Há quem simplesmente leia nos transportes públicos.
E as coisas que estas pessoas sabem de nós? São provavelmente os primeiros a ver-me logo de manhã, se calhar ouvem a minha música quando abuso no volume, vêm para onde vou e têm uma noção dos meus horários. "É inevitável", dirão vocês, mas não é por isso que deixamos de nos lembrar destes factos e personagens aleatórios: o casal de namorados que todos os dias atravessa o cruzamento da Joaquim António de Aguiar com a Castilho, o barman do horrendo Hotel Fénix Music a servir imperiais aos turistas franceses, um tipo estranhíssimo da Deloitte que tem uns headphones quadrados e vê anime no telemóvel (nota: não depreendam que o acho estranho por ver anime).
Falamos muitas vezes da perda de privacidade que as redes sociais e a tecnologia em geral provocaram, mas esquecemo-nos que sabemos muito mais sobre as pessoas que se cruzam diariamente connosco do que provavelmente achamos. Estas pessoas fazem parte de breves momentos do nosso dia, mas talvez já tenhamos passado mais tempo com elas na totalidade do que com certos amigos ou familiares. É uma sensação esquisita, mas quando não vejo estas pessoas durante algum tempo pergunto-me o que lhes terá acontecido. Terão mudado de vida? Sido despedidas? Terão morrido? Emigrado? Não sei se há um nome para estas pessoas, mas apelidá-los de "estranhos" ou "desconhecidos" é para mim redutor tendo em conta o tempo que passo com eles e o que me entretenho a imaginar como serão as suas vidas. Eu sei. Há quem simplesmente leia nos transportes públicos.
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