Oh não, mais um artigo sobre festivais!

Calma, não é só mais um artigo (tecnicamente até é, mas prometo que vão ser abordadas questões que transcendem em muito a mera crítica à organização, aos preços ou àquela banda que adoramos mas que se estava completamente nas tintas para nós).

Há  muitas coisas que gosto nos festivais de Verão: dos alinhamentos  e da organização em geral, da qualidade das infraestruturas e do foco quase exclusivamente dirigido para o consumidor (existem festivais para pessoas que costuram as suas próprias roupas, para pessoas que deixam de gostar das bandas assim que atingem mais de 100 reproduções no Spotify e para pessoas que na verdade queriam ir ao Mega Picnic Continente mas que não se importam de ir recolher brindes para outro sítio). 

"Esses festivais a que vocês vão agora é só DJs. Já nem há músicos!"

Não obstante as grandes performances e os verdadeiros espectáculos de iluminação que podemos testemunhar, não são essas coisas o que mais me impressiona nos festivais.  Quando vou a um festival fico sempre surpreendido com a massa humana que ali se acumula. Não é o facto de presenciar os milhares de pessoas que se deslocam a um sítio para experienciar algo de forma colectiva e que até se pode assemelhar de certa forma a um culto. Não. O que me excede e tenho dificuldade em apreender é a quantidade de pessoas ali presente e a sensação de insignificância e pequenez que esse facto me transmite. Ver materializada ali à minha frente uma amostra da quantidade absurda de pessoas que existe no mundo atira-me para uma realidade quase relativista.

Não me refiro a relativismo moral. Esse dá direito a ir para o Inferno.

Todas estas pessoas têm sonhos, aspirações, vidas e projectos. Todas são, à partida, únicas na sua identidade e experiência pessoal.  Todas, de certa forma e à sua maneira, já pensaram em algum momento da suas vidas mudar significativamente o mundo em que existem, deixar a sua marca. Não obstante, o seu impacto real no universo é reduzidíssimo, se existente. Na minha realidade, naquilo que percepciono, a esmagadora maioria destas pessoas não teve provavelmente qualquer influência. 

Estas considerações generalistas e existenciais que mais não são do que a constatação de que o Universo é grande demais para a nossa minha compreensão levam-me a associar os festivais e os concertos ao que de mais aproximado temos de uma viagem ao espaço. Na impossibilidade financeira e conjuntural de visitar a Lua, a Estação Espacial Internacional ou qualquer outro ponto realisticamente atingível pelo ser humano, a única realidade quotidiana que me permite perceber o quão pequeno sou são as multidões.

Neste caso até estou maior que a multidão, mas vocês percebem onde quero chegar.

Uma característica que sempre admirei nas pessoas é a sua auto-estima e confiança (prometo que isto está relacionado com o que acabei de escrever). Um dos grandes motivos para, por vezes, vacilar neste aspecto é saber que os meus talentos e o que sei fazer são executados de forma muito mais brilhante por milhões e milhões de pessoas no mundo. Penso: "o que faço em nada altera o mundo porque já foi feito e continuará a ser feito por gente infinitamente mais capaz e talentosa". Este pensamento acompanha-me sempre e penso que nunca será afastado totalmente. Existirá sempre dentro de mim (e provavelmente dentro de outros) a dúvida de saber se o que estou a fazer é o que realisticamente consigo fazer da melhor forma.


Mas também é por isso que gosto de festivais e das suas multidões. Porque essa  multidão que me faz duvidar da minha importância do mundo também está ela própria carregada de pensamentos e dúvidas similares. E se no meio de todas aquelas pessoas estão indivíduos muito mais capazes que eu e que vão ter um impacto muito mais positivo no mundo, também é verdade que nem esses se encontram imunes às inseguranças associadas à vida em geral. A forma como cada um enfrenta esses medos assume uma infindável variedade de possibilidades que atravessam a religião, as espiritualidades, ideologias, família, carreira, um misto de todas estas, ou algo completamente diferente.  


Porém, algo que nos "une" é o facto de sermos todos assaltados por estes medos. Tal factor torna-se assim poderoso o suficiente para criarmos empatia uns com os outros e nos compreendermos. Até para nos sentirmos bem na presença um dos outros. Se todas estas pessoas estão ali naquele festival é porque pensam que isso vale a pena. Que independentemente dos medos e receios, sucessos e falhanços, vale a pena passar aquele intervalo de tempo na companhia de outros tantos milhares tão confusos, inseguros, brilhantes e medianos como eles. Não sei se todos pensam como eu, mas sei que quando estou num festival, rodeado de milhares de desconhecidos, sinto-me seguro. Seguro porque consigo relativizar e circunscrever as dúvidas da minha vida. Seguro porque sou tão pequeno que tudo continuará a existir depois de mim. Seguro porque isso significa que posso fazer virtualmente o que quiser. Seguro porque tenho um cheque em branco nesta coisa tão mal explicada, incompleta e curta que se chama existência.

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