Descrição de uma mesa

Os mosquitos andavam por ali, a pousar nos talheres, alimentos e mãos que tentavam descansar sobre o tampo de madeira. Uma luz branca fervilhava por cima das cabeças presas na contemplação digestiva que antecede o pagamento da conta. Esvaziados os copos e esquecida no cesto uma fatia de pão que já não iria beber mais molho, era hora de ir. Os miúdos já estavam levantados e corriam, caíam e rebolavam por baixo das mesas, incomodando os pais, receosos do incómodo dos outros. Estes, calando a sua conversa, viraram costas aos cigarros apagados no cinzeiro para observar, de lábios levemente arqueados.

Levantaram-se os cadernos, lápis e desenhos dos pequenos. Verificou-se a conta mais uma vez. Vestiram-se as camisolas, guardaram-se as carteiras. A mesa foi ficando mais vazia, nela permanecendo o sal e a pimenta, e um ou outro bago de arroz mal limpo. Foi-se embora a família e a empregada voltou para limpar melhor a mesa. O riso das crianças deixou de se ouvir ao longe e os olhos voltaram aos ecrãs.

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