António Júlio percorria estes caminhos há muito tempo. Desinteressado de compromissos e desafogado de dificuldades, dedicava-se a uma pequena galeria de obscuridades surripiadas a estudantes de Belas Artes que não lhe dava nada senão uma forma de ocupar a sua vida cada vez mais vazia.
Como é bom de
ver, o desafogo provinha de outras paragens, em concreto, de um conjunto de
prédios deixados em legado e cujas rendas permitiam a
António Júlio dedicar-se ao mundo da arte e das ideias alicerçado numa vivência
que tinha mais de material do que transcendente.
Mas António Júlio
não vagou por esta vida deslocado, nem, muito menos, desapegado das emoções e
relações humanas. António Júlio já foi casado, teve filhos, partilhou e
destruiu lares, cultivou relações amorosas e chegou ao alto dos seus 64 anos
com a consciência formada de que o Outro é, mais do que tudo, uma fonte
transitória de comodidades e prazeres.
Ora, foi em mais um desses dias corredios e improvisados que António Júlio, tendo já bebido da fonte da juventude (no caso, vinho), foi encontrar um grupo de jovens adultos em caloroso repasto nocturno num dos restaurantes onde costumava poisar. Comoveu-o logo o trato cordial e afectuoso que estes Amigos emprestavam uns aos outros. As conversas que ondulavam entre a seriedade e uma brejeirice inocente, típicas de quem só tem aquele momento para rejuvenescer umas décadas e esquecer que amanhã voltará a ser adulto.
António Júlio
lembrou-se do tempo em que teve Amigos. Não é que estivesse propriamente
sozinho - acompanhavam-no um amigo e o genro – mas o primeiro fazia-o
certamente por pena e o segundo nada mais do que por obrigação. A breve trecho
também já lá não estariam porque, ao contrário do nosso protagonista, a vida
ainda era para eles coisa séria. Munindo-se de táctica fanfarrona - um
encontrão bem calculado - António Júlio abordou o incauto grupo, interpelando-o
de forma estrepitosa e recolhendo desse modo a atenção que sempre precisou:
- Boa noite,
importavam-se que me juntasse a este grupo de jovens tão educados e
bem-parecidos?
- De todo, esteja
à vontade Sr…
- António Júlio,
à vossa disposição. Estive ali a jantar com o meu genro e um amigo, mas os
gajos são muita chatos e em breve largam daqui.
- Esteja à
vontade, Sr. António Júlio. Diga-nos lá, o que é que faz? – inquiriu o grupo
com genuína curiosidade e fascínio.
O herói iniciou
então uma descrição dos seus feitos e um rigoroso elenco das suas posses, não
se esquecendo de destacar as marcas das roupas que vestia e do relógio que
usava para que não restassem dúvidas do sucesso por si granjeado e de quão
pouca importância lhe atribuía.
Já se tinha
passado tempo suficiente para perceber que sairiam dali juntos, fosse para
sítios de pior ou melhor frequência, o que seria mais difícil no último caso,
considerando os apetites particulares de António Júlio por espectáculos de
exibição pública das formas femininas.
Cientes dessas
inclinações, informaram previdentemente os jovens:
- Sr. António
Júlio, nós vamos beber umas imperiais aqui ao bar do lado. Se quiser pode vir
connosco. Depois logo se vê.
- A sério que não
se incomodam? Agradeço-vos muito. São realmente um grupo de gente muito bem
formada. Mas olhem, por azar não trouxe carteira nem dinheiro, pelo que vou
ter de ligar ao Alcídio para me levantar algum.
Ainda antes que
os jovens pudessem perguntar quem era e de que forma estava Alcídio vinculado
a António Júlio, veio interceder em nome da Verdade o dito amigo que o
acompanhava:
- O Alcídio é um
taxista contratado pelo António para lhe fazer todo o tipo de serviços. Geralmente
está parado nos arredores da cidade à espera do contacto providencial. Pode ser
uma boleia para uma amiga, uma recolha tardia (diurna) ou um levantamento de
fundos, como parece ser o caso.
Entretanto, já o
nosso Júlio estabelecia contacto:
- Alcídio? Estou?
Olha, preciso que me tragas o cartão e dinheiro aqui ao Saldanha. Sim, pá, ‘tou
aqui com uma malta e estou a seco (uma figura de expressão, sem dúvida, atento
o combustível já atestado no volumoso depósito).
- Bom, o Alcídio
já aparece. Vamos andando e eu depois vou ter com ele.
