China #4 - Duas Chinas em Xangai

Provavelmente ainda estão a repetir mentalmente o título do artigo (muito "ch", é verdade), mas eis que chega a hora de ir para Xangai. A viagem foi feita no famoso Bullet Train que demorou perto de 5h para percorrer uma distância de cerca de 1.200km. 

Prefiro a expressão "Trem-Bala", cunhada pelo nosso conhecido e polémico português do Brasil.

Chegámos a Xangai às 14h de um Domingo, facto que inocentemente me fez pensar que o percurso da estação até ao hotel seria relativamente rápido. Pois bem, os 20km que nos separavam do conforto que só uma cadeia chinesa de hotelaria nos podia proporcionar fizeram-se a custo e mostraram porque é que Xangai é (segundo alguns estudiosos do tema) a cidade mais populosa da China. No entanto, como em quase tudo o que envolve este país, o tempo gasto nas deslocações acaba sempre por valer a pena quando, finalmente chegados ao destino, conhecemos a vizinhança.

The Bund.

Vista para Pudong, o distrito financeiro de Xangai.

Em Xangai constatamos que, apesar de permanecermos em território chinês, a cidade, o clima e as pessoas são bastante diferentes do que vimos em Pequim. Com efeito, o calor e a humidade subiram para valores que ainda não tínhamos enfrentado na viagem (e ainda falta Hong Kong), mas pelo menos o nível de poluição baixou drasticamente, o que nos pareceu um troca mais do que aceitável.

Também a própria cidade denota uma maior influência ocidental, sendo mais frequente cruzarmo-nos com falantes da língua de Shakespeare (mesmo assim menos do que o antecipado) ou vermos edifícios que facilmente poderiam encontrar-se em Londres ou Nova Iorque. Não obstante, no meio da Xangai moderna e cosmopolita, subsistem ainda bairros de pleno coração e tradição chinesa que criam uma interessante realidade paralela.

Yuyuan Garden Residential District.

Bairros como este são bolhas de tranquilidade numa cidade em constante movimento.

Esta dicotomia entre o novo e o antigo é particularmente notória no bairro de Yuyuan Garden onde, no meio de edifícios altíssimos, encontramos um jardim histórico que ocupa um papel central na vida económica e turística da zona. De facto, à volta de um jardim construído em meados do séc. XVI proliferam lojas, restaurantes, barracas e tendas destinadas a satisfazer as "necessidades" do séc. XXI. O resultado pode ser visualmente confuso, mas acaba surpreendentemente por fazer algum sentido.

Vista a partir da entrada dos jardins de Yuyuan.

Uma imagem que resume bem Xangai.

Restaurantes, lojas e estátuas de dragões. Enfim, entretenimento para todos.

Deste dualismo tradição/inovação da cidade não resulta necessariamente que o dia-a-dia dos chineses varie substancialmente em função da sua geração ou sector de actividade. Independentemente do que fazem e de onde vivem, a verdade é que os chineses de Xangai têm uma vida bastante preenchida, sempre com algo para fazer ou um sítio onde estar. Não é por isso comum vê-los sentados a ler o jornal ou a gozar de muitos momentos de descanso. Quando isso acontece é porque estamos geralmente em horário de refeições (contei pelo menos 5 por dia, embora ache que são mais).

Hora de almoço na zona de Xintiandi.

Circular é a palavra de ordem.

A única altura em que vemos o lado mais lúdico e descontraído dos chineses em Xangai é quando o Sol se põe. Aí não falta oferta de rooftops e bares para ir beber um copo, restaurantes abertos até tarde, ou a possibilidade de passear ao longo do rio Huangpu, resultando destas experiências material fotográfico que mais parece saído de um filme de James Bond (excepto do último que é muito mau).

  À noite Xangai mais parece uma cidade alienígena.

M1NT Club: uma versão chinesa de um espaço do Olivier, mas com um pouco mais de gosto.

Vista do VUE Bar, no 32.º andar do Hotel Hyatt on the Bund.

Xangai é uma cidade que parece ter espaço para todos. Assemelha-se a um laboratório de testes para o comércio, a arquitectura ou a restauração, em que as gerações mais antigas coexistem pacificamente com as mais recentes e todos têm margem para desenvolver as suas actividades, ofícios e negócios sem que haja uma aparente imposição de estilo ou modus operandi. Em Xangai percebemos que todos somos diferentes mas que este emaranhado de estilos de vida, culturas e ideias é o que traz vida a uma cidade e, bem assim, a uma comunidade. Seja um café hipster, uma tasca de dumplings ou uma loja de perucas, a cidade de Xangai tem de tudo e isso é sem dúvida a sua maior qualidade.

Bairro residencial e de comércio tradicional perto de Laoximen.

Tianzifang, um labirinto de ruas que forma a zona trendy da cidade.

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