China #5 - Hong Kong

Seria talvez de esperar que cidades como Pequim e Xangai fossem mais problemáticas do que Hong Kong em termos de mobilidade e sobrepopulação, mas o facto é que foi nesta última que senti aquilo que genericamente se diz da China.

Hong Kong é uma cidade caótica, mal sinalizada e demasiado pequena para a quantidade de gente que lá vive. É frequente os peões não terem espaço nos passeios para circular, ou sequer ter esse direito, já que em muitas ocasiões é dada prioridade e atenção exclusiva aos automóveis.  Para melhorar as coisas, as ruas são praticamente indistinguíveis e as placas de sinalização encontram-se muito mal posicionadas (à altura de um cidadão-médio chinês), o que transforma a tarefa de andar por esta cidade numa autêntica aventura.

Muitas ruas estão vedadas para impedir que os peões atravessem a estrada.

Cenário típico da zona de Central.

Em Mong Kok o espectáculo não é muito diferente.

Embora a falta de espaço constitua um choque, uns dias passados a calcorrear ruas e avenidas (as distâncias não são grandes) com o auxílio de uma aplicação de mapas offline devem chegar para que um português minimamente desenrascado se sinta um local (ler com sotaque inglês).

Passado este primeiro choque, começamos a ganhar noção da quantidade inacreditável de informação que os nossos olhos têm de absorver só de andar na rua. Nunca como em Hong Kong vi uma cidade com tanta gente a vender tanta coisa. Farmácias, lojas de conveniência, lojas de electrónica, restaurantes, joalharias, lojas de roupa, lojas de suplementos, lojas de aquários, lojas de ferragens e artigos de mecânica, lojas a perder de vista e que funcionam, muitas delas, durante 24h. Juntando-se a isto um gosto duvidoso pela publicidade e solicitação de clientela, não é difícil perceber porque é que a sinalização de trânsito e, frequentemente, a própria via pública, ficam completamente subjugadas ao comércio.

Sai Yeung Choi Street.

Os mercados fecham ruas inteiras.

Ah, e esqueci-me de vos falar do calor! O que dizer? 36ºC temperados com uma humidade razoável na ordem dos 80%-90%. Em suma, se conseguirem adaptar-se ao calor, à falta de espaço, à quantidade de gente e ao caos visual, podem começar a apreciar Hong Kong. Calma, é óbvio que estou a exagerar (não muito) e a cidade não é assim tão insuportável. A verdade é que a conjugação de todos estes elementos conferem à cidade uma vida e energia como ainda não tinha visto.

Fruto de todos estes factores, conseguimos encontrar em Hong Kong o melhor e o pior, o mais caro e o mais barato, e isso reflete-se bem no que diz respeito à sua oferta gastronómica. Ora atente-se na cadeia de restaurantes Din Tai Fung, premiada com uma Estrela Michelin e onde é possível fazer uma refeição por €15-€20.

À entrada tiramos uma senha e aguardamos que nos seja indicada a mesa. É-nos também comunicado que temos cerca de 2h para comer.

Línguas de pato em vinagre.

Aqui impera a eficiência, sendo o serviço assegurado por um regimento de amáveis e despachadas senhoras de meia-idade. O restaurante é famoso não só pelos seus dumplings (pequenos pastéis de massa com conteúdo que varia entre os legumes, carne de porco, camarão e outras coisas ligeiramente mais estranhas), mas também pelos noodles e caldos variados.

Dumplings de camarão.

A "fábrica" do Din Tai Fung.


Hong Kong é também, à semelhança de Xangai, uma cidade onde o velho e o novo se confundem, mas com uma clara preferência pela novidade e tendências trazidas pelo Ocidente. Embora partilhe muitos traços e características semelhantes com a China, importa não esquecer que este Hong Kong só foi integrado na República Popular da China em 1997, tendo um longo passado de colonização britânica.

Hong Kong é, apesar de todas as suas idiossincrasias, um bom exemplo de que os princípios de liberdade económica, autonomia individual e respeito pela propriedade privada podem contribuir decisivamente para o crescimento e melhoria das condições de vida de uma sociedade. Para concluir isto basta recorrer a dados do FMI ou do Banco Mundial e ver que, em 40 anos, o PIB per capita de Hong Kong passou de ser comparável ao de países como o Perú ou a África do Sul para se tornar hoje superior ao da esmagadora maioria dos países da Europa e se encontrar em pé de igualdade com o dos EUA e da Suíça.

Jardins Botânicos e Zoológicos de Hong Kong.

Bank of China (esquerda) e Lippo Centre (direita).

Vista do Victoria Peak.

À direita, o famoso edifício do HSBC, projectado por Sir Norman Foster.

Se a cidade tem uma identidade durante o dia, a mesma altera-se radicalmente à noite, sendo a metrópole um paraíso para noctívagos, bons vivants e apreciadores da aleatoriedade e surpresas que só a noite pode oferecer. À noite a cidade mostra definitivamente aquilo que vale e nenhuma câmara pode - com o devido respeito pelos meus amigos que fazem carreira no audiovisual - fazer-lhe justiça.

Victoria Harbour.

Ozone Bar, no 118.º andar do Hotel Ritz Carlton.

Vista do avião 118.º andar.

Restaurante Aqua, em Tsim Sha Tsui.

Como dizia (aliás, escrevia), a noite de Hong Kong é eclética e embora seja tentador gastar mais dinheiro do que deveríamos em bares e restaurantes com mais estilo do que luz, seria também um desperdício não aproveitar o lado mais castiço de zonas como Temple Street, um mercado nocturno que se distingue não pelas suas bugigangas, mas muito mais pela sua oferta de marisco e cerveja barata.

Restaurantes de marisco em Temple Street.

Cerveja de 1L e marisco picante. Gosto muito dos Ritzs desta vida, mas esta malta é que sabe trabalhar!

"Camarões" com alho e malagueta.

Espero que depois de ler este artigo, e caso pretendam visitar Hong Kong, consigam perceber minimamente ao que vão. A fúria consumista e as ruas empilhadas podem não dar tréguas, mas este é claramente um dos centros económicos da Ásia e do Mundo, onde podemos comprar tudo, ver tudo e esperar tudo. E ainda um pouco mais.

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