Mango Chiado - Crítica

Abriu na semana passada a nova loja da "Mango" no Chiado, esse local com poucas superfícies comerciais dedicadas ao vestuário (Benetton, Zilian, Gardenia, G-Star, Levi's, Bershka, Massimo Dutti, Zara, Pull & Bear, Pepe Jeans, El Ganso, Sacoor, Hugo Boss, H & M). Não obstante,  saúdo esta iniciativa e deixo registada nos parágrafos seguintes a minha experiência na nova aposta da empresa de Barcelona.

Infelizmente para os que me lêem não estou autorizado pelos funcionários da loja a partilhar o acervo fotográfico que, na minha ingenuidade, achei inócuo. Está claro que uma obra arquitectónica constituída por 4 andares, um pé direito muito alto (é assim que se diz, não é?) e todos os elementos que são apanágio de uma loja destinada ao público feminino, é por si só uma experiência que não deve ser banalizada nem reproduzida nas redes (anti)sociais. Assim, ilustro este artigo com uma frase proferida esta semana que me provou fortes emoções do ponto de vista ontológico e que (penso) vos servirá bem no futuro.


Voltando à Mango, é preciso salientar a magnanimidade com que foi disponibilizado um piso inteiro (o primeiro) para a secção de moda masculina. Como sabem, neste tipo de lojas a existência de uma secção dedicada a todos aqueles que se identificam como seres de características masculinas (gostaram desta formulação politicamente correcta?) visa unicamente preencher uma quota de género, a bem da igualdade e representatividade no sector do vestuário. O que acaba por acontecer, à semelhança de outros domínios em que há quotas, é que estas áreas são usadas como backup para o excesso de procura feminina nos provadores e caixas de pagamento.

Subindo a escada rolante, o elevador ou as escadas (não rolantes), começamos progressivamente a descobrir os restantes três pisos, estes já dedicados à moda de senhora (e criança, mas só tipo 5%). Aqui não há muito a dizer. Cumpre apenas assinalar a limpeza e aprumo na arrumação das peças de vestuário, uma realidade perfeitamente demonstrativa do quão recente é a loja. Qualquer pessoa medianamente atenta sabe que a aparência normal deste tipo de superfícies é similar à dos quartos das adolescentes e jovens adultas que as frequentam.


As áreas de cada piso são também muito vastas, com cantos e recantos suficientes para nos fazer passar longos momentos de lazer (sempre em pé) e sentir regozijo com soluções arquitectónicas elegantes, mas proibidas de registo instagrâmico («Eu sei que isto é lindo, mas não tem autorização para fotografar», disse-me uma das colaboradoras). 

Quanto à roupa, vou apenas falar escrever do que sei (acho eu): está muito presente a estética militarizada, as camisas azuis com padrões (cornucópias, bolinhas, flores, etc) e os trench coats (que fixação é esta com a guerra?) Como possuidor de um casaco de estilo militar e camisas de padrões (graças apenas ao bom gosto da minha namorada) confesso-me agradado com estas propostas, mas sensatamente desconfiado quanto à sua durabilidade. Se há coisa que este tipo de marcas não pretende é que os seus clientes só lá vá uma vez por ano.


Em conclusão, a minha apreciação sobre a nova Mango do Chiado é muito positiva: vem suprir uma falha no mercado (inexistência de lojas de vestuário na zona), proporciona um tratamento mais digno aos clientes masculinos (façamos vista grossa à inexistência de bancos/sofás) e tem uma entrada directa para os Armazéns do Chiado, facilitando uma retirada estratégica do cônjuge mais afectado pelos horrores do "campo de batalha". Numa escala em que 1 é Primark e 10 é aqueles personal tailors do online que agora estão na moda, a Mango do Chiado leva um sólido 7, um valor suficiente para atrair fashionistas, mas não demasiado alto para não estragar os fins-de-semana aos seus namorados.

Uni Sushi

O que é que leva um indivíduo a ir almoçar à Ericeira num dia chuvoso? "O marisco!", dirá a maioria dos benfeitores que ainda tem paciência para me ler. Não estão totalmente errados, já que a Ericeira é provavelmente um dos sítios onde se come o mais fresco marisco de Portugal. Contudo, o que me leva a escrever este texto é a qualidade e consistência de um espaço que vejo ter pouco destaque na comunicação "lifestyle" portuguesa (vocês sabem quem são).

