A Cevicheria

Apesar de já se encontrar aberto há algum tempo e gozar de um estatuto consolidado como um dos melhores restaurantes de Lisboa, "A Cevicheria" era, até à semana passada, um espaço que nunca tinha visitado. Fruto das inúmeras referências em guias da especialidade, amigos, familiares, programas de televisão e rádio, construí deste restaurante uma imagem de qualidade absoluta, máximo detalhe e serviço inatacável. Infelizmente, não foi essa a minha experiência. 

Nada a apontar à decoração, contudo.

Em primeiro lugar, quem pretenda ir à Cevicheria (eliminemos o desnecessário "A", ok?) tem de colocar o nome numa lista e aguardar pela sua vez à porta. O espaço é pequeno e muito requisitado, pelo que se entende perfeitamente a opção por um serviço sem reservas. O que não se percebe tão bem é a total ausência de um mecanismo de contacto remoto entre os clientes e o restaurante caso aqueles pretendam utilizar o seu tempo de espera para outra coisa que não beber um cocktail à frente do estabelecimento. Com efeito, e porque as mesas no exterior estavam carregadas de estrangeiros a beber pisco sours (bebida que desde já recomendo) optei por ir beber um copo numa esplanada próxima (até porque tinha 5 mesas à minha frente), tendo para o efeito perguntado aos empregados se era possível ligar para o restaurante para saber do andamento da fila de espera em que já se encontrava o meu nome. Foi-me dito num tom desagradável e de algum desdém que tal não era possível. Como não tenho por hábito ficar dependente do mau humor das pessoas optei à mesma por esperar noutro sítio. Passados 25-30 minutos voltei ao restaurante para inquirir acerca da minha precária situação. A empregada anunciou de forma quase triunfante que teve de passar um casal à nossa frente porque não comparecemos de imediato à "chamada". Bem sei que um restaurante do tamanho e com o pricing da Cevicheria não se pode dar ao luxo de reservar mesas, mas adoptar uma estratégia reminisciente das marisqueiras algarvias também não me parece ser solução. No Mercado Timeout temos os aparelhómetros que vibram quando chega a nossa vez e, na falta disso, também existe aquela tecnologia revolucionária chamada telefone.

Por fim, lá consegui entrar e sentei-me na fila de mesas junto ao espelho que domina a parede do lado esquerdo. Já se referiu que o espaço não abunda e o mesmo ficou comprovado quando constatei que conseguia ouvir na íntegra a conversa das mesas ao lado sem grande esforço. Para tal também contribuiu decisivamente um casal de portugueses manifestamente embriagados em pisco sours (aproveito para voltar a recomendar esta bebida) que mais não fazia do que berrar um para o outro as personalidades e famosos que conheciam. 

No que diz respeito à comida, começámos com o Gaspacho de Vieiras que se apresentou de forma sólida, mas sem surpreender, dado que as vieiras, apesar de terem uma consistência assinalável, encontravam-se desprovidas de grande sabor. A estrela do prato foi sem dúvida as ovas de salmão, mas mais pelas qualidades que lhes são inerentes do que por arte ou engenho do Chef.

Gaspacho de Vieiras, Tapioca, Lima e Ovas de Salmão.


Pedia-se uma apresentação melhor. Estas tigelas não acompanham o nome nem os preços da casa.

De seguida, fomos para o Ceviche de Salmão e aí ficámos desiludidos. O prato, apesar de sul-americano, não revela nada de interessante ao nível da sua acidez, tempero ou frescura. A ausência total de picante (nem que fosse um bocadinho) amarrou-o ainda mais à sua normalidade, algo verdadeiramente inaceitável para um restaurante que se denomina como "A Cevicheria". No Sábado anterior tinha ido a um restaurante de ceviche em Londres e nem queria acreditar que os ingleses tinham conseguido confeccionar uma versão muito mais rica deste prato que um português (desculpem o racismo gastronómico).

Ceviche de Salmão, Tapioca, Puré de Feijão, Edamame, Amendoins e Leite de Tigre com Coco.


Por fim, experimentei o Quinoto do Mar (Quinoa com Camarão, Berbigão, Mexilhão, Peixe Branco, Algas, Espuma de Ostras e Kombu) e estava tão bom que me esqueci de lhe tirar uma fotografia. A sério. Este foi o único prato que justificou a ida ao restaurante, dado que o equilíbrio entre sabores, texturas e consistências foi praticamente perfeito. A acompanhar a refeição esteve o infame pisco sour, aqui já duas vezes recomendado e agora explicado. É basicamente um cocktail feito à base de aguardente de uva (o pisco), sumo de limão (o sour), xarope e claras de ovo. A bebida é tão boa que o casal ruidoso acima mencionado gastou 70€ a consumi-la, o que justifica também a sua falta de "compostura" bem antes das 9 da noite.

Como nota final, cumpre ainda dizer que o serviço, apesar de eficiente e rápido, não primou propriamente pela simpatia, denotando-se antes sim uma preocupação excessiva com o velho "aviar serviço" das também já referidas marisqueiras algarvias. Notem que nada me move contra estas últimas, dado que vou sempre visitá-las, ano após ano. Porém, tem de existir uma diferença clara no posicionamento de um restaurante que se assume e pretende de topo na capital e um restaurante simplesmente destinado à confecção e venda de marisco no sul de Portugal. A impressão com que fiquei da Cevicheria é muito parecida à que tenho sobre "O Talho", outro restaurante do Chef Kiko. A ambição é grande, o marketing é muito bem feito, a estética está lá, mas falha o essencial: o sabor e o serviço.

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