Dito isto, confesso que
hoje em dia raramente bebo gin. Quando o faço estou geralmente em minha casa,
ou na de amigos, e quase sempre (ou sempre) sou eu a fazê-lo. Nos dias de hoje
dá-me mais prazer fazer um gin para um amigo do que para mim mesmo. Para além
de ter genuíno prazer em fazer algo que outra pessoa vá apreciar, acredito também
que o “ritual” tem mais significado para quem o observa do que para quem o faz.
Especialmente porque se continua a acreditar que uma data de passos do dito “ritual”
são absolutamente necessários para a preparação de um gin de qualidade, quando
na verdade apenas existem meia dúzia de regras (se tanto) de bom senso para
apresentar uma bebida que seja minimamente memorável.
O fascínio com a forma de
preparação do gin é em grande parte fomentado por quem comercializa e
introduziu esta bebida no mercado. A impressão de que o que estamos a beber
resulta de um processo de preparação complexo, minucioso e detalhado tende a incutir-nos
um sentimento de exclusividade e importância. Quase como que se o facto de o
Monkey 47 ter esse exacto número de botânicos provenientes da Floresta Negra,
ou o Martin Miller’s ser misturado com água da Islândia conferisse ao
consumidor a faculdade de dizer conhecer algum desses locais. Talvez possamos
dizer que o mesmo se passará com um vinho ou um whisky prestigiado. Talvez.
Porém, o gin tónico, como é hoje consumido, tem um processo de preparação que visa
não passar despercebido aos olhos do consumidor nem dos que o rodeiam. A sua
preparação é também o seu marketing. A bebida vende-se especialmente aquando da
sua preparação. Pensa-se instintivamente: “algo que requer este tempo e
pormenor a fazer deve ser bom”.
Os produtores, bares e
restaurantes sabem disto. E fazem bem ao explorá-lo, porque em qualquer negócio,
como em qualquer pessoa, temos sempre o bom e o mau. Cabe assim ao consumidor,
se tiver interesse, “informar-se”, perguntando o porquê de se gelar o copo, utilizar
um coador (ou, na terminologia barman, strainer)
ou aromatizar o pé do copo com limão. Farão sentido todas estas etapas? Alguma
delas? Todas? Nenhuma? Como em tudo, temos o equilíbrio e o exagero. E, acima
de tudo, temos as preferências individuais que se formam com o tempo e a experiência.
Posso dizer que hoje em
dia quase não bebo gin em locais públicos porque acho que se tende a complicar
e a exagerar na sua preparação. Não acho que os botânicos sejam sempre
necessários (especialmente se for um BOM gin), nem que a água tónica tenha
sempre de ser premium. Também se
consegue fazer gins fantásticos em copos altos, largos, grandes ou pequenos.
Consegue-se fazer um gin belíssimo com Bombay Dry Gin (que já não é sequer
bebida de serviço nas discotecas) e Schweppes normal, tal como também se pode
estragar um G’Vine se o atafulharmos de botânicos e fruta. O cerne da questão,
e a razão principal pela qual gosto de ser eu a fazer os gins, é a medida. A
medida certa entre gin e água tónica que, invariavelmente, depende do gin que se
está a beber, da água tónica que se tem e dos copos em que se está a servir.
Depende também se estamos a beber um copo ao final da tarde, em casa de um
amigo ou em pleno Lux. Depende de muita coisa, mas, como já disse, depende em muito das
preferências pessoais.
Por isso é que não
diabolizo ou idolatro a “moda” do gin. Esta é tão só o reflexo dos
consumidores, dos seus hábitos e das suas preferências, independentemente do seu nível de informação. Se querem beber um balde de água tónica com mais
morangos do que gelo, be my guest. Se
adoram aqueles copos altos com 80% de gin e uma rodela de limão com o sumo
espremido lá para dentro, façam bom proveito. Não existem regras, mas eu gosto
de ter as minhas. Sempre que posso vou a sítios em que sei que o resultado
final é aquele que procuro. Sítios em que posso fazer um pedido para tirar “isto”
ou pôr “aquilo”. Ou então sítios em que me sinto confortável nas mãos de quem
está a preparar a bebida. E existem muitos sítios destes? Voltamos ao início.
Por isso é que raramente bebo gin.

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