Nota prévia
As fronteiras territoriais que definem os Estados, os seus hinos, bandeiras, nacionalidades e identidades são essencialmente abstracções que têm como resultado a limitação da mundividência das pessoas e a criação de barricadas. Os bons e os maus. Os aliados e os inimigos. A nossa equipa e o adversário. Não acho de todo que estas construções tão queridas dos nossos políticos reflictam de forma realística a complexidade do nosso mundo, pelo que me abstenho sempre de chegar a conclusões definitivas sobre conceitos colectivistas como o de pátria, cultura ou povo. Porém, tenho também um lado emocional que reconhece a utilidade que estes conceitos têm em termos de comunicação e transmissão de ideias. Vou por isso usá-los, mais por conveniência e facilidade de comunicação do que por particular crença na sua fiel descrição da realidade.
Agora sim, o texto.
O mais próximo que estive de me sentir português foi em Macau (durante a maior parte do tempo sinto-me apenas humano). Ali pude observar com os meus olhos a marca deixada por indivíduos que habitavam há uns bons anos o bocado de terra que hoje habito, que partilhavam muitos dos meus valores de matriz judaico-cristã e que falavam de forma muito similar à minha. Essa marca é, nos dias que correm, quase só visível em termos arquitectónicos e jurídicos, já que a influência da "cultura" portuguesa em Macau é cada vez mais reduzida. Ainda assim, não deixa de provocar uma certa admiração o que os portugueses conseguiram trazer para aqui.
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Ruínas de São Paulo.
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| Travessa da Paixão. |
Macau é, a par de Hong Kong, uma região administrativa especial da China e goza sensivelmente do mesmo grau de autonomia (deixemos para os juristas os contornos exactos desta autonomia). De forma resumida, o território engloba a Península de Macau, onde se encontram os edifícios governamentais, históricos e monumentos mais relevantes e a Ilha de Taipa, uma zona em franca expansão imobiliária e onde se situam os maiores e mais recentes casinos da região.
Andar por Macau é assistir a um lento naufrágio do legado português num imenso oceano de lojas, restaurantes e transeuntes chineses. Não obstante, ao percorrer as ruas da Península de Macau ainda encontramos marcos históricos de significativo valor sentimental para quem, como eu, gosta de histórias improváveis.
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Igreja de São Domingos.
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Largo do Senado.
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A Santa Casa da Misericórdia, construída em 1569.
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| Instituto para os Assuntos Cívicos e Municipais. |
O que torna uma visita a Macau em algo completamente surreal para um portguueês é que, apesar de vermos edifícios de traça tipicamente portuguesa (não sei se estou a usar o termo de forma adequada), sinais e informação escritos na língua de Camões, não vemos ninguém que conheça sequer a língua. Embora o português seja uma das línguas oficiais de Macau e o sistema jurídico da região seja todo ele um decalque do nosso, a relevância que isso assume na vida dos habitantes de Macau é meramente simbólica e até pitoresca. Andar em Macau é como ir ao Portugal dos Pequeninos, com a diferença que todos os visitantes do parque são asiáticos.
Esta peculiaridade assume contornos especialmente cómicos quando vemos como o comércio tradicional de Macau tenta usar este passado português (a língua e os edifícios), à semelhança de como em Lisboa se tenta usar o imaginário visual do Estado Novo, para vender souvenirs e outros produtos a turistas. O resultado é algo como isto:
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"Alfaiataria Pin Tou". Ou será Pinto?
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"Loja Carnes Assadas ".
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"Loja de Canja."
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"Venda de Bolinhos."
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| "Porquinho Cómico". |
Por entre edifícios de significado histórico e ruelas mais ou menos escuras, identificamos alguma estagnação numa cidade onde pela primeira vez vimos sinais de ociosidade. Nos jardins, parques e ruas de Macau, vemos bastantes pessoas em idade activa a fumar ou sentadas a jogar às cartas. Não pesquisei as estatísticas de desemprego, nem o rendimento per capita (podia dizer que era para não vos maçar, mas foi mesmo porque não me apeteceu) mas esta foi a cidade na China onde vi mais gente parada nas ruas sem fazer nada aparentemente produtivo (uma herança dos portugueses?).
