O Fuso

Quando pensamos em teorias da conspiração famosas vem-nos à cabeça os Illuminati, a Área 51 ou a falseada ida do homem à Lua. A verdade é que, por muito mérito que estas conjecturas possam ter, todas, sem excepção, cedem perante a incontestabilidade que merece a mãe de todas as conspirações. Falo, é claro, do facto de só chover ao fim-de-semana.

Esta triste realidade levou a que, ao longo das últimas semanas, me dedicasse a pensar em programas que não fossem afectados pelo miserável estado do tempo que nos é reservado para os dias em que podemos estar na rua às 16h sem que isso mereça censura social. Só depois é que me lembrei que uma ida ao restaurante "O Fuso" é suficiente para combater os maus humores de S. Pedro.

Já estão a perceber porquê.

O Fuso é um restaurante na Arruda dos Vinhos conhecido pela qualidade e doses generosas do seu bacalhau assado. É um local obrigatório para todos os apreciadores do fiel amigo e para todos os que gostem de almoços tardios em estabelecimentos com capacidade para servir pequenos exércitos e um ambiente familiar e caloroso (nos dois sentidos).

Pela sua localização geográfica, dimensões e tipo de cozinha, o Fuso é ideal para famílias que não sabem o que fazer num fim-de-semana chuvoso. De facto, o passeio até à Arruda dos Vinhos, o inevitável tempo de espera e o labor e dedicação necessários para enfrentar uma travessa do Fuso são ingredientes suficientes para ocupar uma tarde de Domingo e tornar desnecessária a ingestão de comida nas 24 horas seguintes.

Bacalhau proveniente do famoso "Mar da Arruda".

A qualidade do bacalhau convida pecaminosamente a excessos. Seja pelo facto de quase se derreter na boca, seja pelas doses necessárias (leia-se, exageradas) de azeite e alho, a verdade é que este é um dos poucos sítios que me votam ao mais profundo silêncio durante a hora da refeição. Estar sentado em família numa sala cheia de pessoas da mais variada proveniência enquanto se ouve a chuva lá fora e se prova este manjar é provavelmente a melhor definição que consigo arranjar para o chamado "sentimento de comunidade". Aqui todos temos o mesmo objectivo, todos nos esquecemos das nossas diferenças e todos nos unimos em torno da mesma missão. Pronto, alguns comem carne, mas todas as comunidades têm os seus párias.

Uma "dose" de bacalhau assado.

Para os mais corajosos (ou inconscientes) está ainda reservada uma sobremesa cujo impacto na minha vida ombreia com o meu primeiro beijo ou a conclusão da minha licenciatura. Não sou por norma adepto de sobremesas, mas a simplicidade e o prazer de um prato com doses iguais de massa folhada e açúcar leva-me a renegar os meus princípios nesta matéria e a agradecer profundamente às pessoas que contribuíram para esta descoberta. Vocês sabem quem são.

O "Folhado".

No final, ficam umas horas para passar estendido no sofá a relembrar com emoção a experiência e fingir que no dia seguinte não se tem de ir trabalhar. Mais importante do que isso, ficam também memórias das pessoas que connosco partilharam esses momentos e de um espaço que recebe com alegria todos os que lá comparecem com menor ou maior frequência. Vamos ao O Fuso não só para comer, mas também para nos recordarmos que é possível ter mais do que um sítio ao qual chamar "Casa".

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