Refiro-me ao Uni Sushi, um restaurante que tem uma fórmula vencedora: peixe saborosíssimo e um preço impermeável à inflação provocada pelos restaurantes de sushi lisboetas. No Uni Sushi, os amantes do sushi tradicional (leia-se, os que gostam de sushi sem maionese) encontram um local que aproveita da melhor forma o que chega à costa da Ericeira.

E a outras costas também.

Uma das vantagens do sushi relativamente a outro tipo de gastronomias é que não precisamos de muitas palavras para descrever a sua qualidade, dado que as suas características estéticas têm, na maior parte das vezes, um valor auto-explicativo. De facto, ao passo que um prato de moelas ou rins pode carecer de um enquadramento escrito para os mais desconfiados, uma simples imagem do sashimi do Uni Sushi é suficiente para comprovar a sua qualidade.

É mesmo necessário inserir uma legenda?

Outra das particularidades do Uni Sushi face à concorrência é que, estando numa localização privilegiada no que diz respeito à sua matéria-prima, pode inovar e apresentar propostas únicas e verdadeiramente originais. É o caso do Uni Maki, um "enrolado de salmão com ovas de ouriço". Não se tratam dos "Ouriços", doce típico da Ericeira, e muito menos provêm da "Discoteca Ouriço" (considerada como uma das mais antigas de Portugal),  mas sim daqueles que estão no fundo do mar e são muito apreciados no Japão (onde as ovas podem custar até $80 o quilo).

Uni Maki.

É verdade, já repararam que ao longo deste artigo ainda não usei uma palavra obrigatória nas peças que versam sobre este tipo de cozinha? Pois é, hão-de reparar que a palavra "frescura", "fresco" ou "fresquíssimo" não foram utilizadas na descrição das divinais combinações do Uni Sushi. Não o faço porque tenha dúvidas quanto à proveniência ou qualidade do peixe, mas tão-só porque aprendi recentemente (obrigado Anthony Bourdain e Chef Masa Takayama) que o melhor peixe para sushi não tem de ser necessariamente o mais fresco, dado que as suas qualidades gustativas variam consoante a sua espécie e estado de conservação. 

Assim, o que vos posso dizer é que o conceito de "frescura" adoptado no Uni Sushi é de certeza o mais adequado a cada prato e pedido, o que não só abona muitíssimo a favor do cuidado e técnica na confecção, mas também nos transporta para um universo de verdadeira exclusividade. Da próxima vez que estiverem dispostos a pagar mais de €70 para ir a mais um sushi com paredes roxas e mobiliário preto, invistam parte desse dinheiro em combustível e rumem à Ericeira.

Zapata

É satisfatoriamente irónico notar que uma Casa que se apresenta com o nome de um revolucionário mexicano é, na verdade, um local com uma agradável disposição conservadora. Situado no n.º 47 da Rua do Poço dos Negros, o Zapata, não sendo de todo um espaço fracturante com o panorama das tascas lisboetas, é um sítio onde o essencial é bem feito.

A fachada do Zapata.

O Zapata apresenta-se como um destino de conveniência, conforto e qualidade. Aqui podemos chegar a qualquer hora do dia e somos sempre servidos. A escolha é vasta e a execução exímia. Recaiam as opções em pratos de nome polémico ("Frango no forno à maricas"), mais convencionais ("Bacalhau assado com batata a murro"), ou com um "quê" de inovação ("Gambas à braz"), sabemos que estamos sempre seguros. Não obstante, e como em qualquer espaço desta índole, ficaremos melhor se pedirmos os pratos do dia ou as especialidades da Casa.

Bacalhau assado com batata a murro.

Aliado ao ecletismo do restaurante, temos o desejado serviço familiar e uma disponibilidade quase ilimitada.  O espaço encontra-se sempre cheio nas horas normais de almoço, mas o facto de se poder entrar para almoçar às 16h00 (ou mais tarde), torna este restaurante um must para todos os que tenham isenção de horário de trabalho (ou isenção de trabalho). 

