O Natal na cidade

Todos sabemos que o verdadeiro Natal é aquele que nos é mostrado pelos anúncios do azeite Gallo. Neles encontramos a aldeia do Interior com 32 habitantes, a humilde casa de xisto, a faustosa sala de jantar, o serviço Vista Alegre, o bacalhau e a família citadina com 3 filhos (coisa tão portuguesa) que foi passar a consoada com os avós à "terra". Esta é a ordem natural das coisas e todos a aceitamos.

Antes de prosseguir, respondo já aos vossos protestos. Não, ainda não é demasiado cedo para estar a falar sobre o Natal. Como é que sei isto? É fácil. Basta constatar que as iluminações já estão instaladas nas ruas de Lisboa e que o anúncio da Popota tomou novamente de assalto a televisão portuguesa. Não venham por isso dizer que é demasiado cedo para falar do Natal. Se a Câmara Municipal de Lisboa e o Grupo SONAE acham que entrámos na época natalícia, então é porque já o fizemos.

Que saudades do Natal...

© Modelo Continente Hipermercados, S.A.

Continuemos. Não obstante muitos de nós nos identificarmos com o Natal clássico acima descrito, a verdade é que existe um outro tipo de Natal. Um Natal alternativo onde o temido e impiedoso capitalismo e a ainda mais selvagem falta de bom senso das pessoas conseguem transformar uma época festiva num espectáculo com doses iguais de despesismo e stress. Apresento abaixo as três características principais que distinguem um Natal citadino, ressalvando que na sua génese até não são más ideias. As pessoas é que conseguem dar cabo de tudo.


Jantares de Natal

Não há grupo de amigos, empresa ou associação que se preze que não tenha o seu jantar de Natal. É como uma espécie de festa de aniversário para aquele grupo de pessoas que até pode não se ver ou falar muitas vezes, mas não quer perder o contacto (ou ser despedido). É por isso natural que tenhamos uma multiplicidade de jantares de Natal: o jantar do grupo de amigos da faculdade, da empresa, do ginásio, dos homens, das mulheres, dos que não ligam nenhuma ao Natal e só querem beber uns copos, das solteiras, dos casais amigos, das grávidas, dos divorciados, enfim...

Interroga-se o senhor calvo da esquerda: "Não sei porque é que continuo a vir a estes jantares. Bem, o vinho até é bom..."
© Chad Chesmark

O que me move contra os jantares de Natal? Nada por aí além. Mas convenhamos que é muito irritante não conseguir reservar um restaurante entre meados de Novembro e o final de Dezembro. Nesta altura, a lista de reservas dos restaurantes em Lisboa rivaliza com a do elBulli nos seus tempos áureos. Também é chato jantar ao som de 30 matronas alcoolizadas com gorros do Pai Natal e vozes com um timbre similar ao dos apitos para chamar cães. Mas isto sou eu que acha que este tipo de coisas deve ser feito no estrangeiro (como as despedidas de solteiro).


Comprar presentes

Não há altura do ano em que compreenda melhor as contradições dos militantes do PCP como quando chega a época natalícia. Ir a um centro comercial no Natal é uma reprodução mais fiel do comunismo nos dias de hoje do que o que resulta do programa eleitoral do Partido Comunista.  Senão vejam: existe um claro domínio da cor vermelha, uma turba de pessoas sofrendo em filas e até mesmo um hino oficial (Mariah Carey - All I Want for Christmas Is You). Por outro lado, a fúria consumista expressa na quantidade de coisas que se oferecem às criancinhas, nas decorações para a árvore, a mesa, a casa, o prédio e o jardim traz a pureza ideológica para o campo do comércio. É tipo uma edição de Inverno da Festa do Avante.


Em que outro regime existiam filas de crianças para abraçar e receber algo de um homem com um uniforme vermelho?

Embora seja absolutamente necessário, chega a ser deprimente fazer compras de Natal. É um pouco como ir ao dentista: sabemos que se não o fizermos vamos ter represálias para o resto da vida. É claro que o princípio de oferecer um presente a alguém encerra um sentimento nobre e louvável e não deve constituir um encargo ou uma obrigação. Duvido é que esse sentimento seja quase impossível de pôr na mala do carro porque pesa mais de 100kg.


O "feeling escandinavo"

A vasta maioria do território português não tem neve. Esta afirmação empírica não é ainda assim suficiente para demover as entidades camárias de proporcionar aos seus munícipes experiências que visam simular o Natal em cidades como Oslo, Estocolmo ou Copenhaga. Temos pois pistas de gelo espalhadas pela cidade, fachadas de edifícios cobertas de neve artificial e todo o tipo de efeitos especiais destinados a fazer-nos sentir a originalidade daquele Natal. Vocês sabem, aquele que nunca vivemos.

Devo dizer que nada me faz sentir mais que é Natal do que passar por uma pista de gelo na Praça da Figueira. Há sempre música a tocar (Mariah Carey - All I Want for Christmas Is You), bebidas típicas portuguesas (ginjinha) e um speaker a incentivar as pessoas (os pais das crianças). Ver os mais pequenos e os seus progenitores a patinar no gelo com 17ºC de temperatura enquanto os skaters andam nos passeios e partilham charros faz-me sentir verdadeiramente a magia do Natal na cidade.


Ainda assim é melhor que a feira que lá costuma estar.
© O Corvo

A conclusão óbvia deste texto é que o Natal passado na cidade está longe de ter a autenticidade daquele que é vivido em zonas mais rurais. É natural que assim o seja e aceito-o com tranquilidade. Os grandes centros urbanos oferecem na melhor parte das vezes mais condições para viver a época natalícia, reunir os familiares e cumprir as tarefas inerentes a esta altura do ano. Independentemente de ser no campo, na cidade ou num ringue de patinagem, o mais importante é (pronto, lá vem banalidade) passarmos o Natal com quem mais gostamos. Ou então viajar para o hemisfério Sul e aproveitar os feriados e pontes para uma semaninha de praia.

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