E lá foi o grupo,
deixando para trás o amigo e o genro que recolheram às suas vidas mais simples
e equilibradas, tal como já tinha antecipado o astro da narrativa. Por razões distintas,
umas mais inteligíveis do que outras, os interesses de António Júlio e dos Amigos
convergiam e fizeram juntos o curto trajecto até ao estabelecimento de bebidas.
Atingido este
ponto do relato, António Júlio já se apresentava num estado de notável embriaguez.
Os seus pequenos olhos azuis, cada vez mais fechados, cintilavam com indisfarçável malícia. O cigarro começava a chegar-se cada vez
mais para a extremidade da boca, numa tentativa compreensível de fugir à
torrente de boçalidades, impropérios e fanfarronices proferidas pelo bardo. Também
não foi o facto de alegar ser um habitual frequentador do bar em questão que
impediu António Júlio de falhar a entrada do estabelecimento de forma
contundente, servindo-se do encosto das paredes em seu redor para meditar fugazmente
na razão do seu falhanço.
Arrumou-se o
grupo numa pequena cabine de sofás e foram pedidas as prometidas imperiais, com
exceção para António Júlio, cavaleiro do seu conto de fadas, que escalou para o
gin tónico. As horas passaram e os jovens tomaram conhecimento das intermináveis
virtudes do galerista, expressas em historietas como a de quando deu um T2 à
sua primeira ex-mulher sem que tal lhe fosse juridicamente exigido; ou a temperança
com que se relacionava com os seus inquilinos do Bangladesh, apesar de ter por
boa práctica o assédio telefónico persistente como garantia de um atempado
pagamento da renda; ou mesmo as suas inesgotáveis capacidades para avaliar e
vender a bom preço qualquer obra ou metal, do mais vil ao mais nobre.
Conforme é da
experiência comum, e da de António Júlio ainda mais, a conversa guinou para as mulheres, o amor-ódio da ilustre vedeta. Procurando manter estas linhas acessíveis para públicos de todas as idades, basta
referir que a última tirada do artista sobre o tema, por sinal mais gritada do
que falada, lhe mereceu reprovação imediata de uma senhora de latitude sulista
que apenas queria desfrutar de um serão pacato.
- Você não fala
assim das mulheres, viu? Você é um porco! Eu te ponho um processo!
António Júlio assistia a esta (justa) manifestação de repúdio com uma impavidez só ao alcance de um ébrio experiente, tendo reservado como singela reação um único vocábulo na língua de Sua Majestade:
- Yes!
A desnecessária
refrega, logo desarmada pelo grupo de amigos que se desculpou por este comportamento
de maturidade inversamente proporcional à da idade do seu autor, trouxe o
recomendado fim ao convívio, tendo sido pedida a fatura do estrago financeiro para
a realização das devidas partilhas.
- Nem pensar!
Vocês convidaram-me, eu pago isto tudo! Não se fala mais nisso! Chefe, a conta
para aqui se faz favor! – urrou António Júlio inflamado pelo desplante dos jovens
já ensonados e mal impressionados que teimavam em fazer uso da sua educação.
Ficaram assim resolvidos, tendo ido cada um à sua vida, os Amigos para casa e de regresso às suas
famílias e trabalhos, António Júlio deslizando até ao automóvel de Alcídio em
procura de outros confortos do corpo e da alma.
Mas a história de
António Júlio não acaba aqui. E nem sequer acaba com o próprio, já que as
acções e omissões deste tipo de pessoas assemelham-se ao movimento de placas
tectónicas que criam terramotos e réplicas que afectam inevitavelmente as vidas
dos outros.
- Estou? Estou a
falar com o Sr. Pedro que esteve aqui ontem à noite a beber copos com uns
amigos e com um tipo mais velho?
- Sim, é o
próprio. Diga-me, o que se passa?
- Pois bem, vocês
saíram daqui ontem sem pagar a conta. Vai ter de vir cá saldar a dívida.
- Desculpe, mas
como assim? O Sr. António Júlio não pagou? Ele disse que ficava por conta dele.
- Pois, mas não
pagou coisa nenhuma. Arrancou daqui logo a seguir a vocês e dinheiro, nada.
- Estranho, ele até
nos mostrou várias notas que o motorista tinha vindo entregar…Olhe, deve ter
sido engano, de certeza. Eu dou-lhe o número dele para que possa esclarecer
isso com ele. De certeza que não teve intenção.
Mas teve.
- Estou? Olhe, acabei de falar com esse tal António Júlio. Diz que não sai de casa há seis meses por conta de uma doença. Está acamado, diz ele.
- Peço imensa
desculpa! Quando puder passo aí e pago-lhe a conta. Desculpe lá, a sério.
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