Emiliano Zapata ladeado de certificados de qualidade do sector da restauração.

Dificilmente terá Zapata alguma vez pensado que o seu legado chegaria a Portugal e perduraria na fachada e paredes de um excelente restaurante de comida típica. Igualmente improvável é também um almoço de semana numa tasca lisboeta me ter incentivado a ler e a estudar a história da Revolução Mexicana de 1910. Estas improbabilidades, bem como a enérgica e transparente conversa que tive sobre política, sociedade, cinema e uma ou outra banalidade, fizeram-me pensar em Mário Soares. Não só por as suas cerimónias fúnebres estarem a ser transmitidas na altura e por estar ligado a uma revolução como Zapata, mas principalmente por ter lutado para que as pessoas pudessem discutir ideais políticos e filosóficos da forma mais inócua e desejável possível: à mesa e com boa companhia.

Novo ano na Babilónia

Tenho tido dificuldades em escolher algo sobre que escrever neste início de ano. Por esta altura, a maioria das coisas que vemos e lemos na Internet e comunicação social está relacionada com tops e listas que classificam as melhores coisas do ano transacto ou com as chamadas "resoluções de ano novo". Confesso que a "foleirada" destas últimas sempre me irritou um pouco, tal como as flash mobs, o galo da Joana Vasconcelos ou aqueles pedregulhos junto ao Cais das Colunas empilhados uns em cima dos outros.

Fascinante.

A quantidade de artigos, posts e tweets com desejos e resoluções para 2017 a que tenho sido sujeito feriu quase de morte a minha criatividade e levou-me a indagar sobre esta aparente necessidade que temos de celebrar e mudar a nossa vida assim que o relógio passa das 23h59 do dia 31 de Dezembro para as 00h00 do dia 1 de Janeiro. 

Ao que parece, este estado de coisas já se arrasta há algum tempo. Quando escrevo algum tempo refiro-me a mais de 3.000 anos de História. Pelo que andei a ler, consta que as festas de passagem de ano começaram com o "Akitu" ("Cevada" ou "Ceifa da Cevada"), um festival de Primavera das civilizações da Mesopotâmia (actual Iraque) que marcava o início das colheitas e, consequentemente, do ano. Para esta tradição foi especialmente influente o Akitu da Babilónia, uma cerimónia de 12 dias, que se destinava não só a celebrar o início da Primavera e das colheitas, mas também a "relembrar" o rei das suas promessas e deveres para com a comunidade e a sua obediência ao deus Marduk.

Curiosamente, ainda nos dias de hoje em Portugal se celebra uma versão antitética do Akitu em que se destroem os frutos do trabalho e se deixam promessas por cumprir. Chama-se "Legislatura".
©opanorama.pt

Não vou entrar em detalhe quanto às formas arranjadas pelos Babilónios para inculcarem no seu suserano o necessário "sentido de Estado" (digamos que envolvia o despojamento das armas, coroa e ceptro do rei e culminava com o mesmo a ser esbofeteado em público pelo sumo-sacerdote), mas não deixa de ser curioso que uma tradição iniciada para celebrar a agricultura, controlar e legitimar o poder político e glorificar os deuses, seja hoje pretexto para nos comprometermos a perder peso, deixar de fumar ou simplesmente a passar menos tempo na net (no que me diz respeito, apresento desde já as minhas desculpas).

Reveillon nas Portas de Ishtar 1837 A.C./1836 A.C. - reserve já!
@ancient-origins.net

Poderia começar um tirada moralista sobre como as nossas prioridades e valores se encontram frouxos ou pervertidos nos dias que correm, mas prefiro sublinhar a curiosidade que assinalei acima. Com efeito, as preocupações dos Babilónios, Sumérios ou Assírios emulam perfeitamente (pelo menos numa perspectiva ocidental) alguns dos desafios e problemas que atravessamos nos dias de hoje: a questão ecológica e de sustentabilidade, a legitimação e credibilidade dos nossos sistemas políticos e a necessidade de reafirmação e defesa dos nossos valores e princípios face a ameaças externas ao nosso modo de vida.

