Um dos dias mais tristes da minha vida enquanto amante de futebol foi quando Pep Guardiola deixou de ser treinador do Barcelona. Habituara-me durante quatro anos a ver uma equipa provar semanalmente que era possível dominar totalmente o jogo e o adversário, ganhar e praticar o melhor futebol que já alguma vez vi. Juntando intérpretes extraordinários a um treinador singular, aquele Barcelona ganhou uma aura de invencibilidade que se materializou na sua forma mais perfeita ao obrigar o seu rival de sempre, treinado pelo (à data) melhor treinador do mundo, a apresentar-se regularmente com três médios-defensivos e uma dureza na disputa dos lances que roçava as artes marciais.
Condicionar desta forma clubes como o Real Madrid, o Manchester United, Chelsea ou Bayern de Munique, foi para mim a prova definitiva que o "jogar bem" não se esgota nos 90 minutos de um jogo de futebol. É uma aura que se cultiva e transporta para os outros jogos, que condiciona os adversários à partida, que apaixona os adeptos e que coloca uma pressão e exigência adicional nos próprios jogadores. Veja-se o rendimento actual de Messi, Busquets, Iniesta e demais contemporâneos de Guardiola no Barcelona 2008-2012. Continuam a ser indubitavelmente extraordinários como antes, mas não com a regularidade supra-humana a que nos tinham habituado. Atingir uma qualidade a roçar a perfeição e demonstrá-la semanalmente habitua mal os que gostam do jogo e do espectáculo que ele proporciona. Quando via o Barça via outro futebol, algo quase filosófico que nunca tinha sonhado existir a não ser no mundo das ideias. Mesmo quando não ganhavam a experiência era de tal forma transcendental que, mesmo quando fui a Camp Nou vê-los empatar, saí do estádio eufórico.
A influência de Guardiola no mundo do futebol foi tremenda: tornou o Barcelona na melhor equipa de sempre; tornou a Espanha (eterna perdedora) numa bi-campeã europeia e campeã mundial; "obrigou" a uma mudança na mentalidade alemã, passando os jogadores teutónicos a ser seleccionados com base no seu talento e inteligência ao invés das suas características físicas; deu aos guarda-redes um novo papel como elementos activos na construção e organização ofensiva das equipas; deu a equipas com menos capacidade para captar talentos as ferramentas e mecanismos para praticar um futebol dominante e verdadeiramente colectivo, aumentando assim as suas hipóteses de vencer; obrigou os seus adversários a inventar novas maneiras de defender aquele furacão de futebol ofensivo; e, acima de tudo, mostrou que o estilo e as ideias, ao contrário do que muita gente pensa, ficam na história e aproximam as equipas do sucesso.
Lembrei-me muito de Guardiola durante este Campeonato Europeu. Lembrei-me especialmente dele sempre que em Portugal se dizia que não importava jogar bem e que o que interessava era ganhar. Que o que fica para a história são os resultados, as conquistas e os troféus. Lembrei-me especialmente dele quando dei por mim a pensar: "Que se lixe o futebol da Selecção, vamos mas é ganhar isto!" E lembrei-me porque é que adorava aquele Barcelona e porque é que Pep é diferente. Para ele o objectivo não é vitória a qualquer custo, mas sim jogar o melhor futebol possível. Os títulos, vitórias e demais conquistas são a consequência natural de algo que é feito com o maior rigor, talento e dedicação. Os títulos são a materialização de uma ideia superior concretizada na sua forma mais completa. O mais difícil é assim criar algo verdadeiramente original, único, belo. A Grécia já ganhou um Euro, o Chelsea de Di Matteo já ganhou uma Champions, o Boavista já ganhou um Campeonato Nacional. Em todas as competições (e especialmente nas de eliminar) tem de haver um vencedor. No mundo dos que almejam a perfeição o resultado não é sempre nem necessariamente uma obra-prima. Muitos tentam e não conseguem.
Ao pensar nisto lembrei-me porque é que gostava e vibrava com o futebol. Porque mais do que festejar uma vitória ou chorar com uma derrota, o que me ficava para sempre gravado na mente e no coração eram as recepções, as fintas, os remates, as desmarcações e outros movimentos que, embora repetidos até à exaustão, não deixarão de ser em si próprios a manifestação de algo perfeito em si, de um contexto de concretização progressiva e metódica de uma ideia maior. Acreditem: não me lembro do que senti quando Portugal foi à final do Euro 2004, mas lembro-me do nosso "jogar", da classe do Deco, da irreverência do Cristiano, da experiência de Figo, da realeza de Jorge Andrade e Ricardo Carvalho, da maestria de Rui Costa. Foi o que estes homens fizeram no campo que permaneceu e permanece comigo. É isso que levo enquanto amante de futebol e é disso que me vou lembrar para sempre.
No Domingo fui naturalmente festejar para o Marquês mas senti-me estranhamente vazio. Estava, é claro, momentaneamente feliz e de bom humor, mas tinha uma sensação de que ia ter dificuldade em lembrar-me deste Europeu. Vou sempre saber que o ganhámos, mas não tenho a certeza de que me irei lembrar de como jogámos, o que fizemos, o que mostrámos. Se não fosse um apaixonado pelo futebol que me mostrou Guardiola e profundo crente na sua forma de ver o jogo talvez isto não me importasse, mas não consigo deixar de sentir que algo ficou por fazer. Que o nosso futebol, o nosso jogo, a nossa capacidade, o nosso estilo, a nossa exigência foi posta de parte. E por quê? Por uma taça? Uma conquista que 9 antes de nós e muitos outros depois vão almejar? Valerá a pena esta troca? A vasta maioria dos portugueses dirá que sim, que precisávamos de uma vitória para sermos olhados como iguais, que assim ficaremos na "História". É aqui que discordo profundamente da mundivisão dos meus compatriotas. Possivelmente valorizo em demasia o lado estético e olho para este desporto mais como uma forma de arte do que uma competição, mas não consigo deixar de sentir uma empatia e identificação maior com a Selecção de 2000, de 2004, o Barcelona de Guardiola, a Espanha de 2010, o Chile de Sampaoli, a Alemanha de 2014, o Sporting de Peseiro e de Jorge Jesus, ou o Porto de Mourinho, do que com estes 23 que acabaram de ganhar um Campeonato da Europa e realizaram um feito inédito na história do futebol português.
Não pretendo insinuar que não houve mérito na vitória de Portugal, nem que a equipa e treinador não tenham dado tudo para conseguir a vitória. Não tenho a mínima dúvida de que o esforço, suor e lágrimas tenham sido abundantes. Creio que esta conquista deve ser muito mais saborosa para os emigrantes do que para mim que tenho uma vida relativamente despreocupada e não habituada a um constante esforço e sofrimento. Simplesmente não consigo valorizar o esforço e a sorte da mesma forma que valorizo o talento puro, a genialidade, a visão e o compromisso eterno com a qualidade. A culpa é do Guardiola que me mostrou que a prioridade é jogar o melhor futebol e, como consequência, ganhar. Aliás, a culpa é de todos os treinadores, jogadores e pessoas que são exigentes consigo próprias e que põem as suas qualidades a render ao máximo, procurando modelar as suas vidas e realizar o seu trabalho da forma que entendem ser a mais aproximada da perfeição, mesmo que tal não satisfaça as expectativas dos outros ou que vá contra a mentalidade instituída. Mesmo que sejam uma desilusão. Mesmo que não ganhem.

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