Existe um encanto oculto nas coisas feias e inestéticas, especialmente quando utilizadas como objectos de decoração, o que constitui um acto quase revolucionário, atenta a sua inaptidão, por natureza, para cumprir um propósito de embelezamento. Existe um encanto ainda maior nas pessoas que percepcionam beleza nesses objectos, mostrando que podemos olhar para a mesma coisa e nela ver antónimos estéticos. Mais fantástico é, ainda, quando essas visões dissonantes coexistem no mesmo espaço e em relação de paridade com o que está a ser observado, quase como se fosse possível habitar diferentes dimensões da mesma realidade.
Esta tentativa de reflexão sobre o que é kitsch, percepção e gosto foi-me inesperadamente provocada pela distinta sala de refeições do restaurante O Bitoque, em Campo de Ourique. É uma tasca vivida e provavelmente conhecida de muitos, mas que sobressai pelas suas qualidades alquímicas, transformando propostas gastronómicas medianas em viagens espácio-temporais.
Em boa verdade,
tive uma experiência perfeitamente comum n’O Bitoque, expressa nuns escalopes
de perú e garrafinha de água das pedras que os excessos do final de ano
impuseram à minha consciência e num serviço correcto, mas
distraído (serviram batatas fritas em vez dos legumes prescritos pelas resoluções de ano novo).
Apesar disso, o décor absolutamente irrepreensível do espaço e que só pode ser entendido pelas imagens que aqui partilho, começou a transmutar este “bronze” em ouro, tendo a discussão que estalou na cozinha, e que rapidamente se tornou audível para todos, finalizado um processo digno de Paracelso. De repente, aquela gritaria, a total indiferença dos clientes que prosseguiam a desbastar os seus pratos de feijoada e o riso gozão dos empregados perante o litígio, revelaram-me que naquele momento não estava em Campo de Ourique, Lisboa, em Janeiro de 2025.
Estava noutro tempo e noutro lugar, num em que o consumidor é um familiar e envolvido nas alegrias e tristezas do quotidiano, em que se aceita fiado, em que não há “clientes”, mas sim “fregueses”, em que um quadro do “Menino da Lágrima” é a jóia da coroa a expôr em qualquer parede ainda por cobrir, em que a refeição termina sempre com um café “com cheirinho” e em que a conta é sempre calculada e redigida à frente do beneficiário de uma refeição servida em doses generosas.
Esta sensação animou-me o espírito e fez-me pensar que é realmente possível ver o belo no feio e a ordem no caos. Tudo estava no seu devido lugar: os ornamentos natalícios de índole mais capitalista do que católica, um bibelot perdido da Betty Boop, as garrafas meio vazias de B! Limonada a conviver na estante com vários exemplares do Tinto da Adega de Borba, um quadro com três cavalos brancos empinados à beira-mar e um relógio em forma de coruja cujos olhos acompanhavam o ponteiro dos segundos; e parecia até ensaiado, já que, após mais alguns berros do cozinheiro e apaziguamento do pessoal da sala, a querela arrefeceu e retornámos à actualidade.
No final, tendo-me dirigido à “zona de caixa” para trocar uma nota, não resisti e espreitei para a cozinha, o coração daquele corpo ancião ainda em movimento. Nele vi uma sala cravejada a azulejos de intenso azul cortado pelo brilho metálico dos electrodomésticos, tachos, panelas e bandejas, manuseadas a contragosto por duas figuras de um homem e de uma mulher que mais pareciam moldadas em barro, vestidas de branco, transpiradas e com cara de (muito) poucos amigos. O tempo pareceu parar novamente e ali pude gravar na minha memória aquela cena e a sua brutalidade.
Não sei se terei oportunidade de rever O Bitoque antes que um qualquer cataclismo (auto-infligido ou de cariz imobiliário) o encerre permanentemente, ou se as emoções ali experimentadas são, sequer, repetíveis, mas nele guardarei esta viagem e o incentivo para ver sempre o que está à minha frente de duas formas diferentes.


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