É frequente pensar que há séculos atrás as pessoas eram sujas, pouco civilizadas e ignorantes. Talvez o fossem, mas pelo menos podemos reconhecer um significado nos seus ritos e tradições, expresso numa preocupação genuína e colectiva com questões das quais depende a nossa existência no planeta Terra e a convivência em sociedade. E sim, já sei no que estão a pensar: «toda esta macacada da Babilónia é só uma desculpa elaborada para ele não ter resoluções de ano novo e não se inscrever no ginásio». Esperemos que resulte.

Guarda Noturno Paulo Alves

Guarda Noturno Paulo Alves é uma página pública de Facebook destinada à «divulgação do serviço de guarda noturno, em particular, do guarda noturno Paulo Alves, da zona 2 do Munícipio do Funchal». Nesta página, Paulo Alves relata em detalhe e com particular acutilância as falhas de segurança que vai «detetando» e «corrigindo» na sua zona de intervenção (Zona 2, Sé / S. Pedro).

Guarda Noturno Paulo Alves

Com especial afinco e diligência, Guarda Noturno Paulo Alves (já se percebeu que adoro este nome, não já?) publica diariamente fotografias das «situações», acompanhando as imagens de um relatório da sua noite de trabalho. Começando por uma rigorosa descrição técnica de ocorrências como uma «chave que ficou invertidamente na porta», «duas portas de entradas para condomínios abertas», ou «uma garagem aberta de um prédio com fins turísticos», Paulo Alves não se limita simplesmente a dar nota da resolução destes casos. Paulo Alves faz mais do que isso e, revelando um verdadeiro talento para o marketing e publicidade, promove de igual forma a eficácia e qualidade dos seus serviços.

«Chave que ficou invertidamente na porta de um condóminio que reside num condomínio que detém os meus serviços.»

É precisamente na linguagem comercial de Paulo Alves que reside a beleza desta página. Que não restem dúvidas: sou totalmente a favor deste tipo de actividade e apoio totalmente a persistência e "garra" de Paulo Alves. Se não são da mesma opinião, ou não estão muito convencidos, deixo que seja o próprio a explicar-vos algumas das razões que fazem dele um profissional de excelência.


Não obstante o profissionalismo e empenho demonstrados diariamente pelo Guarda Noturno Paulo Alves, a sua pessoa não é unânime no seio da profissão. Com efeito, alguns dos seus colegas que «dão entrada de serviço» à meia-noite, mas só começam a efectuar a ronda a partir da uma da manhã, sentem-se incomodados com o seu sucesso e criticam a sua transparência e à-vontade com as novas tecnologias de informação. Para estes, Paulo Alves tem resposta pronta: «digam o que disserem meus amigos o meu trabalho está á vista de todos será que o de alguns colegas que tanto me criticam também é assim tão visível? Será que é só na zona 2 que os contribuintes se esquecem de portas e janelas abertas?»

Por tudo isto, e muito mais, o trabalho do Guarda Noturno Paulo Alves merece ser divulgado e valorizado. Nesse sentido, encorajo-vos a visitar o seu site (sim, há um site) onde poderão consultar notícias, avisos, entrevistas e reportagens sobre a actividade de Paulo Alves. Por fim, e num tom mais sério, devo dizer que se vivesse no Funchal seria certamente um «contribuinte» do Guarda Noturno Paulo Alves, já que é rara e inestimável a dedicação com que este homem desempenha um verdadeiro serviço público. 



P.S.: Todas as imagens, textos e citações aqui reproduzidas são da autoria do Guarda Noturno Paulo Alves. 

(E porque amanhã é Natal, deixo-vos com mais algumas!).

«...janela que faz parte de um prédio que já foi alvo de visitantes no passado recente...»

«...janela aberta que pode servir de porta de entrada para os tais amigos do alheio.»

«...escritório que ficou aberto...»

«...porta de acesso a uma area de serviço de uma das clinicas da nossa cidade que também tinha ficado aberta mas que foi prontamente encerrada apôs contacto da minha parte pelo staff que estava de serviço.»

«...mota com a respetiva chave na ignição e as respetivas luzes ligadas...»

«...portão de acesso a um parque de estacionamento da nossa cidade que detém os meus serviços já há alguns anos.»
 

