No meu dia de anos, aprender com Freddy Adu

Todos os rapazes pensam, em alguma altura das suas vidas, tornar-se jogadores de futebol. Também eu já o fiz e embora sempre soubesse que por várias razões esse seria um sonho dificilmente alcançável, não pude deixar de sentir uma certa tristeza quando comecei a ver os anos passar e malta mais nova que eu a vingar nos grandes clubes europeus. Comecei a sentir-me adulto a partir do momento em que comecei a ter a idade dos jogadores de futebol.

Por força deste "sonho" que fui acalentando, tornou-se inevitável não ter acompanhado com atenção (e emoção) a carreira futebolística de um jogador de futebol em particular: Fredua Korateng Adu, ou como é mais vulgarmente conhecido, Freddy Adu. Antes de mais, tenho perfeita consciência de que a carreira de Adu foi um flop. Desde 2008 que não consegue estar mais de um ano num clube que não seja dos Estados Unidos, contando no seu currículo com passagens goradas pela Sérvia, Turquia, Grécia e Brasil.

Freddy Adu


O principal motivo porque segui a carreira de Adu e quis que ele vingasse prende-se essencialmente com o facto de, fruto da aleatoriedade do nosso universo, partilhar com ele um conjunto de características idênticas: a data de nascimento (02.06.1989), a altura (1.70cm), o peso (65kg) e o pé preferencial (o esquerdo). Sempre achei curioso existir um jogador de futebol nascido no mesmo dia e no mesmo ano que eu com as minhas exactas características físicas e que era também canhoto. Pensei: se não vou ser jogador de futebol, pelo menos que ele consiga ter sucesso, já que, sem o seu conhecimento, tem algo em comum comigo. 

Freddy Adu começou a ser conhecido aos 15 anos na Major League Soccer dos EUA, devido à sua velocidade e capacidade física. Era titular em praticamente todos os jogos, marcava golos e fazia assistências. Jogava com indivíduos em média 10 anos mais velhos que ele. A consagração do seu estatuto de jovem promessa veio a acontecer com o aclamado Football Manager e as estatísticas que lhe foram atribuídas nesse jogo.

Com estas stats Adu facilmente se tornava num dos melhores do mundo no FM.

Depois da fama no mundo virtual, veio o hype no mundo real com a contratação de Adu pelo Sport Lisboa e Benfica, em 2007. Não queria acreditar. Na altura especulou-se que o departamento de scouting andava a jogar muito FM, mas eu não queria saber. O Adu em Portugal era para mim algo quase messiânico. Quais eram as probabilidades? 

O jogador veio para a Luz com 18 anos e a expectativa dos adeptos era enorme. A minha era ainda maior. Sou do Sporting, mas perante estes fenómenos do universo a minha emoção leva a melhor e facilmente me deixo fascinar. Não é por isso de estranhar que tenha ido ao Estádio da Luz durante o pontificado de Adu com o fito único de o ver jogar. Foi um Benfica - Marítimo e os encarnados começaram  o jogo a perder. Como se não bastasse, é assinalado um penálti contra o Benfica e o guarda-redes Quim é expulso. Para a baliza vai Hans-Jörg Butt, um veterano alemão que vinha do Bayer Leverkusen. Disse ao meu amigo Zeca (que tem a bondade de levar um sportinguista a estes jogos): "O Butt vai defender". E defendeu. O Benfica ficou galvanizado e mais tarde igualou a partida por Óscar Cardozo. O jogo precipitava-se para o fim e Freddy Adu ainda estava no banco. Eu não parava de repetir: "se o Adu entrar vai ser decisivo"; "o Adu vai entrar, marcar e eu vou chorar". Adu entrou. Adu marcou o golo da vitória nos últimos minutos e eu não consegui evitar a comoção. Aquele tipo nascido no Gana, emigrado para os Estados Unidos, nascido no mesmo dia e no mesmo ano que eu, com a minha altura, peso e pé tinha marcado pelo meu eterno rival e eu estava ali a poucos metros dele ver tudo isto a acontecer.

O Adu não sabe, mas esse dia foi o melhor da carreira dele.

Esse dia bastou-me para aceitar a estranha ordem do universo e também que se calhar o Freddy Adu não ia ter uma carreira tão brilhante assim. Apesar de marcar uns golos de vez em quando, Adu não sabia jogar em equipa e não compreendia o jogo. Provavelmente ninguém o ensinou e foi mal acompanhado por agentes, patrocinadores e etc. Ficou apenas um ano no Benfica e o mesmo aconteceu no Mónaco, Belenenses, Aris de Salónica, Caykur Rizespor, Bahia, FK Jagodina e KuPS (é mesmo assim que se escreve). Aos 27 anos, os que fazemos hoje, Freddy Adu está outra vez nos Estados Unidos nos Tampa Bay Rowdies. Provavelmente já não vou voltar a vê-lo jogar num estádio, nem vou sequer conseguir apanhar um canal que transmita os seus jogos, mas sei que, para o bem ou para o mal, existe um tipo que podia ser eu que tomou a decisão de arriscar e jogar futebol, que não se deu tão bem como se calhar gostaria, mas que pelo menos teve a oportunidade de me mostrar naquele dia o que poderia ter acontecido se as minhas decisões tivessem sido outras.

Somos na maior parte das vezes educados para desenvolver aversão ao risco e ao desconhecido, mas a história de Freddy Adu mostrou-me que há sempre quem tome as decisões que nós não tomamos. Por vezes corre bem, noutras nem por isso, mas momentos de classe, magia e espectáculo acabam por acontecer quer se escolha uma vida mais convencional ou outra um bocado mais imprevisível.

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