Uni Sushi

O que é que leva um indivíduo a ir almoçar à Ericeira num dia chuvoso? "O marisco!", dirá a maioria dos benfeitores que ainda tem paciência para me ler. Não estão totalmente errados, já que a Ericeira é provavelmente um dos sítios onde se come o mais fresco marisco de Portugal. Contudo, o que me leva a escrever este texto é a qualidade e consistência de um espaço que vejo ter pouco destaque na comunicação "lifestyle" portuguesa (vocês sabem quem são).

Refiro-me ao Uni Sushi, um restaurante que tem uma fórmula vencedora: peixe saborosíssimo e um preço impermeável à inflação provocada pelos restaurantes de sushi lisboetas. No Uni Sushi, os amantes do sushi tradicional (leia-se, os que gostam de sushi sem maionese) encontram um local que aproveita da melhor forma o que chega à costa da Ericeira.

E a outras costas também.

Uma das vantagens do sushi relativamente a outro tipo de gastronomias é que não precisamos de muitas palavras para descrever a sua qualidade, dado que as suas características estéticas têm, na maior parte das vezes, um valor auto-explicativo. De facto, ao passo que um prato de moelas ou rins pode carecer de um enquadramento escrito para os mais desconfiados, uma simples imagem do sashimi do Uni Sushi é suficiente para comprovar a sua qualidade.

É mesmo necessário inserir uma legenda?

Outra das particularidades do Uni Sushi face à concorrência é que, estando numa localização privilegiada no que diz respeito à sua matéria-prima, pode inovar e apresentar propostas únicas e verdadeiramente originais. É o caso do Uni Maki, um "enrolado de salmão com ovas de ouriço". Não se tratam dos "Ouriços", doce típico da Ericeira, e muito menos provêm da "Discoteca Ouriço" (considerada como uma das mais antigas de Portugal),  mas sim daqueles que estão no fundo do mar e são muito apreciados no Japão (onde as ovas podem custar até $80 o quilo).

Uni Maki.

É verdade, já repararam que ao longo deste artigo ainda não usei uma palavra obrigatória nas peças que versam sobre este tipo de cozinha? Pois é, hão-de reparar que a palavra "frescura", "fresco" ou "fresquíssimo" não foram utilizadas na descrição das divinais combinações do Uni Sushi. Não o faço porque tenha dúvidas quanto à proveniência ou qualidade do peixe, mas tão-só porque aprendi recentemente (obrigado Anthony Bourdain e Chef Masa Takayama) que o melhor peixe para sushi não tem de ser necessariamente o mais fresco, dado que as suas qualidades gustativas variam consoante a sua espécie e estado de conservação. 

Assim, o que vos posso dizer é que o conceito de "frescura" adoptado no Uni Sushi é de certeza o mais adequado a cada prato e pedido, o que não só abona muitíssimo a favor do cuidado e técnica na confecção, mas também nos transporta para um universo de verdadeira exclusividade. Da próxima vez que estiverem dispostos a pagar mais de €70 para ir a mais um sushi com paredes roxas e mobiliário preto, invistam parte desse dinheiro em combustível e rumem à Ericeira.

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