Pho-Pu

Todos os anos, qual político em véspera de eleições, prometo que vou gastar menos tempo e dinheiro nesta epopeia que é a compra de presentes de Natal. Porém, o que acaba realmente por acontecer mimetiza na perfeição a situação financeira do nosso país.

Eram três da tarde e eu estava em pleno Chiado ainda sem ter almoçado. Como não me apetecia hambúrgueres gourmet nem nenhuma proposta do Chef Avillez, recorri a um dos bairros que melhor me tem tratado em termos gastronómicos: a Mouraria.

E como sempre não desiludiu.



















Há já algum tempo que queria ir ao Pho-Pu, um restaurante vietnamita na Rua do Benformoso. O restaurante estava completamente vazio e a gerente já estava a ver a novela da tarde, "Laços de Sangue", com a pujante Dânia Neto numa interpretação singular de uma peixeira (de profissão). Foi por isso com alguma cautela que entrei e perguntei se ainda podia ser servido. A gerente disse-me que sim e que me ia servir o pho da casa, uma sopa de massa de arroz com carne de vaca desfiada (e com uma ou outra tripa). Perante a frontalidade da senhora, sentei-me e aguardei pela refeição.

Pho Vietnamita.

O caldo era absolutamente delicioso. Picante como se pretende (e ainda mais com a adição de molho sriracha, um molho de pimenta proveniente da Tailândia), apresentou-se numa dose monumental que me venceu inapelavelmente. Com efeito, não consegui terminar o prato, mas dei o meu melhor para não desiludir a senhora que fitava atentamente o ecrã enquanto Dânia Neto se envolvia numa disputa amorosa no seu local de trabalho (a peixaria).

Mas era mesmo disto que estava a precisar. Uma sopa nutritiva e saborosa servida num espaço familiar, limpo e barato. Menos sorte tiveram duas turistas que foram enxotadas do restaurante porque já eram quatro da tarde (ou porque queríamos ver a novela em sossego). De igual modo, a romaria de amigos e vizinhos durante este período foi tal que a nossa fiel gerente foi obrigada a colocar-me uma conta de €7,5 na mesa e a fechar o estabelecimento. Ficou-me a vontade de regressar com mais calma e de saber se as altercações de Dânia Neto com a sua colega (outra peixeira) ficaram resolvidas. 

 

Depois entranha-se

Se quisermos pensar numa instituição sediada na cidade de Bruxelas que mereça aprovação unânime, não virão certamente muitos nomes à cabeça. Se tivesse de arriscar, diria que o restaurante Viva M'Boma ("Viva a Avó", num antigo dialecto de Bruxelas) merece estar entre esses nomes. Repescando a culinária das mães e avós belgas entre o final do séc. XIX e a II Guerra Mundial, o Viva M'Boma destaca-se pela confecção criativa de "entranhas" dos mais variados animais. Sim, não é  um espaço para estômagos fracos.

A sala principal do restaurante.

O aspecto visual do espaço é informal e descontraído, ao passo que a luminosidade, o serviço e, especialmente, a proposta gastronómica, sugerem um registo mais sofisticado e cuidado. Para além da ementa fixa existe um quadro com sugestões sazonais que, no nosso caso, foram muito bem acolhidas.

Começámos com uma salada de moelas, peito de pato fumado e foie gras que era um exemplo acabado de frescura. O foie gras apresentava uma textura cremosa (mas sem comprometer na consistência) que transitava particularmente bem para o pato. A confusão de aromas e sabores entre o doce e o fumado era envolvida pelas moelas em estado cru, dando uma conclusão coerente a uma pequena viagem de sabores.


Salada de moelas, peito de pato fumado e foie gras.

A acompanhar a salada de moelas veio também uma entrada de línguas de cordeiro. Tenríssimas, as línguas quase que se desfaziam na boca e invadiam o palato com um sabor intenso e apurado pelo molho feito à base de umas ervas que desconheço. Foi o prato ideal para fazer a passagem para as atracções principais da noite.

Línguas de cordeiro.

Relativamente ao prato principal as escolhas dividiram-se e foram eleitas três opções. No que me diz respeito, "arrisquei" uma sugestão da casa e escolhi um prato chamado choesels. As choesels são basicamente um guisado que contém molejas (pâncreas) de vitelo, rim e pés de carneiro, rabo, fígado e testículo (sim, testículo) de boi.

