Às vezes penso se é mesmo preciso chegarmos à meia-idade para descobrirmos um gosto ou passatempo que seja classificado pelos outros como "crise". De facto, é melhor metermo-nos nos clubes de vinhos aos 30 do que enveredar pacificamente pela jardinagem aos 50? É preferível abandonar a família ao fim-de-semana para correr um trajecto de obstáculos na lama ao estilo comando do que fazê-lo mais tarde com os filhos já criados? Não estarão as pessoas de meia-idade a ser injustiçadas no meio disto tudo?
Aos 35 anos, tenho reparado que a maior parte dos meus amigos enveredou pela prática de modalidades ou atividades como o golfe, jogging (agora diz-se running para parecer mais intenso), enologia, charutos ou padel. Embora seja fácil à primeira vista distinguir as que são benéficas para a saúde humana das que destroem órgãos e funções vitais do corpo, diria que há aspetos comuns na prática destas actividades que aproximam atletas e boémios, embora os boémios tendam a atingir níveis de performance superiores.
Em primeiro
lugar, é essencial para qualquer iniciado em qualquer uma destas modalidades levá-la
extremamente a sério. Não basta dar uma ou duas voltas ao quarteirão. Não. Há
que despender duzentos paus nuns Asics Gel-Kayano 31 e declarar que se pretende
fazer uma meia-maratona dentro de dois meses, ainda que a nossa capacidade
física e consciência corporal só nos permitam sentar e levantar para encher o
cantil de 0,75L que a nossa entidade empregadora gentilmente nos cedeu na
esperança de aplacar sentimentos de estagnação salarial. Da mesma forma, também
não basta comprar umas referências entre os 10€-15€ do Dão para ir apurando o
palato ou um decanter no IKEA. Não. Há que adquirir autênticas granadas como um Chryseia, Mouchão, Batuta
ou Principal para mostrar como estamos investidos nisto. Parece que há um receio de a nossa nova paixão ser vista como fraudulenta se não igualarmos o nosso compromisso emocional com o financeiro e estabelecermos metas cujo irrealismo preocupa quem, avisadamente, tenta refrear esta recém-descoberta vocação.
De seguida, é necessário passar muito, muito tempo nas redes sociais, jornais e revistas da especialidade a ler artigos ou ver vídeos de especialistas influencers que dedicam a sua vida a fazer germinar estas pequenas sementes de obsessão. Temos vídeos sobre “técnica e postura de corrida”, “Zieher vs. Riedel, que marca que produz melhores copos de cristal?”, “melhores grips de tacos de golfe”, “formas de retirar a banda do charuto quando este chega ao último terço”, enfim, motivos vários para adiar aquele e-mail urgente utilizado como desculpa para não levar o miúdo à creche ou fazer um brilharete em grupos de pessoas cujo nome esqueceremos mais facilmente do que a diferença entre um Closed Face Driver e um Neutral Face Driver (são tipos de tacos de golfe).
Feito o investimento inicial e adquirido o jargão, rudimentos técnicos e fluência necessária para nos aguentarmos mais do que 10 minutos numa conversa sobre o tema, é essencial entrarmos “em campo”. Não literalmente, diga-se, mas apenas começar a ter umas conversas sobre o nosso passatempo em almoços e jantares, para que os leigos possam tomar conhecimento da Boa Nova. Este é o aspecto mais importante de tudo isto, porque nos permite ter a sensação de ser ministros da nossa própria religião, fazendo simultaneamente fé do nosso fervor e atraindo fiéis para as fileiras de uma qualquer prática desportiva ou cultural executada com técnica deficiente, mas com uma regularidade que, embora o neguemos, o nosso corpo já não sustém.
Outra virtude deste
tipo de iniciações é, para além de nos resgatar das preocupações da vida e do
trabalho, o tempo que nos subtrai como paga desses alívios efémeros. Torna-se,
pois, fácil justificar almoços e jantares a desoras (“Amor, é o nosso Clube
Vínico!”), o afrouxar de responsabilidades parentais (“Não vou poder ficar
com os miúdos este Sábado. Sim, começamos às 10h e é só um jogo de 90 minutos, mas
depois há almoço-convívio e o jogo do [inserir clube predilecto] às 20h que combinámos ver juntos.”) e um conjunto de debilidades físicas que mais
cedo ou mais tarde surgiriam com a idade (“Dores de costas? Pois, tenho de
melhorar a postura em sprint. Azias e enjoos? Tenho de beber mais biodinâmicos e deixar
de fumar Toros da Nicarágua”).
Como sinto que já
fiz inimigos suficientes (especialmente com o último parágrafo), termino apenas
dizendo que não escrevo com qualquer sentido de superioridade ou imunidade a este tipo de desejos que são evidentes para quem vê a vida começar a acelerar e quer provar
a si mesmo a sua capacidade de a aproveitar. Porque não há nada mais
natural no espírito eternamente curioso do ser humano do que um novo interesse
que desenvolva os seus sentidos e capacidades para patamares inexplorados,
tornando-o assim "uma melhor versão de si mesmo". Vêem? Não há ninguém que melhor nos consiga
iludir com justificações perfeitamente racionais, lógicas e encorajadoras para estragar o cabedal mais um bocadinho e complicar complicadas vidas profissionais
e familiares do que nós próprios. Tudo visto e somado, acho que as crises de meia-idade acabam por ser mais saudáveis.
P.S.: Numa prova de que não aprendi nem refleti nada com o que acabei de escrever, comecei a seguir o Manchester United do Ruben Amorim, i.e., os jogos, conferências de imprensa, entrevistas, análises e as respectivas redes sociais.

Estupendo Miguel, você é uma estrela
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