Linguagem

Sempre achei que tinha jeito para línguas. Consigo reter com facilidade termos, frases e expressões ouvidas fugazmente em músicas, filmes, artigos e livros. Costumo até dizer que o espanhol que arranho se deve única e exclusivamente à pobreza da nossa indústria de dobragem que me sujeitou a 10 anos de Canal Panda no linguajar de Cervantes.

Também o inglês foi de fácil aprendizagem, ora não fosse a minha preferência por tudo o que não fosse música portuguesa, jogos de computador com muitíssimos diálogos e filmes sacados no Kazaa e Limewire sem o respetivo ficheiro .srt (a alternativa, legendas em Português do Brasil, tornava qualquer drama num filme de comédia. Veja-se O Padrinho Pt. II que no Brasil é conhecido por “O Poderoso Chefão 2”).

Mesmo línguas que não domino, como o francês ou o italiano, são compreensíveis se obtido o contexto ou fazendo o esforço de as ler com atenção, sendo minimamente relacionáveis com o português. Imagino que o mesmo se possa passar com outras línguas mais exóticas, caso investisse esforço e tempo na sua aprendizagem, algo que os avanços tecnológicos e a IA francamente me desencorajam de fazer.

Não obstante estes três parágrafos de auto-elogio mal disfarçado, há uma língua que tenho a certeza que não vou dominar. Não se trata de um dialecto das tribos ainda por descobrir na Amazónia Peruana, mas tão somente do português técnico falado por electricistas, carpinteiros, mecânicos, agricultores e todos os que desempenham atividades manuais. Acho que isto se deve, desde logo, ao facto de ser uma linguagem intimamente ligada à experiência e à representação visual e funcional de saberes e objectos com que nunca interagi ou que não sei utilizar.

Querem um exemplo? Sabem aquelas tiras de plástico que se unem nos extremos e são usadas nos filmes de gangsters para amarrar pulsos e tornozelos? Chamam-se abraçadeiras. Abraçadeiras. Nunca lá chegaria se não tivesse visto uma embalagem numa drogaria hoje de manhã. Conhecendo o nome, a coisa torna-se óbvia porque, de facto, a sua função é similar à de um abraço, mas esta aparente simplicidade pura e simplesmente escapa-me.

O problema desta língua para mim é que os seus conceitos, referências e peças não são auto-explicativos (nem explicativos, de todo.). Não há nada nestes que, intuitivamente, me leve a concluir qual a sua função ou propósito. Como, aos meus olhos, se trata de um universo altamente desagregado e sem elos visíveis entre si, não consigo associar as partes para construir um todo, e aí perco qualquer possibilidade de sentido. Novo exemplo: olhando ou ouvindo a expressão “camarão” jamais concluiria que esta peça serve para prender um parafuso à parede (Estão a ver? Nem sei explicar apropriadamente para que serve um “camarão”. Um carpinteiro diria provavelmente “fixar” ou algo do género).

As dificuldades agravam-se quando preciso de falar com um mecânico ou um electricista para comprar uma peça ou pedir uma reparação. Não existe um ponto comum de referência entre nós, porque não percebo patavina de motores ou sistemas eléctricos, nem, sequer, os seus princípios de funcionamento. Para mim, é similar ao que acontecia na Roma Antiga quando se chamavam os Augures para desvendar o futuro nos voos e entranhas dos pássaros. Explicar o problema é, desde logo, um problema e pior se torna quando começam a fazer perguntas ou sugestões porque partem sempre (mas sempre) do princípio de que sei do que estão a falar e que estou munido da mesma experiência e jargão técnico para encetar uma conversa ao seu nível.

A minha experiência é, na maioria das vezes, um acto de fé similar à deposição de velas e contemplação de um Santo. Tenho de estar muito concentrado para destrinçar se naquilo que o técnico está a dizer existe alguma expressão ou conjunto de vocábulos que me dê alguma pista quanto àquilo que é esperado de mim, embora me aconteça sempre como a São Tomé e acredite sem realmente ver:

- Depois olhe, é só fazer uma juntada com aquela cabeça que roda, o transformador dá de si e percebe logo se pode ligar o sistema. Se não conseguir, também é fácil. Está a ver aqui este dedo mais saliente? É só pressionar ligeiramente com um cabo de uma chave que tenha aí à mão, ajustar o ângulo e a coisa vai ao sítio.

- Ok, ok, faz sentido. Obrigado.

Por não saber falar nem compreender esta língua, tenho de arranjar estratégias para comunicar eficazmente. Uma das situações mais complicadas é quando um técnico não consegue fazer uma reparação porque precisa de determinada peça ou componente e pede-me que a vá comprar. Faço então questão de deixar uma nota escrita no telemóvel com a descrição exacta do objecto (p. ex.: um "furadouro ambidestro de saliência invertida”) e repito-a perante o funcionário da loja na esperança de que aquela sequência de palavras codificadas seja suficiente para obter o que preciso. 

Porém, muitas vezes o lojista aprofunda os conceitos e apresenta-me escolhas que me baralham completamente. Outras vezes, a mera aquisição da peça não é suficiente, sendo necessário escutar com atenção as instruções de utilização e aplicação do produto em concreto, o que me obriga a pedir ao meu interlocutor que se repita para garantir que consigo transmitir o criptograma resultante de modo fidedigno.

Outra das figuras tristes que faço é a de assistir ao processo de reparação propriamente dito, tentando dar mostras de que estou mesmo a compreender o que se está a passar. Adopto geralmente uma postura clássica de mãos nas ancas, foco um olhar atento e balbucio monossílabos como “Pois”, “Hum”, “Ok”, para assim validar a progressão dos trabalhos. Terminada a “intervenção” permanece uma esperança ardente de que o problema tenha ficado resolvido, similar à da absolvição de um pecado.

Apesar de todos estes esforços, sinto que a minha evolução é praticamente nula e que a margem de erro é, ainda, muito grande. O que habitualmente me acontece são interações deste género:

- Sr. João, está aqui então o circuito micro-elétrico que me pediu para fazer a instalação.

(Analisando o artefacto) - Oh! Não lhe deram na loja o cabo de variação que acompanha?

- Não, não me perguntaram nada. Mostrei aquela fotografia que me enviou...

- Pois, mas sem esse cabo não se faz nada. Algumas instalações já o têm de origem, mas a sua não. Achei que tinha reparado…

- Não, por acaso não. E agora?

- Agora vou ter de voltar cá. A menos que…não sabe se por acaso a fonte de alimentação é bi-diversa, pois não.

- Hum…pois, é melhor voltar cá, Sr. João.

Tendo reflectido nesta minha incapacidade, tenho mesmo pena de não compreender as ciências da manipulação da matéria, bem como alguma mágoa pelo facto de as mesmas serem amplamente praticadas e compreendidas por grande parte das pessoas, muitas delas até com habilitações literárias bastante baixas. Esta será talvez a razão pela qual não me fascino tanto com as coisas em si (carros, motas, gadgets, etc.), mas mais com as emoções e sensações que elas me proporcionam, já que pelo menos estas consigo perceber e descrever em detalhe.

Talvez nunca venha a aprender a comunicar nesta língua, mas mantenho uma vigília serena, pois pode ser que à 40.ª visita de um electricista cá a casa ou, subitamente, numa visita ao Leroy Merlin, já consiga fazer mais do que apontar o dedo e dizer que sim com a cabeça. 

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