Les Choesels.

Escusado será dizer que é um prato pesadíssimo, mas com uma riqueza e diversidade que justificam plenamente a experiência. A variedade de texturas e sabores é tal que ao final de algum tempo percebe-se de olhos fechados o que se está a comer. É verdade que ao início pode parecer estranho estar a ingerir um testículo de um animal (especialmente para um homem), mas, vendo bem as coisas, é só mais uma parte do corpo. Porque é que há-de ser menos válida que umas costeletas? Quem come carne não tem muita moral para hierarquizar neste tipo de coisas.

Chegaram igualmente à mesa umas belíssimas molejas de vitelo braseadas e uns rougnons (rins) de vitelo que muito satisfizeram quem os pediu. Quanto a mim, pude experimentar uma garfada de cada prato e devo dizer que as molejas foram eleitas as vencedoras de um repasto altamente "competitivo" (ainda que com o meu tímido voto de vencido).


Molejas de vitela braseadas com cogumelos.

Rins de vitela com cogumelos.

Para a sobremesa veio a bola de gelado de limão da praxe encharcada em vodka e quase uma hora de conversa animada sem preocupações. O Viva M'Boma opera até tarde e mesmo depois da refeição os clientes sentem-se à vontade para por lá ficar a partilhar uns com os outros as experiências que acabaram de saborear. Num panorama gastronómico onde predomina um numerus clausus de pratos repetidos até à exaustão, uma terminologia artificial e uma panóplia de restaurantes "de conceito", é refrescante sair da norma e ir directamente até às entranhas da boa cozinha. 


O Fuso

Quando pensamos em teorias da conspiração famosas vem-nos à cabeça os Illuminati, a Área 51 ou a falseada ida do homem à Lua. A verdade é que, por muito mérito que estas conjecturas possam ter, todas, sem excepção, cedem perante a incontestabilidade que merece a mãe de todas as conspirações. Falo, é claro, do facto de só chover ao fim-de-semana.

Esta triste realidade levou a que, ao longo das últimas semanas, me dedicasse a pensar em programas que não fossem afectados pelo miserável estado do tempo que nos é reservado para os dias em que podemos estar na rua às 16h sem que isso mereça censura social. Só depois é que me lembrei que uma ida ao restaurante "O Fuso" é suficiente para combater os maus humores de S. Pedro.

Já estão a perceber porquê.

O Fuso é um restaurante na Arruda dos Vinhos conhecido pela qualidade e doses generosas do seu bacalhau assado. É um local obrigatório para todos os apreciadores do fiel amigo e para todos os que gostem de almoços tardios em estabelecimentos com capacidade para servir pequenos exércitos e um ambiente familiar e caloroso (nos dois sentidos).

Pela sua localização geográfica, dimensões e tipo de cozinha, o Fuso é ideal para famílias que não sabem o que fazer num fim-de-semana chuvoso. De facto, o passeio até à Arruda dos Vinhos, o inevitável tempo de espera e o labor e dedicação necessários para enfrentar uma travessa do Fuso são ingredientes suficientes para ocupar uma tarde de Domingo e tornar desnecessária a ingestão de comida nas 24 horas seguintes.

Bacalhau proveniente do famoso "Mar da Arruda".

A qualidade do bacalhau convida pecaminosamente a excessos. Seja pelo facto de quase se derreter na boca, seja pelas doses necessárias (leia-se, exageradas) de azeite e alho, a verdade é que este é um dos poucos sítios que me votam ao mais profundo silêncio durante a hora da refeição. Estar sentado em família numa sala cheia de pessoas da mais variada proveniência enquanto se ouve a chuva lá fora e se prova este manjar é provavelmente a melhor definição que consigo arranjar para o chamado "sentimento de comunidade". Aqui todos temos o mesmo objectivo, todos nos esquecemos das nossas diferenças e todos nos unimos em torno da mesma missão. Pronto, alguns comem carne, mas todas as comunidades têm os seus párias.

Uma "dose" de bacalhau assado.

