Reflexões de um Munícipe Privilegiado



Tendo passado mais umas eleições autárquicas que apresentaram aos lisboetas um armário cheio de roupas, mas nada para vestir, lembrei-me de partilhar convosco algumas inquietações e pensamentos que chegam à minha cabeça com uma frequência bem superior à do Metropolitano.

Sou um munícipe de Lisboa, freguês de Alvalade e tenho a sorte de auferir um nível de rendimentos que me torna uma minoria estatística considerando o panorama depauperado deste País e das pessoas que nele vivem. Vir, pois, queixar-me de trivialidades, percalços, chatices e maçadas é um exercício com algum grau de perigosidade, atenta a muito maior relevância e atenção que merecem os reais problemas desta cidade. Ainda assim, e porque a Internet é povoada de coisas inúteis, não ficará a sua montra de bestialidades mais descomposta se lhe decidir pendurar mais uns queixumes, como aqui venho fazer.

Sou um indivíduo que gosta muito de andar a pé. Percursos de 15, 30 ou até 60 minutos encantam-me porque tenho a oportunidade de conhecer novos sítios, restaurantes, monumentos e colectividades povoados por vidas que, apesar de distintas, se cruzam com a minha no breve intervalo que demora olhar para um expositor de carnes, um menu do dia ou uma esplanada com maduros já a beber a sua Mini matinal.

Se fosse completamente honesto, também poderia dizer que o que me leva a preferir andar a pé ou de metro é a aversão que tenho ao trânsito, às buzinadelas, à ânsia de encontrar lugar, à EMEL e a tudo o que envolve a utilização de automóveis nesta cidade. Continuando a ser honesto, esta aversão também se explica por uma inaptidão voluntariamente pouco treinada para revolver estes corredores de enlatados a que gentilmente chamamos ruas e, ainda mais benevolamente, avenidas.

Para quem partilha deste gosto pelo bipedismo e goza desta desmerecida condição social, Lisboa não é propriamente uma cidade muito agradável. Já não o é há uns anos (ou talvez nunca tenha sido), mas tenho ideia que está francamente pior. Um simples passeio pelo Jardim do Campo Grande, zona insuspeitamente central, verde e espaçosa, confirma estas impressões.

Em primeiro lugar, e para quem está a entrar via Entrecampos, importa ter extrema atenção aos semáforos. É que, ao contrário de muitas cidades europeias, o sinal vermelho na freguesia de Alvalade (bem como a maior parte do Código da Estrada) tem carácter meramente indicativo, não eximindo crianças, idosos, runners, joggers e footers (estes três são a mesma coisa: aquela malta que se veste de licra fluorescente e óculos polarizados) de guardar extrema cautela a atravessar a rua, sendo frequentes os casos de atropelamento e quase-atropelamento.

Vencida esta primeira etapa, poderíamos pensar em desfrutar de um passeio tranquilo num espaço verde prazeroso. Contudo, os nossos olhos e nariz esfumaçam esta miragem, levando-nos a crer que marchamos por um campo de batalha onde, na relva seca, pelada e maltratada, jazem garrafas partidas, copos de plástico, preservativos e todo o tipo de objectos que, em vão, tentamos que não contactem com as manápulas curiosas dos nossos filhos (ou cães, para os de consciência mais malthusiana).

Olhando para este cenário de destruição e rescaldo, é-nos também possível identificar a presença de soldados caídos ou em recuperação. Refiro-me a alcoólicos mal dormidos a curar ressacas em bancos, estafetas de “aplicativo” acampados em tendas Quechua, sem-abrigos a fazer a sua legítima higiene entre um círculo de árvores, a lavar o seu calçad, a esfregar a sua roupa e, em suma, sobreviver da forma mais digna possível. Tudo isto é observável a partir das oito ou nove da manhã de qualquer dia de semana, exceto quando cai a noite, porque ao Jardim falta também iluminação.

Progredindo pelas trincheiras, chegamos a um quiosque e um parque infantil onde se verifica uma curiosa reversão da psique humana: as crianças do parque comportam-se como adultos num quiosque e os adultos do quiosque como se fossem crianças de colo. É especialmente deprimente, a um sábado de manhã, atravessar um cemitério de copos de plástico, beatas, papéis e vidros partidos que deviam ter sido varridos pelo quiosque (ou pela Junta, ou pela Câmara, ou por outra entidade qualquer ainda não designada porque provavelmente será necessário aprovar uma lei especial para o efeito na Assembleia da República) para levar os miúdos a andar de baloiço.

Existe também um lago que por vezes tem patos, e noutras mais raras, até mesmo água. Também lá tomam banho no Verão os que, por falta de alternativa ou higiene, têm outra concepção de espaço público. Nessa categoria incluiria também a malta das praxes, não por especial desconsideração à sua vocação ou sentido estético (não tenho espaço para falar disso aqui), mas simplesmente porque fazem um uso mais intensivo dos relvados do que os adeptos do Sporting nas roulottes em dia de jogo, ou mesmo as próprias equipas no estádio.

Para combater este Apocalipse existe um completíssimo sistema de rega que nutre de igual modo flora e asfalto; valorosos funcionários que se espalham insuficientemente pelo Jardim e umas quantas carrinhas que recolhem os ramos caídos e souvenirs deixados por estudantes, animais e indigentes. Parece-me um trabalho inglório e um corpo de missão escasso para bater de frente com as intempéries provocadas pelo Homem e, a tempos, as da Natureza.

Podia, ao relatar tudo isto, convencer-me de que esta realidade é inaceitável, indigna de uma capital europeia, demonstrativa de como a cidade trata os seus espaços públicos e de quão mal vivem alguns dos seus habitantes (uns por presumida reprovação às aulas de Cidadania, outros por puro abandono). Mas depois lembro-me que este Jardim está literalmente à frente da Câmara Municipal de Lisboa, que está localizado numa das melhores freguesias, senão a melhor, para viver na Capital e que pouquíssimos são os que conseguem sequer viver neste perímetro dourado. “Na verdade”, penso eu, “isto não deve ser assim tão mau, devo estar a exagerar e isto até tem o seu quê de pitoresco. De facto, se vivesse dentro de um carro, circulasse entre parques cobertos, escritórios e centros comerciais, mal daria pela existência desta gente inconveniente, desta lixeira e desta incivilidade. Eu é que estou mal, devia comprar um carro.”

2 comentários:

  1. Muito bom! Tudo verdade

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  2. Muito bem! O problema é que quem gere a cidade nem sequer anda a pé nem vivência estas experiencias, não ao fazendo por isso p*ta ideia de como as coisas estão...

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