Vida de Tasca

Escrevo sobre o Vida de Tasca sem qualquer pretensão de revelar um tesouro escondido, contar a história que levou à sua (re)abertura ou, sequer, de falar dos pratos e vinhos que ali podemos consumir. Este texto não visa avaliar um restaurante, mas destacar um espaço que parece desafiar o ciclo de vida de um universo encaminhado para uma inevitável obliteração.

O que é interessante no Vida de Tasca é precisamente o seu nome, por ser extremamente difícil, senão impossível, fazer jus a esse tipo de vivência nos dias de hoje. Ninguém “respeitável” tem 2 ou 3 horas para almoçar com amigos durante a semana, nem, muito menos, justificação para juntar um café com cheirinho (ou mousse) a um palmarés onde já constam 1/2 minis (para “abrir”) e uma garrafinha de tinto (mas nada muito alcoólico para ainda se poder “trabalhar” à tarde, claro). Também já ninguém tem muita paciência para encetar conversas com a mesa do lado, mesmo quando percebe que há ali um tema que, explorado por todos, pode produzir uma epifania nas consciências mais ou menos inebriadas dos envolvidos.

Na verdade, o conceito de vida de tasca é cada vez mais incompatível com a movida urbana que nos impinge refeições “saudáveis” (sopa, alface e smoothie), deglutidas em 30 minutos à frente do computador para cumprir um prazo inadiável ou enviar um e-mail com feedback. Ninguém pode ter uma vida de tasca se está sempre online no Teams ou tem um tempo de reacção inferior a um segundo para atender mais uma chamada do “Colega”. Também é difícil aproveitar uma vida de tasca se a única altura que há para ir ao ginásio - a missa do séc. XXI – é a hora de almoço. Bem sabemos que as tascas são para ser vividas nesse período e que pratos como rim frito, cozido, chanfana ou mão de vaca não devem ser consumidos depois do sol-posto, sob pena de o nosso sistema digestivo nos convidar a uma vigília forçada.

É também muito difícil enquadrar o barulho, falta de espaço, cheiro a fritos e um serviço esforçado com as preocupações estéticas que uma ida a um restaurante exige ao utilizador das redes sociais vocacionadas para a romantização do quotidiano (Instagram, à cabeça). Uma vida de tasca não cabe num reel, dificilmente fica bem numa fotografia e é insuscetível de ser compreendida com qualquer tipo de filtro, melhoramento de imagem ou outro artifício de aperfeiçoamento. A vida de tasca é o oposto de tudo isso: é a assunção de um espírito preguiçoso e convivial, de uma total incúria no que diz respeito à saúde pessoal, do abraçar de uma procrastinação inaceitável mas epidémica nas sociedades contemporâneas e de uma orgulhosa imperfeição do “ambiente”, “serviço” e “carta”, inadmissível para quem é, como todos são, um foodie especialista há já uns bons 2 anos (ou, mais precisamente, 231 publicações e o dobro dos stories).

Apesar de cruzar os mares tormentosos da gestão de um negócio de restauração tradicional na época das “redes”, o Vida de Tasca defende com nobre propósito uma pequena cidadela cercada pelos exércitos invasores dos reinos que pedem caução para reservar mesa, dos principados do serviço em turnos, dos ducados da “partilha” como “conceito” e dos condados das ementas em inglês. Dificilmente esta fortaleza resistirá para sempre, uma vez que é difícil recrutar soldados que não se envergonhem com a defesa deste estilo de vida ignominioso aos olhos da sociedade dos KPIs e objectivos SMART. É, sim, muito mais fácil encontrar detractores destes hábitos e consumos associados por alguns a uma ruralidade que saloiamente procuram apagar.

Não sei se será possível ter uma vida de tasca hoje, mas será certamente possível vivê-la durante umas horas e, durante esses momentos, imaginar que se tem uma existência pacata numa qualquer localidade do interior onde todos são afáveis e querem o nosso bem, onde todas as obrigações e afazeres se tratam rapidamente sem sair da nossa rua e onde o tempo para as refeições e convívio está sempre garantido. Realmente, não sei quem, vivendo numa cidade, idealizará ou quererá coisa diferente para a sua vida ou porque é que pensará dessa forma. Talvez seja uma boa conversa para se ter a uma quinta-feira durante um almoço - prolongado - no Vida de Tasca.

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