Para os mais corajosos (ou inconscientes) está ainda reservada uma sobremesa cujo impacto na minha vida ombreia com o meu primeiro beijo ou a conclusão da minha licenciatura. Não sou por norma adepto de sobremesas, mas a simplicidade e o prazer de um prato com doses iguais de massa folhada e açúcar leva-me a renegar os meus princípios nesta matéria e a agradecer profundamente às pessoas que contribuíram para esta descoberta. Vocês sabem quem são.

O "Folhado".

No final, ficam umas horas para passar estendido no sofá a relembrar com emoção a experiência e fingir que no dia seguinte não se tem de ir trabalhar. Mais importante do que isso, ficam também memórias das pessoas que connosco partilharam esses momentos e de um espaço que recebe com alegria todos os que lá comparecem com menor ou maior frequência. Vamos ao O Fuso não só para comer, mas também para nos recordarmos que é possível ter mais do que um sítio ao qual chamar "Casa".

O Cantinho do Bem-Estar

Comer no Bairro Alto não tem de ser uma experiência má nem cara (embora a esmagadora maioria das vezes o seja). É certo que as armadilhas para turistas abundam e  que os bastiões do bem comer e do bem servir são cada vez menos nesta zona da cidade, mas o Cantinho do Bem-Estar conserva-se no seu posto, zelando atenciosamente para que os apreciadores de boa comida portuguesa não saiam defraudados.

O nome é bem escolhido.

Os espaços de excelência fazem-se de ideias simples, pretensões realistas e comida singular. No Cantinho do Bem-Estar existem meia dúzia de mesas, outros tantos pratos a preços altamente acessíveis e um serviço familiar. A estrela da companhia são os filetes de peixe galo, cuja frescura e a consistência quase aveludada são motivo suficiente para fazer deste estabelecimento um local de frequente peregrinação.

As doses são, como é bom de ver, "apropriadas".

Não obstante a afabilidade e disponibilidade com que os proprietários deste espaço recebem os clientes, convém referir que um telefonema prévio é sempre desejável, uma vez que a casa tem períodos de descanso e de férias no mínimo "flexíveis". Fora isso, não existem muitos mais sítios nesta zona de Lisboa que reúnam as características e qualidades do Cantinho do Bem-Estar. Terminar uma refeição com a barriga e a carteira cheia (a conta ronda geralmente os €10) vai sendo cada vez mais raro, mas só se torna mesmo impossível quando nos dispomos a trocar a qualidade e genuinidade pelo popular e efémero.

O Natal na cidade

Todos sabemos que o verdadeiro Natal é aquele que nos é mostrado pelos anúncios do azeite Gallo. Neles encontramos a aldeia do Interior com 32 habitantes, a humilde casa de xisto, a faustosa sala de jantar, o serviço Vista Alegre, o bacalhau e a família citadina com 3 filhos (coisa tão portuguesa) que foi passar a consoada com os avós à "terra". Esta é a ordem natural das coisas e todos a aceitamos.

Antes de prosseguir, respondo já aos vossos protestos. Não, ainda não é demasiado cedo para estar a falar sobre o Natal. Como é que sei isto? É fácil. Basta constatar que as iluminações já estão instaladas nas ruas de Lisboa e que o anúncio da Popota tomou novamente de assalto a televisão portuguesa. Não venham por isso dizer que é demasiado cedo para falar do Natal. Se a Câmara Municipal de Lisboa e o Grupo SONAE acham que entrámos na época natalícia, então é porque já o fizemos.

Que saudades do Natal...

© Modelo Continente Hipermercados, S.A.

Continuemos. Não obstante muitos de nós nos identificarmos com o Natal clássico acima descrito, a verdade é que existe um outro tipo de Natal. Um Natal alternativo onde o temido e impiedoso capitalismo e a ainda mais selvagem falta de bom senso das pessoas conseguem transformar uma época festiva num espectáculo com doses iguais de despesismo e stress. Apresento abaixo as três características principais que distinguem um Natal citadino, ressalvando que na sua génese até não são más ideias. As pessoas é que conseguem dar cabo de tudo.