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Homens sentados a confraternizar às 15h de uma Quinta-Feira. Imagem rara no resto da China.
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Embora os passeios estejam arranjados, grande parte dos bairros do Norte da Península carece de reabilitação.
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| Um antigo mercado mostra bem o trabalho que há para fazer numa cidade que tem potencial. |
No meio destas deambulações fomos dar com o Jardim Luís de Camões, uma jóia tropical que oferece uma boa perspectiva panorâmica sobre a região da Península e que tem no seu núcleo um monumento pequeno na sua dimensão, mas enorme no seu significado para todos os falantes da língua portuguesa.
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Ver um monumento a Camões num jardim cheio de homens chineses a jogar às cartas é uma prova que os portugueses chegaram longe.
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Vista para a zona norte da Península.
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À medida que vamos caminhando para Norte na Península, vemos que o estado de degradação dos seus edifícios se intensifica consideravelmente. Ao invés, se caminharmos para Sul, em direcção à Ilha da Taipa, vislumbramos os laivos de luxo e exuberância mais condizentes com a capital mundial do jogo.
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Avenida Panorâmica do Lago Nam Van. Ao fundo, a Torre de Macau.
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Grand Lisboa Hotel & Casino.
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| Vista para a zona de casinos da Freguesia da Sé. |
Falando sobre o jogo, e no que diz respeito a receitas, Macau ultrapassou Las Vegas há quase 10 anos, mas isso só se torna perceptível aos olhos de um ocidental quando nos deslocamos para a Ilha de Taipa. Lá podemos ver a maior indústria de jogo do mundo no seu máximo esplendor. Temos uma avenida a imitar o icónico The Strip (Estrada do Istmo), a presença dos gigantes americanos como o The Venetian e o recentíssimo The Parisian, bem como de cadeias de hotéis, restaurantes e demais locais de entretenimento que nos transportam directamente para um país alternativo.
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Vista para a Meca do jogo.
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À esquerda e à direita os casinos estão abertos 24h por dia.
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| The Parisian. Aberto desde Setembro deste ano , custou cerca de 2.250 milhões de euros. |
Se as dimensões de tudo isto impressionam qualquer pessoa proveniente de um país que tem a Torre Vasco da Gama como o seu edifício mais alto, mais inacreditável são ainda os interiores destas autênticas cidades com ligação entre todas elas. Perdidos por milhares de lojas de alta costura, joalharia e outros tipos de luxo, encontramos salas de jogo do tamanho de avenidas com centenas de apostadores ávidos por multiplicarem os salários de um ano ao mesmo tempo que sorvem freneticamente copos de água e sumo de laranja.
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Um dos átrios centrais do The Venetian.
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| Recriação da cidade de Veneza no casino The Venetian. Os gondolieri são contratados em Itália. |
Decorados com uma semelhança milimétrica à dos seus congéneres americanos, estes casinos de um luxo quase obsceno são o melhor exemplo da megalomania do ser humano e do crescimento que esta indústria continua a ter em Macau. O efeito das luzes, mármores e dourados chega a ser enjoativo.
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Hall de entrada do casino The Parisian.
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| Recepção do The Parisian. |
Macau impressiona por várias razões. Pelo seu legado que nos é querido aqui deste lado do mundo, pelo processo de absorção que a cultura portuguesa está a sofrer por parte da chinesa e pela sua simultânea decrepitude e prosperidade. O que vai ser o futuro desta antiga colónia portuguesa não sei, mas é o sítio ideal para percebermos que é possível fazer algo com real importância e relevância que perdure no tempo e seja acolhido por outros com hábitos e vidas diferentes das nossas. Acredito que a arquitectura, língua e, vá lá, "herança" portuguesa em Macau já duraram tempo suficiente para que possamos perceber o que de positivo e negativo fizemos (e fazemos) nas nossas relações com o exterior. De resto, Portugal não durará eternamente em Macau, como não durará no mundo. Nada dura.
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| Restaurante Tromba Rija, na Torre de Macau. |
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