Go Chef

Quase 10 anos volvidos que razão me faz voltar a escrever e activar novamente este blogue? Um livro arrebatador dos muitos que tenho lido ultimamente? A exposição às ideias, críticas e discussões bem fundamentadas, honestas e cordiais das nossas impolutas redes sociais? Uma entrevista ao Julião Sarmento que vi no Youtube e me fez pensar nas virtudes da insatisfação permanente? Não. Uma razão bem maior – figurativa e literalmente – que, há já alguns dias, continua a prender-me a uma perplexidade da qual entendi só poder desenredar-me escrevendo umas linhas sobre o assunto.

Refiro-me ao restaurante Go Chef, sito em Frielas, mais precisamente junto à placa que sinaliza a entrada na localidade de Flamenga, concelho de Loures, e que desafia a capacidade de síntese, visto que congrega em si os elementos estéticos, decorativos e arquitectónicos daquilo que poderíamos descrever como uma grande oficina automóvel como as que existem no Prior Velho (estamos a falar de 1000m2) onde cerca de 400 pessoas podem, num ambiente reminiscente de um Centro Comercial Vasco da Gama decorado pelo staff do Love is Blind, banquetear-se com uma oferta gastronómica em modo buffett igual à dos restaurantes Serra da Estrela, Bifana de Vendas Novas, di Casa, Go Natural, la Parrilla, Noori, Kiro Sushi, Panda Cantina, Pizza Hut, Sabor Gaúcho, Frango da Guia, Vitaminas e, claro, Xiao Long Kan, todos juntos*. Ah, e também servem marisco. Que tipo? Todo.

Go Chef.

Com efeito, só a prodigiosa organização, ética de trabalho (ou vínculos laborais com segurança aquém do desejável) e escala comummente atribuídas ao povo chinês poderiam tornar realidade este espaço. Todas as mesas estão identificadas por um algarismo que serve de código/língua franca na aventura que nos espera: é esse número que devemos utilizar caso queiramos deixar uma simbiose de espetadas de camarão, picanha e lulas a estagiar na estação dos grelhados, pedir uma sopa de noodles chineses com carne de porco e couves, seleccionar a 34ª água das pedras na app de bebidas do restaurante ou, simplesmente, para sermos reconhecidos por um robot itinerante que leva os pedidos às mesas (este certamente sem vínculo laboral).

A sensação de estar no Go Chef assemelha-se à que imagino caso fosse mesmo possível entrar num videojogo. Os nossos sentidos são assoberbados por sons (crianças, festas de aniversário, o dito robot), cores e luzes, personagens de todos os tipos e formas (com prevalência para as arredondadas) a circular freneticamente, uma barra de energia em progressiva diminuição (a nossa fome), vários níveis (não cheguei sequer ao das sobremesas) e uma competição despropositada com outros jogadores que claramente acham que estão a jogar em Single Player e não online.

Dois jogadores S-rank a jogar em modo co-op.

Como se tudo isto não fosse já inacreditável, o Go Chef tem ainda um ecrã gigante do tamanho de um campo de padel, Pêra Manca na carta de vinhos (o tinto, não o do edil de Oeiras) e preços que levariam à bancarrota qualquer um que tentasse concorrer com este porta-estandarte do açambarcamento.

Tendo tido a oportunidade de lá ir recentemente, confesso que ainda não me refiz da experiência. Sinto que a estratégia e abordagem que implementei podem não ter sido as mais correctas, o que me terá feito perder a possibilidade de deliciar-me com maior diversidade e quantidade (as molduras gigantes com fotografias do Arco do Triunfo, do Panteão e de outras maravilhas da latinidade também não facilitaram o exercício de concentração). Pensando bem, dei apenas uma volta de reconhecimento aos expositores, balcões e bancadas que compõem a arena do fartote, enquanto outros com mais experiência e sageza se demoraram em corredores-chave de onde podiam admirar quatro ou cinco filas de rechauds em simultâneo.

Posicionamento e seating típicos de um iniciado.

Para os que antecipam o acirrar da guerra comercial entre os EUA e a China e uma possível vitória dos primeiros graças aos seus novos personagens (oxalá fossem de videojogos), diria que basta (i) deslocarmo-nos à estação do marisco do Go Chef (decorada com bonitas réplicas de barcos, âncoras envoltas em redes de pesca e crustáceos variados), (ii) tirar uma pata de sapateira pré-partida, (iii) comê-la, (iv) perceber que não é má e (v) perguntar como raio é que Vicente Wang, representante legal da sociedade Parcelas Alinhadas, Lda.**, conseguiu reunir todo este produto a 19,95€/PAX (preço em vigor para maiores de 9 anos aos fins-de-semana e feriados) para perceber que o mundo ocidental não tem qualquer hipótese.




* Sim, todos estes espaços de restauração podem ser encontrados na Praça de Alimentação (adoro este termo) da superfície comercial cujo nome encheria de alegria póstuma o célebre navegador português (contanto que exista vida depois da morte, claro).

**Com o vastíssimo objecto social “Atividades de restauração. Bazar Chinês. Comércio por grosso e a retalho de produtos alimentares, naturais e dietéticos, produtos cosméticos e de higiene, chás e plantas medicinais, produtos de lazer, bem como comércio por correspondência e via Internet, produtos farmacêuticos, medicamentos de venda livre, atividades de fisioterapia, dietética, massagens e atividades similares, comércio por grosso e a retalho de vestuário, artesanato, bijutaria e decoração.”

Sem comentários:

Enviar um comentário