Profissão: Duro

"Road House", ou na sua feliz tradução portuguesa, "Profissão: Duro", é um filme de "porrada" de 1989 sobre um porteiro de discoteca (Patrick Swayze) em Jasper, Missouri, que sozinho faz frente a um empresário corrupto que domina todos os negócios daquela terra através de chantagem, extorsão e violência. 

 Um cartaz honesto que nos diz logo ao que vamos.

Muita informação? Então vamos por partes. Comecemos pelo nome  "Profissão: Duro", uma fidelíssima descrição da personagem de Swayze, um herói solitário com um passado obscuro (ah, como eram bons os anos 80) cuja profissão se resume a isso mesmo: ser duro. Ser duro com os clientes do bar em que trabalha, ser duro com a sua entidade empregadora, ser duro com os seus amigos, ser mais do que duro com os seus inimigos, ser duro com a mulher que por ele se apaixona. Toda essa "dureza" se reflecte ao longo do filme: Swayze é agredido, esfaqueado, ameaçado e chantageado, mas mantém sempre a compostura.

Um confronto entre dois inimigos mortais ou o que podia ser só mais uma noite no Lux.

Como já perceberam, a história não é o mais importante neste filme. Aliás, até é, não pela história em si, mas sim pelo que esta revela dos padrões dos filmes deste género na década de 80. Em "Profissão: Duro" assistimos a rixas, artes marciais, striptease gratuito, uma sessão matinal de Tai Chi, música da boa (The Doors, Bob Dylan, Otis Redding), romance, capitalistas gananciosos que são castigados, estupidez humana, cenas de violência extrema temperadas com cenas de ingenuidade extrema e, acima de tudo, muita pancada daquela que nos faz rir. Esta é para mim a grande qualidade de "Profissão: Duro". Para além de ter envelhecido muito bem, a construção da narrativa é tão nonsense que é capaz de arrancar sorrisos a praticamente qualquer pessoa. 

 Os vilões do filme: um "homem de família" e um indíviduo que podia estar a vender haxixe no Rossio (embora todos saibamos que aquilo é só salsa).

Vivemos numa época de extremos em que o cinema se revela ou estupidificante ou completamente paternalista e pretensioso. Não temos grande opção entre os milhares de filmes de super-heróis que explodem à nossa frente (atenção, eu gosto destes filmes) e as longas metragens (sim, já fui ao Nimas, e depois?), na maior parte das vezes financiadas pelo dinheiro dos contribuintes, sem qualquer propósito aparente que não o da auto-gratificação e demonstração de virtuosismo técnico. Claro que estou a generalizar, mas a mensagem que quero passar é que a nossa ideia de entretenimento foi-se também alterando ao longo dos tempos. Deixámos de nos maravilhar com histórias para nos deleitarmos com efeitos especiais, paisagens ou o actor X. Para o bem ou para o mal, os filmes são mais caros e aborrecidos hoje porque o espectador parece procurar o fascínio da execução técnica, em detrimento de uma narrativa sólida e/ou cativante.  

Descendentes das grandes lutas de saloon, as rixas de bar foram infelizmente perdendo adesão até se tornarem nos deprimentes desacatos em discotecas.

A razão porque gosto de "Profissão: Duro" é porque "brinca" com isto tudo. Não é um filme particularmente bem interpretado, realizado ou com uma história por aí além, mas entretém, faz rir e provoca um misto de curiosidade e incredulidade no espectador. Vejam este filme num bar a beber cerveja, em casa numa tarde chuvosa de Domingo, com a namorada, os irmãos ou sozinhos. Mas ao verem-no percebam o que é que o cinema americano dessa época pretendia e conseguia despudoradamente provocar: o entretenimento do espectador. No final do dia, tudo se resume à razão que leva cada um de nós a ver filmes e o que neles procuramos. "Profissão: Duro" consegue, pelo menos, provocar-nos uma boa disposição daquelas parecidas a quando fazíamos algo muito estúpido só porque podíamos.

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