Jantares de Natal

Não há grupo de amigos, empresa ou associação que se preze que não tenha o seu jantar de Natal. É como uma espécie de festa de aniversário para aquele grupo de pessoas que até pode não se ver ou falar muitas vezes, mas não quer perder o contacto (ou ser despedido). É por isso natural que tenhamos uma multiplicidade de jantares de Natal: o jantar do grupo de amigos da faculdade, da empresa, do ginásio, dos homens, das mulheres, dos que não ligam nenhuma ao Natal e só querem beber uns copos, das solteiras, dos casais amigos, das grávidas, dos divorciados, enfim...

Interroga-se o senhor calvo da esquerda: "Não sei porque é que continuo a vir a estes jantares. Bem, o vinho até é bom..."
© Chad Chesmark

O que me move contra os jantares de Natal? Nada por aí além. Mas convenhamos que é muito irritante não conseguir reservar um restaurante entre meados de Novembro e o final de Dezembro. Nesta altura, a lista de reservas dos restaurantes em Lisboa rivaliza com a do elBulli nos seus tempos áureos. Também é chato jantar ao som de 30 matronas alcoolizadas com gorros do Pai Natal e vozes com um timbre similar ao dos apitos para chamar cães. Mas isto sou eu que acha que este tipo de coisas deve ser feito no estrangeiro (como as despedidas de solteiro).


Comprar presentes

Não há altura do ano em que compreenda melhor as contradições dos militantes do PCP como quando chega a época natalícia. Ir a um centro comercial no Natal é uma reprodução mais fiel do comunismo nos dias de hoje do que o que resulta do programa eleitoral do Partido Comunista.  Senão vejam: existe um claro domínio da cor vermelha, uma turba de pessoas sofrendo em filas e até mesmo um hino oficial (Mariah Carey - All I Want for Christmas Is You). Por outro lado, a fúria consumista expressa na quantidade de coisas que se oferecem às criancinhas, nas decorações para a árvore, a mesa, a casa, o prédio e o jardim traz a pureza ideológica para o campo do comércio. É tipo uma edição de Inverno da Festa do Avante.


Em que outro regime existiam filas de crianças para abraçar e receber algo de um homem com um uniforme vermelho?

Embora seja absolutamente necessário, chega a ser deprimente fazer compras de Natal. É um pouco como ir ao dentista: sabemos que se não o fizermos vamos ter represálias para o resto da vida. É claro que o princípio de oferecer um presente a alguém encerra um sentimento nobre e louvável e não deve constituir um encargo ou uma obrigação. Duvido é que esse sentimento seja quase impossível de pôr na mala do carro porque pesa mais de 100kg.


O "feeling escandinavo"

A vasta maioria do território português não tem neve. Esta afirmação empírica não é ainda assim suficiente para demover as entidades camárias de proporcionar aos seus munícipes experiências que visam simular o Natal em cidades como Oslo, Estocolmo ou Copenhaga. Temos pois pistas de gelo espalhadas pela cidade, fachadas de edifícios cobertas de neve artificial e todo o tipo de efeitos especiais destinados a fazer-nos sentir a originalidade daquele Natal. Vocês sabem, aquele que nunca vivemos.

Devo dizer que nada me faz sentir mais que é Natal do que passar por uma pista de gelo na Praça da Figueira. Há sempre música a tocar (Mariah Carey - All I Want for Christmas Is You), bebidas típicas portuguesas (ginjinha) e um speaker a incentivar as pessoas (os pais das crianças). Ver os mais pequenos e os seus progenitores a patinar no gelo com 17ºC de temperatura enquanto os skaters andam nos passeios e partilham charros faz-me sentir verdadeiramente a magia do Natal na cidade.


Ainda assim é melhor que a feira que lá costuma estar.
© O Corvo

A conclusão óbvia deste texto é que o Natal passado na cidade está longe de ter a autenticidade daquele que é vivido em zonas mais rurais. É natural que assim o seja e aceito-o com tranquilidade. Os grandes centros urbanos oferecem na melhor parte das vezes mais condições para viver a época natalícia, reunir os familiares e cumprir as tarefas inerentes a esta altura do ano. Independentemente de ser no campo, na cidade ou num ringue de patinagem, o mais importante é (pronto, lá vem banalidade) passarmos o Natal com quem mais gostamos. Ou então viajar para o hemisfério Sul e aproveitar os feriados e pontes para uma semaninha de praia.