Gosto muito deste episódio do programa de Anthony Bourdain (emitido entre 2000-2001) por duas razões. Em primeiro lugar, pelo próprio Bourdain. Sem ser tão estupidamente agressivo e irritante como Ramsay, Bourdain traz também a mesma irreverência aos seus programas, tentando sempre que possível sair do formato e dar o protagonismo aos seus acompanhantes e ao local onde se encontra. O fascínio e genuíno interesse pela gastronomia portuguesa que Anthony Bourdain revela neste episódio é o suficiente para ficarmos de "papo cheio". Em segundo lugar, por ser um retrato de um Portugal mais profundo e autêntico do que aquele que foi pintado quando veio a Lisboa em 2013 disparar meia dúzia de generalidades com personalidades que tristemente se prestaram a isso. Algumas dessas personalidades estão hoje em dia entre os nossos melhores Chefs.
A beleza deste episódio está nos pormenores. O bigode do seu companheiro, o fascínio de Bourdain com os talhos portugueses, a interacção com as peixeiras, o jogo de futebol com a bexiga do porco e a minúcia e "saber-fazer" demonstrados na própria matança do porco atestam não só a especificidade e riqueza da nossa cultura, mas também têm a virtude de mostrar a quem vive neste país que é sempre salutar manter certos hábitos intocados. Nos últimos anos Portugal tem-se sabido aproveitar do seu potencial turístico e esse continuará a ser certamente uma das (poucas) forças motrizes da sua economia. Felizmente temos todas as características que nos tornam num país agradável e atractivo para passar uns dias, uma temporada ou até a vida.
Não quero tecer grandes considerações quanto ao choque entre o crescimento da indústria do turismo e o alegado desaparecimento das nossas tradições, hábitos e património. Por todo o lado ouvimos que é preciso salvar a Loja A ou o Negócio B e que a construção de infraestruturas hoteleiras, restaurantes gourmet e wine bars ameaça a nossa cultura. Acredito que se damos importância e valorizamos estes espaços e negócios devemos utilizá-los e integrá-los na nossa forma de viver, dando-lhes real significado e propósito. No entanto, por vezes o maior desafio é perceber o que é que merece ser preservado e o que é que deve ser actualizado, renovado, ou até mesmo substituído. Este vídeo, por exemplo, demonstra que uma das coisas que vale a pena preservar é a nossa gastronomia, os seus processos tradicionais, a arte e conhecimento que envolve a confecção dos nossos pratos e os momentos de convívio e aprendizagem que dela fazem parte. Somos um país de universalidades. Podemos ter a comida mais sofisticada e a mais rudimentar. A mais saborosa e a esteticamente mais agradável. Podemos ter tudo. Para isso, só temos de reconhecer as ameaças àquilo que prezamos e combatê-las da melhor forma que sabemos: usando e consumindo. Seja a ameaça da "cegueira turística", a ASAE ou até mesmo nós próprios, as coisas só caem desuso se as "desusarmos". Da próxima vez que vos apelarem para assinarem uma petição para salvarem um qualquer espaço não a assinem. Se se preocuparem verdadeiramente vão ao local em causa e façam uso do serviço ou produto que ali é prestado, porque o que realmente importa na nossa cultura é, à semelhança do porco de Bourdain, tudo aquilo que pode de uma forma ou outra ser "aproveitado".
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